-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 22 de abril de 1998


NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

A voz do Chacrinha

Porto Alegre, meio da semana passada. Olympikus e Ulbra jogam a terceira da série "play off" de vôlei masculino. Por sinal, vôlei de sonhos. A equipe de Maurício estava em vantagem: tinha ganho duas e perdido uma. Se vence, agora, volta pro Rio com a taça.

Primeiro set: dá Ulbra. Segundo set: Olympikus. Terceiro set: Olympikus, de novo. No 4º set, Olympikus, arrasando, chega a fazer 12 a oito. A equipe da Ulbra, já nas vascas do desespero. Faltam três pontinhos pro Olympikus liquidar a partida. Agora, do jeito que está a coisa, é questão de minutos.

A um canto da quadra, alguém da Confederação começa a arrumar a mesinha em cima da qual ia pondo, uma a uma, as medalhas de campeão. Seriam entregues aos jogadores do Olympikus pelo presidente da CBV, Ari Graça. O Olympikus estava a um passo do título. Faria 3 a 1 no "play-off" e a conta estaria fechada.

Eis que chega o presidente da Federação Gaúcha de Vôlei: "Que é que há, amigo? Pra que essa pressa? O jogo ainda não terminou!"

Mandou o apressadinho enfiar as medalhas na sacola e voltou a ver o jogo, porque muita água ainda haveria de passar pela ponte...

Mal sentou-se, o Ulbra já foi virando o placar. Fecha o set. Agora está tudo igual, dois a dois. No quinto set, um "tie-braker" de arrepiar.

Vitória épica da Ulbra: três a dois, empate na série: dois a dois. A decisão, domingo, consagraria os gaúchos da Ulbra, campeões brasileiros com um retumbante 3 a 1, no Rio de Janeiro.

Por que será que o homem teima em desafiar os sortilégios do esporte? Há sempre alguém, com a cara no chão porque pretendeu reger a sina de uma competição.

Quem não se lembra do Mundial de 50, no Maracanã? Brasil x Uruguai, final da Copa. No finalzinho do jogo, placar de um a um. O empate dava o título ao Brasil. A multidão já em delírio, queimando os fogos da sagração brasileira. Mais alguns minutos e estaríamos todos sambando na avenida Rio Branco.

Lá em cima, na Tribuna de Honra, a cartolagem brasileira dá um toque no presidente da Fifa, o francês Jules Rimet: "É melhor o senhor já ir descendo. Demora até chegar lá embaixo no campo. Assim, quando o senhor chegar lá, os jogadores já estarão esperando..."

"Monsieur" Jules Rimet pegou a taça, tomou o elevador, depois, saiu pelos corredores do Maracanã. No caminho, perguntou a João Lyra Filho como era o nome do capitão brasileiro, a quem pretendia entregar a taça, dizendo algumas palavras de exaltação à conquista histórica.

"O nosso capitão se chama Augusto", disse Lyra Filho, dando, ainda de

, três informações pessoais:

"O capitão Augusto é branco, tem um bigode enorme e é careca!"

Uma vez no campo, o velhinho Jules Rimet teve que entregar a taça a um capitão negro, cabeludo e sem bigode...

É como vivia dizendo Chacrinha: "O programa só acaba quando termina..."

RÁPIDAS E RASTEIRAS - Onde chego, há sempre alguém que me pergunta: você convocaria o Edmundo?

Respondo como respondem o Trajano e o Alberto Helena: sou contra e a favor, quero e não quero vê-lo na Seleção. Não tenho dúvidas, tenho certezas que se alternam: sim, quando ele faz um belo gol, não, quando ele apronta uma arruaça, dentro ou fora do campo. / / / / / Já em relação a Júnior Baiano, não tenho dúvida: jamais o convocaria. O futebol de Júnior Baiano é mais encenação que eficiência. Com a bola nos pés, uma beleza; sem a bola, tendo que tirá-la do adversário, no combate direto, é limitado. Daí a maldição das tesouras voadoras. Dizem que Zagalo considera Júnior Baiano como um filho. Jô Soares sempre disse: tem pai que é cego... / / / / / O charme da Copa do Mundo saiu na revista Super TV, do JB: Mônica Waldvogel, com a camisa da Seleção. Trata-se de uma das mais brilhantes telejornalistas que conheço, cujo talento, certamente, dará maior relevo à cobertura da Globo na Copa. É gol de letra, na certa. / / / / / O leitor Amaro Cortes, que me escreve via Internet, pergunta, com uma ponta de ironia, se minha crítica ao papel do técnico brasileiro não esconde, em mim, a frustração de não ser, eu, um treinador. Ora, "seu" Amaro. Nunca me passou pela cabeça semelhante desejo. A essa altura da vida, o que eu gostaria de ser mesmo é a Cássia Eller... / / / / / Não é por nada, não, mas o vôlei, feminino e masculino, tal como o basquete, masculino e feminino, estão dando um banho no futebol. São, longe, os melhores espetáculos esportivos do momento. Em todos os sentidos: tecnicamente, táticamente, éticamente. Como espetáculo, esses dois esportes estão deixando o futebol no chinelo. Bem feito, pro futebol deixar de ser medíocre, faltoso, viciado, dentro e fora de campo. / / / / / Fazer jogo de futebol às 3 e meia da tarde, quarta-feira, só mesmo na cabeça da cartolagem brasileira. Pois assim será no campeonato nacional. É um jeito infalível de aumentar ainda mais o desemprego no País. Neguinho vai matar o trabalho, uma vez por semana até ser despedido. / / / / / Denílson não é pajé de Roraima, mas fez chover, domingo, no jogo São Paulo, 2 x Palmeiras, 1. / / / / / No Rio, o medo mais uma vez foi castigado. Quem manda Joel Santana aferrolhar o time do Flamengo com a mediocridade da retranca? O título da Taça Guanabara está em boas mãos. O Vasco é, longe, o melhor time do Rio.

 
 

 

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