LIVRO
Luta
armada é coisa de mulherpor FLÁVIA DE
GUSMÃO
Costuma-se
dizer que a História é contada
pelos vencedores. Talvez por isso
sejam tão poucas as histórias
que trazem mulheres como
personagens principais, sujeitos
da ação em vez de complemento,
meros apêndices. O gênero
feminino tem um livro grosso de
derrotas e poucas páginas,
recentemente escritas, de
vitórias: o acesso à
informação, via
alfabetização, lhes foi
permitido tardiamente; o claustro
doméstico sempre se fechou com
mais determinação sobre elas;
as leis quase sempre favoreceram
os homens.
Se o livro
Mulheres Que Foram À Luta
Armada, do jornalista Luiz
Maklouf Carvalho, recém lançado
pela Editora Globo, fosse um lixo
- e não é -, ainda assim, suas
alentadas 484 páginas, valeriam
toda a madeira empregada na sua
confecção. Isso porque Maklouf
tomou para si uma tarefa que
poucas mulheres - e ainda mais
raros homens - querem: garimpar
nos bastidores dos acontecimentos
históricos o testemunho feminino
de fatos que, via de regra, são
narrados por homens, dentro de
uma perspectiva exclusivamente
masculina.
Como deixa
claro o título, as mulheres de
Maklouf sequer são consideradas
heroínas por grande parte da
sociedade brasileira e, por isso,
muitos talvez questionem até a
validade da existência de tal
livro. Elas são mulheres que,
num determinado e crucial momento
da história do Brasil, largaram
o que estavam fazendo -
faculdades, maridos, filhos,
profissão - para pegar em armas
na defesa de um ideal: uma
sociedade mais justa e
igualitária.
Muitas delas
não puderam dar entrevistas para
o autor: foram dizimadas por
torturas inimagináveis ou
trocando tiros numa guerra
parcialmente ignorada pela
Imprensa amordaçada da época.
Morreram jovens, assim como seus
sonhos. Outras preferiram calar,
fosse em nome das companheiras
mortas, pelo luto de um ideal
igualmente enterrado ou, mais
simplesmente, porque velhas
feridas voltam a doer quando não
foram bem cicatrizadas.
Aquelas que
falaram, no entanto, o fizeram
lindamente. Um testemunho em tom
confessional onde se misturam
sensações e lembranças. Um
misto doído de arrependimento,
não-arrependimento e fatalidade.
Maklouf foi particularmente feliz
em optar por interferir o mínimo
possível como narrador. São
dele a costura dos fatos e a
introdução das personagens, mas
são inteiramente delas as
rédeas da narrativa.
COMPANHEIRAS-
A cada capítulo nomes, rostos e
almas surgem quase tão nítidos
quanto no distante ano de 1969,
tempo em que a luta armada
ganhava vulto através de ações
tão ousadas quanto bem sucedidas
como o seqüestro do embaixador
norte-americano Charles Burke
Elbrick, retratado com cores
esmaecidas pelo cineasta Bruno
Barreto em seu filme O Que É
Isso Companheiro? Um seqüestro
que, é bom lembrar, livrou 15
militantes das mais diversas
facções da tortura.
A empreitada é
bem sucedida, principalmente,
porque Maklouf se nega a ser o
repórter que realmente é (24
anos de profissão, atualmente
repórter especial da Folha de S.
Paulo), um observador impessoal
dos fatos, e escolhe o caminho do
envolvimento emocional que fica
no limite ideal entre o mero
registro e a simpatia
incondicional e, portanto,
deturpadora de um panorama mais
nítido do que aconteceu na
época. Ele fornece ao leitor
nome, sobrenome, codinome,
formação escolar e profissão
no momento da guerrilha. Mas ele
dá ao leitor também um bônus
de valor incalculável: o perfil
psicológico de mulheres que
poderiam ser qualquer uma de
nossas mulheres mais queridas:
mães, filhas, amigas, avós ou
até nós mesmas.
Ao partir da
esfera privada para, só então,
entrar no emaranhado político da
época, formado por uma mão
cheia de organizações e
grupelhos que, além de lutar
contra o inimigo comum - a
ditadura estabelecida com o golpe
de 64 - se digladiavam entre si,
o autor nos dá uma visão de
voyeur que extrapola a formação
ideológica e estrutural de cada
facção, um assunto já exaurido
por várias e boas publicações
( Os Anos de Chumbo, Cabo Anselmo
- A Luta Armada Ferida Por
Dentro).
Já na
abertura, Mulheres Que Foram à
Luta Armada revela um segredo
guardado durante 30 anos, que dá
conta de uma jovem simpatizando
da Vanguarda Popular
Revolucionária - VPR -, morta
por um tiro acidental e enterrada
clandestinamente em algum lugar
da Grande São Paulo. Esta
personagem vai atravessar todo o
livro, como um fantasma que
lembrasse todo o tempo do
anonimato, perplexidade e
fatalidade que cercaram as
militantes.
Algumas lacunas
são claramente sentidas. Maklouf
optou por não incluir Iara
Ialveberg no rol de suas
personagens. Ela foi uma das
figuras mais emblemáticas da
luta armada, com sua beleza, sua
euforia ingênua, suas origens de
judia abastada e, por último,
como o grande amor de Lamarca. O
autor justifica a ausência,
apontando para o excelente livro
de Judith Patarra, dedicado
exclusivamente à Iara. Sente-se
também, a todo instante, a falta
de fotos que permitissem ao
leitor visualizar estas mulheres
que, ao fim do livro, terminam
virando velhas conhecidas
DURAS -
Apesar de merecer um capítulo,
Etienne Romeu, uma das poucas
mulheres a pertencer à direção
nacional de uma organização
expressiva como a VPR, figura no
livro mais por seu silêncio do
que por seu testemunho. Procurada
por Maklouf, Etienne se mostrou
decidida, contra todos os apelos
do autor e de amigas que com ela
pegaram e armas, a não falar
sobre o assunto. E não se tratou
de uma resistência em lembrar os
fatos: ao sair da prisão, em
agosto de 1979, foi ela que
detonou uma série de denúncias
públicas sobre a tortura. O
depoimento de Etienne faz falta,
principalmente levando-se em
consideração o seu currículo:
linha de frente no seqüestro do
embaixador suíço Giovanni
Bucher; presa e torturada,
inventou um ponto em Cascadura
(RJ) e, para não entregar nomes
jogou-se sob um ônibus.
Outras
companheiras, como Dulce Maia,
Ana Maria Bursztyn e Nancy Unger,
para citar apenas três,
providenciam um relato caudaloso
do antes durante e,
principalmente, um depois que
elas levarão para toda a vida,
com o corpo cheio de cicatrizes e
a alma escoriada entre a
lembrança da tortura e, muitas
vezes, da delação que o
espancamento as levou.
As que não
puderam falar são também
eloqüentes. A paraguaia Soledad
Barret Viedma e a tcheco-eslovaca
Pauline Reichstull foram
assassinadas aqui mesmo, no
bairro de Boa Viagem, enquanto
forneciam blusas bordadas em
consignação à butique Chica
Boa, na Conselheiro Aguiar.
Retiradas da loja por homens
armados, espancadas com
coronhadas, foram jogadas numa
caminhonete oficial e só vistas
de novo dias depois pela advogada
Mércia Albuquerque: os corpos
estavam desfigurados, Pauline com
a boca arrebentada e marcas por
todo o corpo; Soledad com os
olhos muito abertos e uma
expressão de terror muito grande
(sic) e um feto, o suposto filho
do Cabo Anselmo, responsável por
estas e várias mortes com suas
delações, aos seus pés.