- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 19 de abril de 1998

ÍNDIOS IV
Fulni-ô prega casamento entre índios

Domingo, oito da noite, ensaio do grupo fulni-ô Unakessa. Índios e índias entoam músicas em yathê, a língua da tribo, sobre as relações com os brancos, o uso medicinal de ervas e os ensinamentos divinos. Nos pés de um fulni-ô que dança no grupo, um tênis Nike destoa da cerimônia tribal. Xyxiá, criador da dança, abençoa todos os casais presentes e lembra, ainda em yathê, a importância dos casamentos entre índios. "Não se casem com brancos", diz a música cantada pelo coordenador.

A visão dos fulni-ô sobre os homens brancos chega a incomodar a princípio: eles são sempre vistos com desconfiança, como culpados por todas as mazelas da tribo. Após conhecer melhor os índios, a sensação é de que este comportamento representa, antes de tudo, uma espécie de defesa e de preservação de uma cultura que vem sendo mantida há séculos.

"Não me sinto segura aqui na aldeia, onde temos contato com os brancos", diz Txiá, 35 anos. A família da índia vive de pequenos bicos e do artesanato, que só dá lucro substancial na semana em que é comemorado o Dia do Índio. Txiá mora com os cinco filhos e o marido Txoklayá, 40 anos, numa casa de dois quartos, sala, cozinha e uma pequena copa. Nos dias de ensaios do Unakêssa, realizados no quintal da casa de Txiá e Txoklayá, diversos índios circulam pela residência, sentam-se pelo chão e bebem água da jarra sem a prévia autorização dos donos da casa, hábito provavelmente trazido da época das tabas.

O filho mais velho do casal, Tafkexka, de 17 anos, prepara-se para se alistar no Exército no ano que vem. "Isso se eles deixarem, já que os índios são geralmente dispensados", explica Txoklayá. Para ter mais chances de ser aceito, o rapaz está tirando novos documentos, onde usa o "nome de branco", Hugo Ferreira de Sá, que recebeu ao se batizar na Igreja Católica. "Nós temos que nos batizar duas vezes, casar duas vezes... nossos documentos de índio não servem para matricular as crianças na escola, tem que ter batistério", revela Txiá.

Os casamentos e batizados entre os fulni-ô são realizados tanto na pequena igreja de Nossa Senhora das Graças, a padroeira da tribo, quanto no Ouricuri, uma espécie de retiro espiritual realizado durante os meses de setembro a dezembro. Apenas os fulni-ô podem ter acesso ao local, onde encontra-se um juazeiro considerado sagrado pela tribo. A preservação do ritual conserva o aspecto religioso dos índios: quase não se vê imagens ou o tradicional Padre Cícero pelas casas. "Tem domingo que o padre fica chateado, pois tem pouca gente na igreja. Faz até vergonha", conta Txiá.

Quem ousa invadir o Ouricuri corre o risco de ser morto pelos índios. "Coisas estranhas podem acontecer com quem viola a lei", dizem eles. Até mesmo os brancos casados com fulni-ô são impedidos de participar dos três meses do ritual, permanecendo durante todo o período travando pouco ou até mesmo nenhum contanto com os companheiros. "Lá no Ouricuri, me sinto em casa. A gente não precisa usar roupa, limpar casa, nem se preocupar com as coisas do dia-a-dia", conta Yaponira Gomes, 54 anos.

AS CRIANÇAS E O FUMO - Maria Luísa dos Santos, de 11 anos, sempre carrega sua "chaduca" - como é chamado o cachimbo feito pelos índios - pelas ruas da aldeia fulni-ô. A pequena Luíza fuma desde os três anos de idade, um hábito considerado politicamente incorreto entre os "brancos" que é praticado há vários séculos pelos índios. Entre os fulni-ô é comum ver crianças sentadas nas calçadas brincando e pitando fumo de rolo.

João de Matos, garoto de 12 anos que sonha em ser doutor, fuma desde os oito anos de idade. "Ninguém nunca tentou me impedir, fumo porque tenho vontade", diz. Para a índia Fouà, 57 anos, o hábito não é um bom legado de sua raça. "Não deixei que nenhum dos meus filhos fumassem quando eram crianças, pois os achava muito novos. Esse negócio faz mal", diz Fouà. Setór, filho de Txiá, é um dos poucos garotos da tribo que não fuma, um comportamento que foi imposto pelos pais. "Meu pai não deixa que eu fume porque ele é viciado na chaduca", revela Setór.

A escola localizada na tribo ensina apenas até a quarta série e é lá que as crianças aprendem um pouco mais sobre o yathê. A semana escolar, curiosamente, dura somente quatro dias: na segunda-feira, dia de feira em Águas Belas, a escola deixa de funcionar. "As tias vão pra cidade fazer compras", explicam os garotos. "Não gosto da escola, prefiro ficar em casa assistindo televisão. Gosto de ver o Máskara", conta Setór. (F.M.)


     

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