ÍNDIOS
IV
Fulni-ô
prega casamento entre índiosDomingo, oito da noite,
ensaio do grupo fulni-ô
Unakessa. Índios e índias
entoam músicas em yathê, a
língua da tribo, sobre as
relações com os brancos, o uso
medicinal de ervas e os
ensinamentos divinos. Nos pés de
um fulni-ô que dança no grupo,
um tênis Nike destoa da
cerimônia tribal. Xyxiá,
criador da dança, abençoa todos
os casais presentes e lembra,
ainda em yathê, a importância
dos casamentos entre índios.
"Não se casem com
brancos", diz a música
cantada pelo coordenador.
A visão dos
fulni-ô sobre os homens brancos
chega a incomodar a princípio:
eles são sempre vistos com
desconfiança, como culpados por
todas as mazelas da tribo. Após
conhecer melhor os índios, a
sensação é de que este
comportamento representa, antes
de tudo, uma espécie de defesa e
de preservação de uma cultura
que vem sendo mantida há
séculos.
"Não me
sinto segura aqui na aldeia, onde
temos contato com os
brancos", diz Txiá, 35
anos. A família da índia vive
de pequenos bicos e do
artesanato, que só dá lucro
substancial na semana em que é
comemorado o Dia do Índio. Txiá
mora com os cinco filhos e o
marido Txoklayá, 40 anos, numa
casa de dois quartos, sala,
cozinha e uma pequena copa. Nos
dias de ensaios do Unakêssa,
realizados no quintal da casa de
Txiá e Txoklayá, diversos
índios circulam pela
residência, sentam-se pelo chão
e bebem água da jarra sem a
prévia autorização dos donos
da casa, hábito provavelmente
trazido da época das tabas.
O filho mais
velho do casal, Tafkexka, de 17
anos, prepara-se para se alistar
no Exército no ano que vem.
"Isso se eles deixarem, já
que os índios são geralmente
dispensados", explica
Txoklayá. Para ter mais chances
de ser aceito, o rapaz está
tirando novos documentos, onde
usa o "nome de branco",
Hugo Ferreira de Sá, que recebeu
ao se batizar na Igreja
Católica. "Nós temos que
nos batizar duas vezes, casar
duas vezes... nossos documentos
de índio não servem para
matricular as crianças na
escola, tem que ter
batistério", revela Txiá.
Os casamentos e
batizados entre os fulni-ô são
realizados tanto na pequena
igreja de Nossa Senhora das
Graças, a padroeira da tribo,
quanto no Ouricuri, uma espécie
de retiro espiritual realizado
durante os meses de setembro a
dezembro. Apenas os fulni-ô
podem ter acesso ao local, onde
encontra-se um juazeiro
considerado sagrado pela tribo. A
preservação do ritual conserva
o aspecto religioso dos índios:
quase não se vê imagens ou o
tradicional Padre Cícero pelas
casas. "Tem domingo que o
padre fica chateado, pois tem
pouca gente na igreja. Faz até
vergonha", conta Txiá.
Quem ousa
invadir o Ouricuri corre o risco
de ser morto pelos índios.
"Coisas estranhas podem
acontecer com quem viola a
lei", dizem eles. Até mesmo
os brancos casados com fulni-ô
são impedidos de participar dos
três meses do ritual,
permanecendo durante todo o
período travando pouco ou até
mesmo nenhum contanto com os
companheiros. "Lá no
Ouricuri, me sinto em casa. A
gente não precisa usar roupa,
limpar casa, nem se preocupar com
as coisas do dia-a-dia",
conta Yaponira Gomes, 54 anos.
AS CRIANÇAS
E O FUMO - Maria Luísa dos
Santos, de 11 anos, sempre
carrega sua "chaduca" -
como é chamado o cachimbo feito
pelos índios - pelas ruas da
aldeia fulni-ô. A pequena Luíza
fuma desde os três anos de
idade, um hábito considerado
politicamente incorreto entre os
"brancos" que é
praticado há vários séculos
pelos índios. Entre os fulni-ô
é comum ver crianças sentadas
nas calçadas brincando e pitando
fumo de rolo.
João de Matos,
garoto de 12 anos que sonha em
ser doutor, fuma desde os oito
anos de idade. "Ninguém
nunca tentou me impedir, fumo
porque tenho vontade", diz.
Para a índia Fouà, 57 anos, o
hábito não é um bom legado de
sua raça. "Não deixei que
nenhum dos meus filhos fumassem
quando eram crianças, pois os
achava muito novos. Esse negócio
faz mal", diz Fouà. Setór,
filho de Txiá, é um dos poucos
garotos da tribo que não fuma,
um comportamento que foi imposto
pelos pais. "Meu pai não
deixa que eu fume porque ele é
viciado na chaduca", revela
Setór.
A escola
localizada na tribo ensina apenas
até a quarta série e é lá que
as crianças aprendem um pouco
mais sobre o yathê. A semana
escolar, curiosamente, dura
somente quatro dias: na
segunda-feira, dia de feira em
Águas Belas, a escola deixa de
funcionar. "As tias vão pra
cidade fazer compras",
explicam os garotos. "Não
gosto da escola, prefiro ficar em
casa assistindo televisão. Gosto
de ver o Máskara", conta
Setór. (F.M.)