-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 23 de março de 1998


ARTIGO

Vasto mundo

por FÁTIMA QUINTAS *

Saiu do cabeleireiro, olhou de um lado para o outro, aguardou cinco minutos, o chofer não chegara. Desceu a avenida a pé, resistiu a tomar um táxi e, cansada de andar à-toa, sentou-se na praça sem nome. Mais uma praça, mais uma rua, mais um país... Onde estaria ela?

Era um dia aparentemente comum, o céu brilhante emoldurava-se de nuvens, tropicalíssimo. Então, lembrei-me do céu de Lisboa e detectei acentuadas diferenças. Em Estoril, a natureza se apresentava límpida, sem a menor névoa que pudesse macular a claridade. Céu cor de céu, azulíssimo, definido em luzes uniformes. Na esplanada do hotel, em frente ao Cassino, percebia olhos que me denunciavam estrangeira, eu própria recolhendo-me à identidade tropical, mas amando com altruísmo o murmúrio de um vento afoito a salpicar a pele maliciosamente. Temi as águas gélidas de um outro Atlântico, mas num verão escaldante, em Caparica, desafiei o mar com a ousadia de quem o conhece intimamente. Não fui longe. Logo capitulei diante da inexperiência em plagas ibéricas. Será que os mares são diferentes? O mistério é o mesmo; a superfície não é a mesma. Do frio ao calor há visíveis mutações no meridiano da percepção. Por mais que se imagine um mundo igual, não é bem assim. Mas não era sobre isto que eu ia falar. Falava da moça... E a moça?

Inquietou-se. Olhou o relógio. Recordara-se que tinha combinado com o chofer para apanhá-la às cinco horas. Eram quatro. Não calculou bem o tempo no cabeleireiro. Mas também deixara de arrumar os pés e as mãos: as manicures estavam ocupadas e a semana iria transcorrer sem nenhuma solenidade especial, o que lhe permitia prescindir de certos requintes. A verdade é que andava cansada de se embonecar. As recepções eram tantas! O marido, diplomata, preenchia a agenda com um tal prazer que, por mais que ela tentasse compreender, não conseguia. Há anos a vida se volatizava em festas e festas e festas. As exigências cresciam à medida que a hierarquia funcional pontificava. A escalada do poder tornava o cotidiano insuportável. Mas, tinha que se conformar. De que adiantaria queixar-se, agora? A família estava longe, os amigos eram poucos, quer dizer, os amigos verdadeiros, não havia sequer disponibilidade de tempo para construir relações duradouras. A amizade se edifica em base de cumplicidades e confidências. Reclama história. As ininterruptas transferências arranhavam os afetos, dilapidando-os. E os recomeços se tornavam cada vez mais insuportáveis.

Tão bom o chofer demorar! Há muito não sabia o que era ficar sozinha. Sozinha consigo mesma. Estava sempre com outros, outros que são mesmo outros, distantes, superficiais, a falarem de coisas também distantes, sob o rótulo da implacável etiqueta que privilegia conversas amorfas, crises internacionais, comportamentos políticos...

Desejou que as horas não passassem. Tentou avaliar a vida. Do Central Park ao Museu do Prado, já não sabia mais onde estava. Os caminhos se cruzavam em viagens relâmpagos, as distâncias não existiam, que bobagem!, o mais desinformado dos homens tem consciência de que as distâncias já não existiam, todos sabem de tudo, ela é que parecia ignorar a única verdade possível: ela mesma. Puxou da bolsa o calendário, surpreendeu-se com a data! Aniversário de casamento. Quem iria se lembrar? Trinta anos de convivência diária e as datas nada significavam. Pedro, o filho mais velho, estudando em Genebra; Luiza, a arquiteta, debruçada na beleza estética da velha França; Ana Tereza, a caçula, casada com um inglês, morando em Sussex, com uma filha pequena de dois anos. A única neta! Levou a mão aos cabeços, acariciou o rosto e sentiu saudade. Era hora de exclamar assustada: "Quem sou eu? Para onde vou?". Amanhã, com certeza, iria saber. Hoje, não. O telegrama, frio e conciso, anunciaria a nova estada.

O chofer chegou à hora marcada. Sempre haverá um chofer esperando-a, em algum lugar, pensou, desanimada.

* Fátima Quintas é antropóloga

 
 

 

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