MANIAS
Obsessivos
sofrem com seus rituaisAgência Globo
Quando uma
pessoa se dedica a guardar
jornais velhos e não permitir
que ninguém os jogue fora, mesmo
quando não cabem mais no
apartamento; quando guarda dentro
de uma caixa suas unhas cortadas
como peças de coleção; quando
precisa voltar mais de dez vezes
para verificar se fechou bem as
portas, antes de sair, o problema
já deixa de ser classificado de
mania porque o indivíduo não
consegue se dominar e sofre com
isso. Esses comportamentos são
transtornos obsessivos
compulsivos (TOC) que atingem 2%
a 3% da população geral. Com
base neste percentual, mais de
100 milhões de pessoas no mundo
inteiro sofrem de TOC.
"As manias
que as pessoas normais têm dão
prazer. Há quem tenha mania de
comprar CDs, de ter um som
perfeito, de possuir o mais novo
lançamento da área da
informática ou de todo domingo
fazer o mesmo programa. O
obsessivo compulsivo, ao
contrário, sofre e sua doença
pode chegar a um nível tal que o
incapacita para o trabalho",
explica o psiquiatra Márcio
Versiani, para quem o obsessivo
compulsivo que Jack Nicholson
vive no filme Melhor é
impossível é excessivamente
caricato.
SEM CONTROLE
- O médico cita o caso de um
paciente de 26 anos que fica das
oito da noite às oito da manhã
navegando na Internet. Este
rapaz, segundo o psiquiatra, vive
uma obsessão compulsiva que hoje
atinge muitas pessoas. Para o
médico, cerca de meia hora por
dia na Internet pode ser
considerado normal. Mais do que
isso, só é aceitável se o uso
da Internet fizer parte do
trabalho da pessoa.
"Mas esse
rapaz também tem outras
características do obsessivo
compulsivo e, por isso, seus pais
insistiram no tratamento. Suas
obsessões, como na maioria dos
casos, contaminaram por completo
seu relacionamento e sua vida
afetiva", diz Versiani.
Os transtornos
obsessivos compulsivos têm como
origem fatores genéticos,
neurológicos, psicológicos e
anatômicos, informa o psicólogo
Carlos Eduardo Goulart de Brito,
especializado em psicoterapia
cognitivo-comportamental. Ele diz
que o mais indicado hoje para o
tratamento dos TOC é a terapia
cognitivo-comportamental aliada
à medicação. Segundo ele, os
pacientes costumam apresentar
respostas ao tratamento em cerca
de seis meses.
Os psiquiatras
fazem uma distinção entre
obsessão e compulsão. A
primeira se manifesta nos
pensamentos do indivíduo, num
espaço subjetivo, e a segunda
nos seus atos. "O que
caracteriza os TOC é a
repetição, a falta de
finalidade e o fato de a pessoa
não controlar aquele pensamento
ou aquele ato. O próprio
indivíduo sofre muito porque faz
aquela determinada coisa para
aliviar a ansiedade e ao mesmo
tempo aquele problema aumenta sua
ansiedade. Podemos dizer que a
ansiedade é a gasolina da
obsessão e da compulsão",
diz Márcio Versiani.
O psiquiatra
Fernando Ramos, diretor do
Instituto Philipe Pinel, diz que
é preciso fazer distinção
entre a personalidade compulsiva
de uma pessoa normal e o
indivíduo obsessivo compulsivo.
LUCIDEZ -
A personalidade compulsiva se
caracteriza pelo perfeccionismo,
apego a cumprimento de rituais e
pelo alto nível de exigência.
Essa pessoa não sofre com seu
nível de exigência e seus
rituais. "Essas pessoas
costumam ser muito exigentes em
relação ao mundo e às pessoas.
Costumam ser pessimistas, apesar
de recusarem esse rótulo por se
dizerem apenas realistas",
afirma Ramos.
Por outro lado,
quem tem transtornos obsessivos
compulsivos sofre porque tem
plena lucidez, percebe que seus
impulsos não são controláveis.
"A pessoa sabe que seus
rituais não têm sentido, mas
não pode deixar de cumpri-los.
Ela cumpre rituais que não
gostaria de cumprir. O ritual é
a compulsão que, ao contrário
da obsessão, que se dá num
espaço subjetivo, não dá para
esconder".