- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 19 de abril de 1998

ÍNDIOS III
A busca de uma identidade quase perdida

Mesmo tendo sido demarcadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) em 1995, as terras dos Xucuru ainda sofrem com várias irregularidades praticadas por posseiros, que vendem lotes e fazendas localizadas em área indígena. Para piorar, a demarcação ainda não foi homologada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso - um detalhe no mínimo curioso, já que as terras das tribos Truká e Atikum, demarcadas na mesma época, já receberam a assinatura de FHC.

A demora e a inércia em relação à questão territorial teve um lado positivo para os Xucuru: a partir do problema, eles começaram um trabalho de resgate de uma identidade que foi esquecida durante anos. Para se ter idéia, a língua xucuru deixou de existir, restando apenas cerca de 300 vocábulos lembrados pelos mais velhos.

De acordo com a antropóloga Vânia Fialho, autora da dissertação As Fronteiras do Ser Xucuru, o antigo Serviço de Proteção ao índio (SPI), que precedeu a Fundação Nacional do Índio (Funai), proibiu que os indígenas utilizassem sua língua, um fato que contribuiu ainda mais para o aniquilamento da cultura. "Durante muito tempo, eles negaram suas origens por terem medo da própria sociedade".

"A luta pela terra levou-os a lutar por sua identidade, que legitima o direito deles", explica. A lingüista Roseli Lacerda, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), vem pesquisando a língua perdida dos Xucuru, mas não acredita na sua restauração. "Conhecemos apenas palavaras soltas, não existe estrutura", diz a pesquisadora.

O TORÉ - A importância da terra no resgate às origens pode ser facilmente identificada nas épocas da retomada. Todas as noites, os Xucuru dançam o toré, que ganha dois sentidos durante a posse: ele serve tanto como um agradecimento aos ancestrais pela vitória sobre a terra quanto para firmar o direito da tribo na área.

A índia Quitéria Severo de Oliveira, 36 anos, vem organizando a retomada do Sítio do Meio, assumindo, assim, um posto antes ocupado por Zenilda, esposa do cacique. Viúva e mãe de cinco filhos, ela divide as tarefas em sua casa, localizada próxima à retomada, em Brejinho, com os afazeres do acampamento. Mesmo não conhecendo nenhuma palavra do xucuru, Quitéria faz questão de participar do toré, que atrai e desperta a curiosidade dos não-índios da região. "Ainda vou aprender a falar a língua", diz a índia.


     

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