ÍNDIOS
VII
Pausa
para tentar entender a Funaipor VÂNIA FIALHO*
Especial para o JC
Quando ouvimos
a palavra índio, algumas idéias
logo são associadas à ela,
mesmo que equivocadamente:
exotismo, natureza, terra
e...Funai. É inevitável. A
Funai tem exercido o papel de
ditar e encaminhar o destino das
populaçõess indígenas no
Brasil e, para entendermos a
situação em que as mesmas se
encontram, é necessário
perceber como se constituiu esse
órgão e as concepções
ideológicas que o sustentam.
A fundação
nasceu no início do século XX,
mais precisamente, em 1910, sob a
sigla de SPILTN - Serviço de
Proteção aos Índios e
Localização dos Trabalhadores
Nacionais - uma alusão clara à
integração dos povos indígenas
à comunhão nacional. Sua
inspiração positivista
propiciava uma percepção das
diversas sociedades humanas em
estágios diferentes de
evolução, cabendo ao referido
orgão o papel civilizador dos
índios.
Só em 1918 há
uma divisão do órgão oficial,
constituindo o que seria por
muitos anos o Serviço de
Proteção aos Índios (SPI),
norteado em dois princípios
básicos: colocar as população
indígenas sob a tutela do
Estado, a fim de assegurar
assistência e proteção às
mesmas e tornar efetiva e segura
a expansão capitalista nas
áreas onde havia conflito entre
índios e fazendeiros.
Em 1967, O SPI
é extinto e, no seu lugar,
criada a Fundação Nacional do
Índio, a Funai, cujos preceitos
não se distanciavam muito do
antigo órgão, ou pelo menos,
já haviam sido contaminados.
Participando de um contexto
político complicado e articulado
historicamente com os interesses
de classes dominantes, a Funai
tem se constituído em mais um
espaço de luta pelo poder,
descompromissado com a realidade
indígena, que é desesperadora.
A
Constituição de 1988 deu um
grande passo principalmente por
reconhecer que os índios, suas
comunidades e organizações são
partes legítimas para ingressar
em juízo em defesa de seus
direitos e interesses, porém um
longo caminho já havia sido
percorrido e as seqüelas foram
inevitáveis.
A nova demanda
provocada pela articulação e
mobilização dos povos
indígenas a partir da década de
80 não foi suficiente para
provocar uma reestruturação da
política indigenista, a despeito
de algumas iniciativas isoladas.
Na verdade, trata-se de uma
vontade política mais ampla e o
que dizer, o que esperar, quando
detectamos que este órgão está
subordinado ao Ministério da
Justiça, ou melhor, ao atual
Ministro Renan Calheiros?
* Vânia
Fialho é antropóloga e
ex-funcionária da Funai