- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 19 de abril de 1998

ÍNDIOS VI
Tribo Kambiwá passa longe de estereótipos

Dizem que os kambiwá escondem o verdadeiro nome da tribo, que será revelado somente no dia em que o grupo voltar para a Serra Negra (entre os municípios de Ibimirim e Inajá), local historicamente citado como sua primeira base. Enquanto não voltam para sua casa original, transformada em Reserva Biológica pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, Ibama, estes índios padecem numa região onde a seca e a fome são as maiores referências.

Os kambiwá estão longe de qualquer estereótipo relacionado à palavra "índio". Eles são, simplesmente, indígenas sertanejos que usam roupas de vaqueiro e rezam para Padre Cícero e Frei Damião. A dança da chuva foi substituída por novenas a São José, que não mandou nenhuma chuva este ano. "Tá chovendo de onde vocês vêm?", é a pergunta mais constante.

A seca é uma preocupação constante na tribo: geralmente, os homens voltam do roçado com expressão de desânimo. "Tá difícil, não dá nada nesse solo. O jeito é partir pra caça mesmo", diz o cacique dos Kambiwá, Pedro Joaquim, pai de 11 filhos. É interessante observar que toda a família do cacique, assim como nas demais aldeias indígenas, constroem suas casas ao redor da residência dos pais. Todas as casas vizinhas à de seu Joaquim são de seus filhos ou sobrinhos. É dona Maria Ana da Conceição, 88 anos, quem melhor representa essa característica: na última contagem realizada por sua família, foram registrados 63 netos vindos dos 13 filhos de dona Maria Ana, carinhosamente chamada de "Mãe de Todos".

"Conheço todos eles", diz a índia, que foi impedida de freqüentar a escola para não aprender a escrever cartas para o namorado. Todos os filhos de dona Maria também vivem pelos arredores de sua casa, onde uma antena parabólica contrasta com a taipa. "A gente não via televisão direito, mas agora temos 16 canais", conta José da Silva Ricardo, 26 anos, genro de dona Maria Ana.

Poucas são as casas que possuem televisão na tribo. Alguns índios, inclusive, ainda vêem o eletrodoméstico com ressalvas, como é o caso de dona Maria Madalena, 86 anos. "Fico assustada com aquela barulheira toda, e tenho medo dos tiros", diz. Sua filha, dona Aurelina André, 40 anos, explica para mãe que as balas não são verdadeiras. "E aquele sangue todo? Aquilo é de verdade sim, a gente vê pingando no chão", completa dona Madalena.

Dona Maria Ana já realizou várias promessas pedindo que chovesse na região. Uma delas consiste em roubar uma imagem de São José, guardá-la em casa e só devolver quando a chuva finalmente vier. "Esse aqui eu roubei da casa do meu filho, e só devolvo se o santo me escutar", diz a Mãe de Todos.

OS ÍNDIOS E A BARRAGEM - Atualmente, os Kambiwá estão entre uma briga que envolve dois órgãos federais: o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a própria Funai. Terras dos Kambiwá foram utilizadas para que fazendeiros e propietários de terras realizassem assentamentos, após terem sido transferidos por conta da barragem de Itaparica, que inundou terrras de municípios como Floresta e Petrolândia.

De acordo com o administrador da Funai em Pernambuco, José Osório, as terras utilizadas pelo Incra pertencem aos índios, sendo ilegais os assentamentos realizados pelo órgão. "O local será vistoriado por um técnico da fundação e outro do Incra, mas já sabemos que a área é indígena", diz Osório.

O procurador regional do Incra em Pernambuco, Marcos Valuá, diz que as terras onde foram instalados as famílias foram discriminadas pelo Incra em 1983, e que a Funai, informada do assunto, não se manifestou quanto ao fato da área ser indígena. "Agora, 15 anos depois, eles surgem com essa história". No meio de tudo, os Kambiwá ameaçam: "A terra é nossa, e não vamos permitir que ninguém a tome da gente". (F.M.)


     

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes