GOVERNO/ CONGRESSO VII
Em
um espaço de 48 horas FHC perdeu
dois aliadosBRASÍLIA - Num
espaço de apenas 48 horas, o
presidente Fernando Henrique
perdeu seus braços políticos
direito e esquerdo. Com as mortes
de Sérgio Motta e de Luís
Eduardo Magalhães, o Governo
fica sem seus dois principais
operadores políticos.
Motta, o
trator, operava a relação do
Governo com o Congresso, o
atendimento dos pleitos dos
parlamentares. Assumia a
cobrança mais enérgica das
responsabilidades do Legislativo.
Já Luís Eduardo ditava o ritmo
no Congresso, acertando o momento
exato de levar à votação as
matérias de interesse do Governo
e fazendo acordos com os partidos
da base governista e com a
oposição. Como líder, jamais
perdeu uma votação.
A dupla sempre
atuou junta e conseguiu aprovar
boa parte das reformas
constitucionais e a emenda da
reeleição. Com a perda dos
dois, o Governo dificilmente
conseguirá concluir a votação
da reforma da Previdência até
maio, como estava previsto.
O líder do
PSDB na Câmara, Aécio Neves
(MG), não consegue imaginar o
que será do Governo e das
reformas agora. Ontem, Aécio
lembrava que, no meio do velório
do ex-ministro das Comunicações
Sérgio Motta ontem, Luís
Eduardo o puxou pelo braço e
levou-o para um canto do Salão
Nobre da Assembléia Legislativa
de São Paulo. Luís Eduardo
estava emocionado com a perda do
amigo ministro, mas ao mesmo
tempo sabia que aquilo era motivo
para que agora trabalhasse ainda
mais.
Ignorando as
formalidades, começou a tratar
com Aécio da pauta para a
votação da reforma da
Previdência na próxima semana.
"Precisamos acertar uma
estratégia para a votação dos
destaques da reforma da
Previdência na semana que vem.
Se antes já tínhamos
dificuldades, agora teremos ainda
mais", disse Luís Eduardo
para Aécio. Ontem à noite,
Aécio ainda custava a acreditar
que toda aquela energia
demonstrada algumas horas antes
havia se acabado. "As
reformas ficaram órfãs, sem
Motta e sem Luís Eduardo. Vamos
ter que esperar agora passar toda
essa perplexidade para ver, com a
cabeça fria, o que se poderá
fazer", avaliou Aécio.
Nos últimos
dias, Luís Eduardo já vinha
reclamando com seus amigos no
Congresso das imensas
dificuldades que tinha para
manter o ritmo de votação das
reformas. Aprovada a reforma da
Previdência em primeiro turno,
já era comum se ouvir no
Congresso que a disposição dos
parlamentares era deixar o
restante para ser aprovado
somente depois das eleições de
outubro. Conciliando a tarefa de
líder com o início da sua
campanha para governador da
Bahia, Luís Eduardo irritava-se
em ser às vezes o único líder
governista presente em sessões
na segunda-feira. Criticava a
letargia e a falta de entusiasmo
dos seus companheiros.
O deputado
Humberto Costa (PT-PE), destacado
pelas oposições para negociar a
votação da Previdência,
reconhece a perda que será para
o Governo a morte de Luís
Eduardo. "Luís Eduardo
sempre procurou honrar os acordos
que fazia com a oposição",
admite. O deputado Gilney Viana
(PT-PA) foi o primeiro deputado
de oposição a chegar ao
Hospital Santa Lúcia para
visitar Luís Eduardo. Gilney faz
coro com Humberto Costa.
"Com Luís Eduardo, sempre
houve respeito pelo PT",
disse.
O líder do
Governo no Congresso, José
Roberto Arruda (PSDB-DF) não
conseguia ainda imaginar como o
Governo retomará a votação das
reformas.