Atenção ao agricultorUm Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura
Familiar (Fronap) foi lançado em
1996, como uma das primeiras
bandeiras do governo federal no
combate ao desemprego. Deveria,
inicialmente, beneficiar sítios
de pequena dimensão em 300
municípios pré-selecionados de
todo o Brasil,sendo 24 deles em
Pernambuco. Sua implementação,
segundo se dizia, seria uma forma
de promover uma melhor
distribuição de renda no setor
primário, pelo atendimento
prioritário dos segmentos mais
carentes, concentrados sobretudo
no Nordeste do país.
O dinheiro vem
de várias fontes, como o
Programa de Geração de Renda e
Emprego (Proger), Fundos
Constitucionais e chamadas
exibilidades bancárias,
perfazendo no exercício 96/97
cerca de R$ 1 bilhão. Mas, o que
aconteceu, na prática? Pelo
surgimento de problemas
burocráticos na hora dos
repasses pelos bancos oficiais,
os pleitos oriundos do Nordeste
andaram a passo de tartaruga,
enquanto os de outras regiões do
país correram como coelhos.
Resultado: 64% dos recursos foram
aplicados no Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul.
Apesar de ser
um "programa social", o
Pronaf vem, assim, contribuindo
para aumentar - e não diminuir -
a concentração de renda nas
regiões que já alcançaram um
estágio mais elevado de
desenvolvimento. E o que é mais
grave, nesse caso, é que não se
trata concretamente da
inexistência de dinheiro para o
Nordeste, mas da dificuldade que
os bancos oficiais de crédito
aqui operando têm em fazê-lo
chegar às mãos de quem dele
precisa. O diretor de
Planejamento da Secretaria de
Agricultura de Pernambuco, que é
o secretário executivo do Pronaf
local, sabe explicar a
preferência dos gerentes do
Banco do Brasil pelo pequeno
produtor agrícola da Região
Sul: "está mais organizado,
é mais profissional do que o
pequeno produtor de milho e
feijão no Nordeste". A
responsabilidade, nesse caso,
seria do próprio agricultor, ou
dos técnicos que administram o
programa?
Os produtores
da Região queixam-se amargamente
das instituições de crédito,
que sempre aumentam as
exigências para liberar
recursos. Geralmente muito
discretos, os responsáveis pelas
carteiras bancárias não fazem
declarações à imprensa.
Consideram-se cumpridores das
normas existentes e, se os
formulários não estiverem muito
bem preenchidos, não liberam os
financiamentos. Mas, alguns deles
queixam-se discretamente dos
técnicos estaduais, que não
orientam devidamente os pequenos
agricultores. Esse jogo de
empurra em nada contribui para
melhorar a situação.
Também de nada
adianta, o próprio presidente da
República queixar-se de público
contra os bancos oficiais, como
fez quando lamentou -
referindo-se aos programas
sociais em geral - o fato de que
"não se consegue fazer com
que esse dinheiro chegue lá
embaixo, na ponta". O Brasil
precisa de soluções, não de
diagnósticos, muito menos de
lamentações.
A burocracia,
fruto de uma racionalidade
eminentemente urbana, tem de se
adaptar a certas condições
locais, quando opera numa área
em que a população é em grande
medida analfabeta e vive isolada.
Se não o fizer, terminará se
constituindo num fator de
resistência ao acesso dos
pequenos rurícolas aos
benefícios mínimos e
elementares do desenvolvimento
econômico.
Num Seminário
realizado no Rio de Janeiro, já
há duas décadas, o economista
Nilson Holanda, ex-diretor do
Banco do Nordeste, incluiu entre
os principais problemas de
relacionamento do BNB com os
grupos empresariais, o que chamou
de "reação da sociedade
tradicional às regras e padrões
exigidos pelos bancos de
desenvolvimento". E
acrescentou: "Quando os
técnicos do banco começavam a
fazer aquelas indagações
fundamentais que caracterizam um
projeto, o empresário achava
aquilo uma burocracia
insuportável".
Muito tempo se
passou, desde então, e hoje os
sucessores desse dirigente de
banco devem saber que os grandes
inadimplentes não são os que
têm dificuldade em apresentar
projetos bem elaborados (pois
isso se contrata de terceiros).
Os pequenos pagam geralmente suas
dívidas, mesmo que não saibam
preencher todas as informações
exigidas pelas agências
bancárias.