 |
ARTIGO
Vasto
mundo
por FÁTIMA
QUINTAS *
Saiu do
cabeleireiro, olhou de um lado
para o outro, aguardou cinco
minutos, o chofer não chegara.
Desceu a avenida a pé, resistiu
a tomar um táxi e, cansada de
andar à-toa, sentou-se na praça
sem nome. Mais uma praça, mais
uma rua, mais um país... Onde
estaria ela?
Era um dia
aparentemente comum, o céu
brilhante emoldurava-se de
nuvens, tropicalíssimo. Então,
lembrei-me do céu de Lisboa e
detectei acentuadas diferenças.
Em Estoril, a natureza se
apresentava límpida, sem a menor
névoa que pudesse macular a
claridade. Céu cor de céu,
azulíssimo, definido em luzes
uniformes. Na esplanada do hotel,
em frente ao Cassino, percebia
olhos que me denunciavam
estrangeira, eu própria
recolhendo-me à identidade
tropical, mas amando com
altruísmo o murmúrio de um
vento afoito a salpicar a pele
maliciosamente. Temi as águas
gélidas de um outro Atlântico,
mas num verão escaldante, em
Caparica, desafiei o mar com a
ousadia de quem o conhece
intimamente. Não fui longe. Logo
capitulei diante da
inexperiência em plagas
ibéricas. Será que os mares
são diferentes? O mistério é o
mesmo; a superfície não é a
mesma. Do frio ao calor há
visíveis mutações no meridiano
da percepção. Por mais que se
imagine um mundo igual, não é
bem assim. Mas não era sobre
isto que eu ia falar. Falava da
moça... E a moça?
Inquietou-se.
Olhou o relógio. Recordara-se
que tinha combinado com o chofer
para apanhá-la às cinco horas.
Eram quatro. Não calculou bem o
tempo no cabeleireiro. Mas
também deixara de arrumar os
pés e as mãos: as manicures
estavam ocupadas e a semana iria
transcorrer sem nenhuma
solenidade especial, o que lhe
permitia prescindir de certos
requintes. A verdade é que
andava cansada de se embonecar.
As recepções eram tantas! O
marido, diplomata, preenchia a
agenda com um tal prazer que, por
mais que ela tentasse
compreender, não conseguia. Há
anos a vida se volatizava em
festas e festas e festas. As
exigências cresciam à medida
que a hierarquia funcional
pontificava. A escalada do poder
tornava o cotidiano
insuportável. Mas, tinha que se
conformar. De que adiantaria
queixar-se, agora? A família
estava longe, os amigos eram
poucos, quer dizer, os amigos
verdadeiros, não havia sequer
disponibilidade de tempo para
construir relações duradouras.
A amizade se edifica em base de
cumplicidades e confidências.
Reclama história. As
ininterruptas transferências
arranhavam os afetos,
dilapidando-os. E os recomeços
se tornavam cada vez mais
insuportáveis.
Tão bom o
chofer demorar! Há muito não
sabia o que era ficar sozinha.
Sozinha consigo mesma. Estava
sempre com outros, outros que
são mesmo outros, distantes,
superficiais, a falarem de coisas
também distantes, sob o rótulo
da implacável etiqueta que
privilegia conversas amorfas,
crises internacionais,
comportamentos políticos...
Desejou que as
horas não passassem. Tentou
avaliar a vida. Do Central Park
ao Museu do Prado, já não sabia
mais onde estava. Os caminhos se
cruzavam em viagens relâmpagos,
as distâncias não existiam, que
bobagem!, o mais desinformado dos
homens tem consciência de que as
distâncias já não existiam,
todos sabem de tudo, ela é que
parecia ignorar a única verdade
possível: ela mesma. Puxou da
bolsa o calendário,
surpreendeu-se com a data!
Aniversário de casamento. Quem
iria se lembrar? Trinta anos de
convivência diária e as datas
nada significavam. Pedro, o filho
mais velho, estudando em Genebra;
Luiza, a arquiteta, debruçada na
beleza estética da velha
França; Ana Tereza, a caçula,
casada com um inglês, morando em
Sussex, com uma filha pequena de
dois anos. A única neta! Levou a
mão aos cabeços, acariciou o
rosto e sentiu saudade. Era hora
de exclamar assustada: "Quem
sou eu? Para onde vou?".
Amanhã, com certeza, iria saber.
Hoje, não. O telegrama, frio e
conciso, anunciaria a nova
estada.
O chofer chegou
à hora marcada. Sempre haverá
um chofer esperando-a, em algum
lugar, pensou, desanimada.
* Fátima
Quintas é antropóloga
|
|

|