ÍNDIOS
II
Os
Xucuru: novenas e brigas pela
terraO maior orgulho de Pedro
Rodrigues Bispo, o seu Zequinha,
pajé de uma das tribos que mais
representam a luta pela terra em
Pernambuco, os Xucuru, é ser
neto de um índio que chegou a
servir na guerra do Paraguai. Seu
Zequinha, porém, não pôde
seguir os passos do avó e foi
impedido de servir à pátria por
conta de sua boca desdentada.
"Foi uma grande
frustração", diz o pajé.
A casa onde
mora o líder espiritual dos
xucuru representa bem a
inserção do catolicismo no
dia-a-dia tribos pernambucanas.
No teto, dezenas de fitas de
papel crepon colorido foram
penduradas em homenagem à Nossa
Senhora das Montanhas, padroeira
da tribo. Um santuário azul
enfeitado com flores de plástico
foi colocado na parte principal
da sala e guarda a imagem da
santa, também conhecida como
Tamain. Junto à imagem, dois
Padres Cíceros e um Jesus da
Lapa misturam-se a várias fitas
e terços. Fotos de parentes,
santos e cantores sertanejos são
dispostas pelas paredes da casa.
"Ela é a
nossa mãe e rainha", diz
seu Zequinha, devoto fervoroso de
Nossa Senhora/Tamain. Mesmo
católico, o pajé ainda preserva
os mandamentos que o tornaram
líder espiritual de uma tribo
formada por cerca de cinco mil
índios. Na cozinha onde um
fogão a lenha é o maior luxo,
ele guarda as ervas que curam os
males habituais dos xucurus e os
guardam das dificuldades vividas
diariamente. "Pra um banho
de descarrego, sempre uso a erva
amarelinha".
Analfabeto, seu
Zequinha diz guardar uma certa
mágoa do pai por ele não ter
insistido que o filho se
dedicasse aos estudos. "Era
tudo muito difícil. Se no meu
tempo o estudo fosse como era
hoje, eu já era doutor".
Ironicamente, apenas um dos oito
filhos do pajé sabe ler e
escrever. A tradicional e
violenta briga pela terra entre
xucuru e posseiros atingiu sua
família, quando, há cinco anos,
um de seus filhos foi morto por
um "branco". "Eram
doze crianças, mas apenas oito
se criaram".
MULHERES,MORTE
E PODER - A morte entre os
xucuru, assim como em qualquer
outra área carente do Brasil,
chegou a um patamar onde sua
ocorrência chega a ser tão
natural quanto beber água.
Praticamente não existe nenhum
programa de planejamento familiar
por parte do governo, e as
índias continuam a ficar
grávidas sete a quinze vezes na
vida. Seus filhos, geralmente,
morrem antes de completar um ano.
A índia
Antônia Batista, 65 anos, pode
ser considerada uma exceção
neste universo: ela perdeu
"apenas" três dos seus
16 filhos. Vivendo da plantação
de milho, feijão e mandioca,
dona Antônia confecciona roupas
usadas pelos xucuru durante a
dança do Toré. As dificuldades
obrigaram sete dos seus filhos a
migrar para São Paulo e Minas
Gerais. "Quando meu marido
era vivo, a gente tinha mais
fartura. Os meninos torravam
milho e todos iam pro
roçado", lembra.
Há algum
tempo, o papel da mulher na tribo
cresceu, e hoje elas chegam a
posição de líderes, como
acontece com Zenilda Maria de
Araújo, mulher do cacique da
tribo, Francisco Assis, o
Chicão. É Zenilda quem gerencia
os acampamentos na época das
invasões dos índios a fazendas
localizadas dentro da reserva
xucuru, as apropriadamente
chamadas retomadas. "Cozinho
para todo mundo que faz vigília
no local", conta Zenilda,
que vive há 28 anos com Chicão.
Atualmente,
alguns dos xucuru estão
acampados numa área conhecida
como Sítio do Meio, próxima a
Brejinho, a 10 quilômetros de
Pesqueira. Desta vez, dona
Zenilda decidiu não participar
da retomada. "Achei que as
mulheres tinham que andar sem
minha ajuda", justifica.
Outro fator que chama atenção
na mulher xucuru é a aceitação
de relações extra-conjugais por
parte dos maridos. Muitas delas
cuidam de crianças vindas dessas
relações - a própria Zenilda
cria um garoto que não é seu
filho. "No final, são todos
filhos de um só", diz
Zenilda.
Os trechos em
destaque foram extraídos da
Constituição Brasileira,
capítulo 8, artigo 231