- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 19 de abril de 1998

MANIAS
Obsessivos sofrem com seus rituais

Agência Globo

Quando uma pessoa se dedica a guardar jornais velhos e não permitir que ninguém os jogue fora, mesmo quando não cabem mais no apartamento; quando guarda dentro de uma caixa suas unhas cortadas como peças de coleção; quando precisa voltar mais de dez vezes para verificar se fechou bem as portas, antes de sair, o problema já deixa de ser classificado de mania porque o indivíduo não consegue se dominar e sofre com isso. Esses comportamentos são transtornos obsessivos compulsivos (TOC) que atingem 2% a 3% da população geral. Com base neste percentual, mais de 100 milhões de pessoas no mundo inteiro sofrem de TOC.

"As manias que as pessoas normais têm dão prazer. Há quem tenha mania de comprar CDs, de ter um som perfeito, de possuir o mais novo lançamento da área da informática ou de todo domingo fazer o mesmo programa. O obsessivo compulsivo, ao contrário, sofre e sua doença pode chegar a um nível tal que o incapacita para o trabalho", explica o psiquiatra Márcio Versiani, para quem o obsessivo compulsivo que Jack Nicholson vive no filme Melhor é impossível é excessivamente caricato.

SEM CONTROLE - O médico cita o caso de um paciente de 26 anos que fica das oito da noite às oito da manhã navegando na Internet. Este rapaz, segundo o psiquiatra, vive uma obsessão compulsiva que hoje atinge muitas pessoas. Para o médico, cerca de meia hora por dia na Internet pode ser considerado normal. Mais do que isso, só é aceitável se o uso da Internet fizer parte do trabalho da pessoa.

"Mas esse rapaz também tem outras características do obsessivo compulsivo e, por isso, seus pais insistiram no tratamento. Suas obsessões, como na maioria dos casos, contaminaram por completo seu relacionamento e sua vida afetiva", diz Versiani.

Os transtornos obsessivos compulsivos têm como origem fatores genéticos, neurológicos, psicológicos e anatômicos, informa o psicólogo Carlos Eduardo Goulart de Brito, especializado em psicoterapia cognitivo-comportamental. Ele diz que o mais indicado hoje para o tratamento dos TOC é a terapia cognitivo-comportamental aliada à medicação. Segundo ele, os pacientes costumam apresentar respostas ao tratamento em cerca de seis meses.

Os psiquiatras fazem uma distinção entre obsessão e compulsão. A primeira se manifesta nos pensamentos do indivíduo, num espaço subjetivo, e a segunda nos seus atos. "O que caracteriza os TOC é a repetição, a falta de finalidade e o fato de a pessoa não controlar aquele pensamento ou aquele ato. O próprio indivíduo sofre muito porque faz aquela determinada coisa para aliviar a ansiedade e ao mesmo tempo aquele problema aumenta sua ansiedade. Podemos dizer que a ansiedade é a gasolina da obsessão e da compulsão", diz Márcio Versiani.

O psiquiatra Fernando Ramos, diretor do Instituto Philipe Pinel, diz que é preciso fazer distinção entre a personalidade compulsiva de uma pessoa normal e o indivíduo obsessivo compulsivo.

LUCIDEZ - A personalidade compulsiva se caracteriza pelo perfeccionismo, apego a cumprimento de rituais e pelo alto nível de exigência. Essa pessoa não sofre com seu nível de exigência e seus rituais. "Essas pessoas costumam ser muito exigentes em relação ao mundo e às pessoas. Costumam ser pessimistas, apesar de recusarem esse rótulo por se dizerem apenas realistas", afirma Ramos.

Por outro lado, quem tem transtornos obsessivos compulsivos sofre porque tem plena lucidez, percebe que seus impulsos não são controláveis. "A pessoa sabe que seus rituais não têm sentido, mas não pode deixar de cumpri-los. Ela cumpre rituais que não gostaria de cumprir. O ritual é a compulsão que, ao contrário da obsessão, que se dá num espaço subjetivo, não dá para esconder".


     

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