- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 22 de junho de 1998

LIVRO
Luta armada é coisa de mulher

por FLÁVIA DE GUSMÃO

Costuma-se dizer que a História é contada pelos vencedores. Talvez por isso sejam tão poucas as histórias que trazem mulheres como personagens principais, sujeitos da ação em vez de complemento, meros apêndices. O gênero feminino tem um livro grosso de derrotas e poucas páginas, recentemente escritas, de vitórias: o acesso à informação, via alfabetização, lhes foi permitido tardiamente; o claustro doméstico sempre se fechou com mais determinação sobre elas; as leis quase sempre favoreceram os homens.

Se o livro Mulheres Que Foram À Luta Armada, do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, recém lançado pela Editora Globo, fosse um lixo - e não é -, ainda assim, suas alentadas 484 páginas, valeriam toda a madeira empregada na sua confecção. Isso porque Maklouf tomou para si uma tarefa que poucas mulheres - e ainda mais raros homens - querem: garimpar nos bastidores dos acontecimentos históricos o testemunho feminino de fatos que, via de regra, são narrados por homens, dentro de uma perspectiva exclusivamente masculina.

Como deixa claro o título, as mulheres de Maklouf sequer são consideradas heroínas por grande parte da sociedade brasileira e, por isso, muitos talvez questionem até a validade da existência de tal livro. Elas são mulheres que, num determinado e crucial momento da história do Brasil, largaram o que estavam fazendo - faculdades, maridos, filhos, profissão - para pegar em armas na defesa de um ideal: uma sociedade mais justa e igualitária.

Muitas delas não puderam dar entrevistas para o autor: foram dizimadas por torturas inimagináveis ou trocando tiros numa guerra parcialmente ignorada pela Imprensa amordaçada da época. Morreram jovens, assim como seus sonhos. Outras preferiram calar, fosse em nome das companheiras mortas, pelo luto de um ideal igualmente enterrado ou, mais simplesmente, porque velhas feridas voltam a doer quando não foram bem cicatrizadas.

Aquelas que falaram, no entanto, o fizeram lindamente. Um testemunho em tom confessional onde se misturam sensações e lembranças. Um misto doído de arrependimento, não-arrependimento e fatalidade. Maklouf foi particularmente feliz em optar por interferir o mínimo possível como narrador. São dele a costura dos fatos e a introdução das personagens, mas são inteiramente delas as rédeas da narrativa.

COMPANHEIRAS- A cada capítulo nomes, rostos e almas surgem quase tão nítidos quanto no distante ano de 1969, tempo em que a luta armada ganhava vulto através de ações tão ousadas quanto bem sucedidas como o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, retratado com cores esmaecidas pelo cineasta Bruno Barreto em seu filme O Que É Isso Companheiro? Um seqüestro que, é bom lembrar, livrou 15 militantes das mais diversas facções da tortura.

A empreitada é bem sucedida, principalmente, porque Maklouf se nega a ser o repórter que realmente é (24 anos de profissão, atualmente repórter especial da Folha de S. Paulo), um observador impessoal dos fatos, e escolhe o caminho do envolvimento emocional que fica no limite ideal entre o mero registro e a simpatia incondicional e, portanto, deturpadora de um panorama mais nítido do que aconteceu na época. Ele fornece ao leitor nome, sobrenome, codinome, formação escolar e profissão no momento da guerrilha. Mas ele dá ao leitor também um bônus de valor incalculável: o perfil psicológico de mulheres que poderiam ser qualquer uma de nossas mulheres mais queridas: mães, filhas, amigas, avós ou até nós mesmas.

Ao partir da esfera privada para, só então, entrar no emaranhado político da época, formado por uma mão cheia de organizações e grupelhos que, além de lutar contra o inimigo comum - a ditadura estabelecida com o golpe de 64 - se digladiavam entre si, o autor nos dá uma visão de voyeur que extrapola a formação ideológica e estrutural de cada facção, um assunto já exaurido por várias e boas publicações ( Os Anos de Chumbo, Cabo Anselmo - A Luta Armada Ferida Por Dentro).

Já na abertura, Mulheres Que Foram à Luta Armada revela um segredo guardado durante 30 anos, que dá conta de uma jovem simpatizando da Vanguarda Popular Revolucionária - VPR -, morta por um tiro acidental e enterrada clandestinamente em algum lugar da Grande São Paulo. Esta personagem vai atravessar todo o livro, como um fantasma que lembrasse todo o tempo do anonimato, perplexidade e fatalidade que cercaram as militantes.

Algumas lacunas são claramente sentidas. Maklouf optou por não incluir Iara Ialveberg no rol de suas personagens. Ela foi uma das figuras mais emblemáticas da luta armada, com sua beleza, sua euforia ingênua, suas origens de judia abastada e, por último, como o grande amor de Lamarca. O autor justifica a ausência, apontando para o excelente livro de Judith Patarra, dedicado exclusivamente à Iara. Sente-se também, a todo instante, a falta de fotos que permitissem ao leitor visualizar estas mulheres que, ao fim do livro, terminam virando velhas conhecidas

DURAS - Apesar de merecer um capítulo, Etienne Romeu, uma das poucas mulheres a pertencer à direção nacional de uma organização expressiva como a VPR, figura no livro mais por seu silêncio do que por seu testemunho. Procurada por Maklouf, Etienne se mostrou decidida, contra todos os apelos do autor e de amigas que com ela pegaram e armas, a não falar sobre o assunto. E não se tratou de uma resistência em lembrar os fatos: ao sair da prisão, em agosto de 1979, foi ela que detonou uma série de denúncias públicas sobre a tortura. O depoimento de Etienne faz falta, principalmente levando-se em consideração o seu currículo: linha de frente no seqüestro do embaixador suíço Giovanni Bucher; presa e torturada, inventou um ponto em Cascadura (RJ) e, para não entregar nomes jogou-se sob um ônibus.

Outras companheiras, como Dulce Maia, Ana Maria Bursztyn e Nancy Unger, para citar apenas três, providenciam um relato caudaloso do antes durante e, principalmente, um depois que elas levarão para toda a vida, com o corpo cheio de cicatrizes e a alma escoriada entre a lembrança da tortura e, muitas vezes, da delação que o espancamento as levou.

As que não puderam falar são também eloqüentes. A paraguaia Soledad Barret Viedma e a tcheco-eslovaca Pauline Reichstull foram assassinadas aqui mesmo, no bairro de Boa Viagem, enquanto forneciam blusas bordadas em consignação à butique Chica Boa, na Conselheiro Aguiar. Retiradas da loja por homens armados, espancadas com coronhadas, foram jogadas numa caminhonete oficial e só vistas de novo dias depois pela advogada Mércia Albuquerque: os corpos estavam desfigurados, Pauline com a boca arrebentada e marcas por todo o corpo; Soledad com os olhos muito abertos e uma expressão de terror muito grande (sic) e um feto, o suposto filho do Cabo Anselmo, responsável por estas e várias mortes com suas delações, aos seus pés.


     

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