- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 23 de março de 1998

CINEMA

Central do Brasil trilha novos rumos para o cinema nacional

por KLEBER MENDONÇA FILHO

Atualmente, é cada vez mais comum observarmos filmes que nasceram de um intercâmbio de linguagens oriundas da televisão, da publicidade e do teatro, estilos que mesclados com a sintaxe do próprio cinema resultam em filmes híbridos. Não há nada de errado nisso, mas não deixa de ser um diferencial hoje em dia vermos um filme onde o cinema propriamente dito reina absoluto, um produto que demonstra uma enorme paixão pelas possibilidades de captação de uma imagem numa película. Filmes recentes como Ondas do Destino, de Lars Von Trier e O Doce Amanhã, de Atom Egoyan, despertam esta sensação quase nobre que Central do Brasil, de Walter Salles, também nos traz.

É um filme que esbanja linguagem sem que isto atrapalhe a sua comunicação com o grande público. É esta mesma linguagem que parece ministrar uma espécie de hipnose sobre a platéia, evidenciada durante a exibição no Teatro Guararapes, onde em meio a quase três mil pessoas, teria sido possível ouvir um alfinete cair.

Central também estabelece de vez o talento de Salles como narrador/autor. Ele livra-se de maneirismos que borraram, para alguns, a percepção dos seus dois primeiros filmes, A Grande Arte (1991) e Terra Estrangeira (1994). Ele fez de Central um filme expressionista no sentido que as imagens falam até mais que os diálogos, especialmente no seu retrato impecável de uma cidade grande (no caso, o Rio, mas poderia ser, a rigor, qualquer outra). Somos apresentados a um emaranhado de ferro e concreto, trens lotados e vizinhanças barulhentas captadas de maneira soberba por Walter Carvalho no formato scope. Há uma atenção especial à arquitetura, que oprime a dupla de personagens. Há no ar ecos de O Processo, de Welles.

Fernanda Montenegro como Dora, a escritora de aluguel para analfabetos saudosos dos que deixaram para trás, é cínica, amarga e endurecida pela sua existência pública, em contato diariamente com milhares de pessoas e, ao mesmo tempo, distante léguas de cada uma delas. Lembra um dos corrimões da estação, sempre em contato com gente, mas capaz apenas de pegar a sujeira. Nunca entendi direito o significado do ser estrela, mas Montenegro é uma. Seu carisma chega a ser comovente e sua emoção, totalmente real.

Josué (Vinicius de Oliveira), de 9 anos, órfão, é a imagem da fragilidade corajosa, uma criança que tenta adaptar-se à dureza ao se apoiar na esperança de saber quem realmente é. O Cinema Nacional acaba de adquirir dois novos ícones, na tradição de Zé do Burro, Antonio das Mortes e Pixote.

O filme é tão consistente que qualquer ressalva que possa vir à tona torna-se quase insignificante ao olharmos para o todo. Elementos periféricos à trama podem ser questionados como concessões à percepção que estrangeiros têm do Brasil, ou seja, parecem ter sido trabalhados para o público de fora, Há, por exemplo, uma execução à luz do dia de um ladrão, ou uma alavanca do roteiro que vem na forma de traficantes de órgãos infantis.

Numa das cenas que praticamente sintetizam o filme, Dora e Josué trocam palavras, na estação do título, em meio a uma profusão de vultos anônimos que passam por eles sem nunca serem identificados e sem que saibamos para onde estão indo. A cena estabelece o contato entre dois personagens que irão permanecer perdidos, um junto ao outro, e expostos, ao longo do filme, a uma coleção notável de vultos que, lentamente, adquirem suas próprias identidades, eles dois incluídos. Da mesma forma, Central do Brasil aponta para uma nova identidade para o nosso próprio cinema, e poderá ser lembrado e repensado como um novo tipo de padrão para as nossas imagens.


     

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