- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 22 de abril de 1998

ESTIAGEM

Seca leva agricultor ao suicídio

por MACHADO FREIRE
Da Sucursal de Petrolina

CEDRO - Considerada pelos sertanejos como "má conselheira", a fome já começa a tirar a tranqüilidade dos agricultores de Cedro, 54 quilômetros distante de Salgueiro e há dois dias em estado de emergência decretado pelo prefeito Luiz Joaquim Matias. No último dia cinco, a comunidade católica do município, que tem como tradição realizar novenas pedindo a Deus para aliviar o sofrimento, foi surpreendida com o suicídio do agricultor João Miguel do Nascimento, 46, que se enforcou em uma árvore diante do filho de nove anos de idade.

Família e amigos do agricultor lembram que ele estava aflito ao ponto de afirmar que este ano iria morrer de fome, uma vez que perdeu toda a produção de milho e feijão."João estava bebendo muito e naquele dia chegou da feira sem nada; dormiu um pouco e saiu para a roça com uma corda dizendo que ia fazer um balanço no umbuzeiro", recordou a viúva Maria Alves da Silva, 38. João Miguel foi seguido pelo filho Marcos.

"Ele (João) subiu na árvore e, ao colocar a corda no pescoço, disse ao menino que deixava lembrança para mim", revelou a viúva. Aos amigos, deixou a certeza de voltar a se encontrar no "dia do juízo final". Maria e seus três filhos passarão a morar, a partir de agora, na casa de seu pai, na área urbana de Cedro. De acordo com o agricultor Antônio José da Silva, cunhado de João Miguel, seu parente vivia desesperado porque além de não ter lucrado nada comm a roça que plantou no sítio do vereador Vital Barros, não conseguiu "um dia de serviço nem mesmo na cidade".

SAQUES - O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cedro, Expedito da Silva, busca alternativas para o drama que atinge boa parte da população junto à prefeitura. Para ele, "na casa onde não tem um aposentado, existe fome". "Minha conversa com o prefeito, teve como objetivo levar nossa preocupação para a possibilidade de saques na cidade. Se isso acontecer, a situação será difícil, porque na feira não existem alimentos e o comércio pode ser afetado".

O quadro se complica, segundo o prefeito, porque Cedro não está incluído no conograma de distribuição de cestas básicas do Programa Comunidade Solidária, do Governo Federal. Como admite, 95% das culturas de milho e feijão já foram perdidas.


     

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