ESTIAGEM
Seca
leva agricultor ao suicídiopor MACHADO FREIRE
Da Sucursal de Petrolina
CEDRO -
Considerada pelos sertanejos como
"má conselheira", a
fome já começa a tirar a
tranqüilidade dos agricultores
de Cedro, 54 quilômetros
distante de Salgueiro e há dois
dias em estado de emergência
decretado pelo prefeito Luiz
Joaquim Matias. No último dia
cinco, a comunidade católica do
município, que tem como
tradição realizar novenas
pedindo a Deus para aliviar o
sofrimento, foi surpreendida com
o suicídio do agricultor João
Miguel do Nascimento, 46, que se
enforcou em uma árvore diante do
filho de nove anos de idade.
Família e
amigos do agricultor lembram que
ele estava aflito ao ponto de
afirmar que este ano iria morrer
de fome, uma vez que perdeu toda
a produção de milho e
feijão."João estava
bebendo muito e naquele dia
chegou da feira sem nada; dormiu
um pouco e saiu para a roça com
uma corda dizendo que ia fazer um
balanço no umbuzeiro",
recordou a viúva Maria Alves da
Silva, 38. João Miguel foi
seguido pelo filho Marcos.
"Ele
(João) subiu na árvore e, ao
colocar a corda no pescoço,
disse ao menino que deixava
lembrança para mim",
revelou a viúva. Aos amigos,
deixou a certeza de voltar a se
encontrar no "dia do juízo
final". Maria e seus três
filhos passarão a morar, a
partir de agora, na casa de seu
pai, na área urbana de Cedro. De
acordo com o agricultor Antônio
José da Silva, cunhado de João
Miguel, seu parente vivia
desesperado porque além de não
ter lucrado nada comm a roça que
plantou no sítio do vereador
Vital Barros, não conseguiu
"um dia de serviço nem
mesmo na cidade".
SAQUES -
O presidente do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Cedro,
Expedito da Silva, busca
alternativas para o drama que
atinge boa parte da população
junto à prefeitura. Para ele,
"na casa onde não tem um
aposentado, existe fome".
"Minha conversa com o
prefeito, teve como objetivo
levar nossa preocupação para a
possibilidade de saques na
cidade. Se isso acontecer, a
situação será difícil, porque
na feira não existem alimentos e
o comércio pode ser
afetado".
O quadro se
complica, segundo o prefeito,
porque Cedro não está incluído
no conograma de distribuição de
cestas básicas do Programa
Comunidade Solidária, do Governo
Federal. Como admite, 95% das
culturas de milho e feijão já
foram perdidas.