ÍNDIOS
VI
Tribo
Kambiwá passa longe de
estereótiposDizem que os kambiwá
escondem o verdadeiro nome da
tribo, que será revelado somente
no dia em que o grupo voltar para
a Serra Negra (entre os
municípios de Ibimirim e
Inajá), local historicamente
citado como sua primeira base.
Enquanto não voltam para sua
casa original, transformada em
Reserva Biológica pelo Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente,
Ibama, estes índios padecem numa
região onde a seca e a fome são
as maiores referências.
Os kambiwá
estão longe de qualquer
estereótipo relacionado à
palavra "índio". Eles
são, simplesmente, indígenas
sertanejos que usam roupas de
vaqueiro e rezam para Padre
Cícero e Frei Damião. A dança
da chuva foi substituída por
novenas a São José, que não
mandou nenhuma chuva este ano.
"Tá chovendo de onde vocês
vêm?", é a pergunta mais
constante.
A seca é uma
preocupação constante na tribo:
geralmente, os homens voltam do
roçado com expressão de
desânimo. "Tá difícil,
não dá nada nesse solo. O jeito
é partir pra caça mesmo",
diz o cacique dos Kambiwá, Pedro
Joaquim, pai de 11 filhos. É
interessante observar que toda a
família do cacique, assim como
nas demais aldeias indígenas,
constroem suas casas ao redor da
residência dos pais. Todas as
casas vizinhas à de seu Joaquim
são de seus filhos ou sobrinhos.
É dona Maria Ana da Conceição,
88 anos, quem melhor representa
essa característica: na última
contagem realizada por sua
família, foram registrados 63
netos vindos dos 13 filhos de
dona Maria Ana, carinhosamente
chamada de "Mãe de
Todos".
"Conheço
todos eles", diz a índia,
que foi impedida de freqüentar a
escola para não aprender a
escrever cartas para o namorado.
Todos os filhos de dona Maria
também vivem pelos arredores de
sua casa, onde uma antena
parabólica contrasta com a
taipa. "A gente não via
televisão direito, mas agora
temos 16 canais", conta
José da Silva Ricardo, 26 anos,
genro de dona Maria Ana.
Poucas são as
casas que possuem televisão na
tribo. Alguns índios, inclusive,
ainda vêem o eletrodoméstico
com ressalvas, como é o caso de
dona Maria Madalena, 86 anos.
"Fico assustada com aquela
barulheira toda, e tenho medo dos
tiros", diz. Sua filha, dona
Aurelina André, 40 anos, explica
para mãe que as balas não são
verdadeiras. "E aquele
sangue todo? Aquilo é de verdade
sim, a gente vê pingando no
chão", completa dona
Madalena.
Dona Maria Ana
já realizou várias promessas
pedindo que chovesse na região.
Uma delas consiste em roubar uma
imagem de São José, guardá-la
em casa e só devolver quando a
chuva finalmente vier. "Esse
aqui eu roubei da casa do meu
filho, e só devolvo se o santo
me escutar", diz a Mãe de
Todos.
OS ÍNDIOS E
A BARRAGEM - Atualmente, os
Kambiwá estão entre uma briga
que envolve dois órgãos
federais: o Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária
(Incra) e a própria Funai.
Terras dos Kambiwá foram
utilizadas para que fazendeiros e
propietários de terras
realizassem assentamentos, após
terem sido transferidos por conta
da barragem de Itaparica, que
inundou terrras de municípios
como Floresta e Petrolândia.
De acordo com o
administrador da Funai em
Pernambuco, José Osório, as
terras utilizadas pelo Incra
pertencem aos índios, sendo
ilegais os assentamentos
realizados pelo órgão. "O
local será vistoriado por um
técnico da fundação e outro do
Incra, mas já sabemos que a
área é indígena", diz
Osório.
O procurador
regional do Incra em Pernambuco,
Marcos Valuá, diz que as terras
onde foram instalados as
famílias foram discriminadas
pelo Incra em 1983, e que a
Funai, informada do assunto, não
se manifestou quanto ao fato da
área ser indígena. "Agora,
15 anos depois, eles surgem com
essa história". No meio de
tudo, os Kambiwá ameaçam:
"A terra é nossa, e não
vamos permitir que ninguém a
tome da gente". (F.M.)