LIVROS
Carlos
Calado conta a história de uma
revolução musicalpor DÉBORA
NASCIMENTO
Da Editoria de Turismo
"Quando
Pero Vaz Caminha descobriu que as
terras brasileiras eram férteis
e verdejantes, escreveu uma carta
ao rei: Tudo que nela se planta,
tudo cresce e floresce. E o Gauss
da época gravou". Quem
diria que a intrigante abertura
da música Tropicália nasceu de
um teste de som do microfone?
Enquanto o percussionista Dirceu
fazia o serviço no estúdio, do
outro lado o maestro Júlio
Medaglia pedia para o técnico
Rogério Gauss gravar. O
episódio faz parte da história
do movimento definitivo para a
progressão da MPB, narrada com
simpatia pelo jornalista Carlos
Calado em Tropicália - A
História de Uma Revolução
Musical.
O livro faz
parte da coleção Ouvido Musical
promovida pela Editora 34 e
coordenada pelo crítico musical
Tárik de Souza. Dela já foram
publicados A Divina Comédia dos
Mutantes (também de Carlos
Calado), Anos 70: novos e baianos
e Vida do Viajante: a saga de
Luiz Gonzaga.
Tropicália
começa pelo fim, ou seja, na
prisão de Gilberto Gil e Caetano
Veloso, em 27 de dezembro de 68,
culminando com o exílio em
Londres - fato que interferiu
radicalmente no estilo musical
(pós-tropicalista) dos baianos,
principalmente no de Gil, que, ao
contrário de Caetano, estava
mais aberto às novas
influências do pop.
Nos capítulos
seguintes, o jornalista volta no
tempo e conta como tudo começou
- a vida dos integrantes, antes
de tomar forma aquilo que ainda
não era conhecido como
Tropicalismo (o termo surgiu de
um irônico artigo de Nelson
Motta, quando ainda era o
franzino Nelsinho). Calado conta
como cada um foi conhecendo o
outro e, assim, formando um
grupo, uma turma e um...
movimento cultural.
Muito antes de
canções como Geléia Geral
serem compostas, o universo
musical brasileiro era torneado
pelo formalismo. Nessa época
Caetano já admirava, através da
TV, a desenvoltura violonística
de Gil - que dividia a carreira
artística com a de funcionário
da Gessy Lever.
Como não
poderia deixar de ser, o assunto
da primeira conversa do baiano
com o então tímido Caetano foi
a paixão que os dois tinham por
João Gilberto. O abusado
bossa-novista também foi o
cartão-de-visita de uma certa
Maria da Graça. Naquele mesmo
ano de 63, o compositor de Baby
ouviu pela primeira vez a voz de
Gau, do apelido de infância
Gagau (o ele quem pôs foi
Guilherme Araújo, em uma de suas
muitas interferências
empresariais) - e fez a
profética pergunta à moça:
"Para você quem é o maior
cantor do Brasil?",
"João Gilberto".
Depois da feliz
resposta da mais-que-tímida Gal,
os encontros com Caetano ficaram
freqüntes e a cantora teve um
estalo de encanto pelo autor de
Saudosismo. Mas havia uma
concorrente: Dedé Gadelha. A
solução das amigas foi investir
em uma leve competição, na qual
quem beijasse primeiro o rapaz, a
outra sairia de cena.
Outras
peculiaridades como esta são
abordadas no livro, como as
gozações que Caetano sofria dos
irmãos pelo fato de gostar do
trágico Vicente Celestino e de
escutar rádio - através dele o
futuro "psicanalista do
Brasil" conheceu a música
Maria Betânia, do nosso Capiba,
da qual se inspirou para dar o
nome à sua irmã mais nova. Essa
é só pra recordar.
E por pouco
Bethânia não foi a musa do
movimento tropicalista, no lugar
ou ao lado de Gal. A então
garota não ingressou (mas deu
muito conselho) na
"onda" porque ainda
estava transtornada em ter se
tornado bruscamente ícone de
esquerda por sua interpretação
de Carcará, de João do Vale,
falecido em 97.
O "pega,
mata e come" assustou a
resplandente jovem com seus 18
anos, que tinha apenas o objetivo
de ser atriz. Aliás, Bethânia
foi incentivada a ir para o Rio
de Janeiro pela doce Nara Leão e
começou a ficar conhecida
através da montagem de Boca de
Ouro, do superlativo Nelson
Rodrigues.
Carlos Calado
além de fazer um apanhado
histórico do Tropicalismo,
registrou os bastidores dos
programas de auditório, das
figuras paralelas ao movimento,
como os irmãos concretistas
Campos, Jards Macalé, Wally
Salomão, e destacou a
importância e a influência do
movimento para a música
brasileira. O jornalista fez uma
lista dos herdeiros
tropicalistas. E quem estava
entre eles? Chico Science que, em
96, sampleou Bat Macumba
(música-concreta do disco
Tropicália) para a sua Cidadão
do Mundo, do Afrociberdelia.
Calado também
cruzou a trajetória de Antônio
José Santana Martins, que
ingressou no meio musical
detonando irreverência. Sua
estréia na TV aconteceu em 60,
quando no programa de calouros
"Escada para o
Sucesso", o apresentador
perguntou "Como é o nome de
sua música?". "Rampa
para o Fracasso", respondeu
Tom Zé. E as pessoas na
sala-de-jantar morreram de rir.
Tempos depois,
ele era um dos integrantes da
histórica foto do
disco-manifesto Tropicália ou
Panis et Circencis, ao lado de
Torquato Neto (que tem passagem
tímida no livro), do maestro
Rogério Duprat (que na foto
está com um pinico na mão),
Capinam e Nara Leão (em
reprodução de fotos), Gil,
Caetano, Gal e os Mutantes.
Aliás, Rita
Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio
Dias injetaram atitude rock'n
roll num movimento que se
pretendia antropofágico. Eles
dividiam com Gil a paixão pelas
guitarras (a polêmica com os
puristas), pelos Beatles e seu
então recente lançamento, o
inovador Sgt. Peppers. Era
exatamente isso que todos eles
queriam com Tropicália: um
marco. E a manhã tropical se
iniciou.