- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 19 de abril de 1998

ÍNDIOS II
Os Xucuru: novenas e brigas pela terra

O maior orgulho de Pedro Rodrigues Bispo, o seu Zequinha, pajé de uma das tribos que mais representam a luta pela terra em Pernambuco, os Xucuru, é ser neto de um índio que chegou a servir na guerra do Paraguai. Seu Zequinha, porém, não pôde seguir os passos do avó e foi impedido de servir à pátria por conta de sua boca desdentada. "Foi uma grande frustração", diz o pajé.

A casa onde mora o líder espiritual dos xucuru representa bem a inserção do catolicismo no dia-a-dia tribos pernambucanas. No teto, dezenas de fitas de papel crepon colorido foram penduradas em homenagem à Nossa Senhora das Montanhas, padroeira da tribo. Um santuário azul enfeitado com flores de plástico foi colocado na parte principal da sala e guarda a imagem da santa, também conhecida como Tamain. Junto à imagem, dois Padres Cíceros e um Jesus da Lapa misturam-se a várias fitas e terços. Fotos de parentes, santos e cantores sertanejos são dispostas pelas paredes da casa.

"Ela é a nossa mãe e rainha", diz seu Zequinha, devoto fervoroso de Nossa Senhora/Tamain. Mesmo católico, o pajé ainda preserva os mandamentos que o tornaram líder espiritual de uma tribo formada por cerca de cinco mil índios. Na cozinha onde um fogão a lenha é o maior luxo, ele guarda as ervas que curam os males habituais dos xucurus e os guardam das dificuldades vividas diariamente. "Pra um banho de descarrego, sempre uso a erva amarelinha".

Analfabeto, seu Zequinha diz guardar uma certa mágoa do pai por ele não ter insistido que o filho se dedicasse aos estudos. "Era tudo muito difícil. Se no meu tempo o estudo fosse como era hoje, eu já era doutor". Ironicamente, apenas um dos oito filhos do pajé sabe ler e escrever. A tradicional e violenta briga pela terra entre xucuru e posseiros atingiu sua família, quando, há cinco anos, um de seus filhos foi morto por um "branco". "Eram doze crianças, mas apenas oito se criaram".

MULHERES,MORTE E PODER - A morte entre os xucuru, assim como em qualquer outra área carente do Brasil, chegou a um patamar onde sua ocorrência chega a ser tão natural quanto beber água. Praticamente não existe nenhum programa de planejamento familiar por parte do governo, e as índias continuam a ficar grávidas sete a quinze vezes na vida. Seus filhos, geralmente, morrem antes de completar um ano.

A índia Antônia Batista, 65 anos, pode ser considerada uma exceção neste universo: ela perdeu "apenas" três dos seus 16 filhos. Vivendo da plantação de milho, feijão e mandioca, dona Antônia confecciona roupas usadas pelos xucuru durante a dança do Toré. As dificuldades obrigaram sete dos seus filhos a migrar para São Paulo e Minas Gerais. "Quando meu marido era vivo, a gente tinha mais fartura. Os meninos torravam milho e todos iam pro roçado", lembra.

Há algum tempo, o papel da mulher na tribo cresceu, e hoje elas chegam a posição de líderes, como acontece com Zenilda Maria de Araújo, mulher do cacique da tribo, Francisco Assis, o Chicão. É Zenilda quem gerencia os acampamentos na época das invasões dos índios a fazendas localizadas dentro da reserva xucuru, as apropriadamente chamadas retomadas. "Cozinho para todo mundo que faz vigília no local", conta Zenilda, que vive há 28 anos com Chicão.

Atualmente, alguns dos xucuru estão acampados numa área conhecida como Sítio do Meio, próxima a Brejinho, a 10 quilômetros de Pesqueira. Desta vez, dona Zenilda decidiu não participar da retomada. "Achei que as mulheres tinham que andar sem minha ajuda", justifica. Outro fator que chama atenção na mulher xucuru é a aceitação de relações extra-conjugais por parte dos maridos. Muitas delas cuidam de crianças vindas dessas relações - a própria Zenilda cria um garoto que não é seu filho. "No final, são todos filhos de um só", diz Zenilda.

Os trechos em destaque foram extraídos da Constituição Brasileira, capítulo 8, artigo 231


     

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