ÍNDIOS
III
A
busca de uma identidade quase
perdidaMesmo tendo sido
demarcadas pela Fundação
Nacional do Índio (Funai) em
1995, as terras dos Xucuru ainda
sofrem com várias
irregularidades praticadas por
posseiros, que vendem lotes e
fazendas localizadas em área
indígena. Para piorar, a
demarcação ainda não foi
homologada pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso - um
detalhe no mínimo curioso, já
que as terras das tribos Truká e
Atikum, demarcadas na mesma
época, já receberam a
assinatura de FHC.
A demora e a
inércia em relação à questão
territorial teve um lado positivo
para os Xucuru: a partir do
problema, eles começaram um
trabalho de resgate de uma
identidade que foi esquecida
durante anos. Para se ter idéia,
a língua xucuru deixou de
existir, restando apenas cerca de
300 vocábulos lembrados pelos
mais velhos.
De acordo com a
antropóloga Vânia Fialho,
autora da dissertação As
Fronteiras do Ser Xucuru, o
antigo Serviço de Proteção ao
índio (SPI), que precedeu a
Fundação Nacional do Índio
(Funai), proibiu que os
indígenas utilizassem sua
língua, um fato que contribuiu
ainda mais para o aniquilamento
da cultura. "Durante muito
tempo, eles negaram suas origens
por terem medo da própria
sociedade".
"A luta
pela terra levou-os a lutar por
sua identidade, que legitima o
direito deles", explica. A
lingüista Roseli Lacerda,
professora da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), vem
pesquisando a língua perdida dos
Xucuru, mas não acredita na sua
restauração. "Conhecemos
apenas palavaras soltas, não
existe estrutura", diz a
pesquisadora.
O TORÉ
- A importância da
terra no resgate às origens pode
ser facilmente identificada nas
épocas da retomada. Todas as
noites, os Xucuru dançam o
toré, que ganha dois sentidos
durante a posse: ele serve tanto
como um agradecimento aos
ancestrais pela vitória sobre a
terra quanto para firmar o
direito da tribo na área.
A índia
Quitéria Severo de Oliveira, 36
anos, vem organizando a retomada
do Sítio do Meio, assumindo,
assim, um posto antes ocupado por
Zenilda, esposa do cacique.
Viúva e mãe de cinco filhos,
ela divide as tarefas em sua
casa, localizada próxima à
retomada, em Brejinho, com os
afazeres do acampamento. Mesmo
não conhecendo nenhuma palavra
do xucuru, Quitéria faz questão
de participar do toré, que atrai
e desperta a curiosidade dos
não-índios da região.
"Ainda vou aprender a falar
a língua", diz a índia.