CINEMA
Central
do Brasil trilha novos rumos para
o cinema nacionalpor KLEBER MENDONÇA
FILHO
Atualmente, é
cada vez mais comum observarmos
filmes que nasceram de um
intercâmbio de linguagens
oriundas da televisão, da
publicidade e do teatro, estilos
que mesclados com a sintaxe do
próprio cinema resultam em
filmes híbridos. Não há nada
de errado nisso, mas não deixa
de ser um diferencial hoje em dia
vermos um filme onde o cinema
propriamente dito reina absoluto,
um produto que demonstra uma
enorme paixão pelas
possibilidades de captação de
uma imagem numa película. Filmes
recentes como Ondas do Destino,
de Lars Von Trier e O Doce
Amanhã, de Atom Egoyan,
despertam esta sensação quase
nobre que Central do Brasil, de
Walter Salles, também nos traz.
É um filme que
esbanja linguagem sem que isto
atrapalhe a sua comunicação com
o grande público. É esta mesma
linguagem que parece ministrar
uma espécie de hipnose sobre a
platéia, evidenciada durante a
exibição no Teatro Guararapes,
onde em meio a quase três mil
pessoas, teria sido possível
ouvir um alfinete cair.
Central também
estabelece de vez o talento de
Salles como narrador/autor. Ele
livra-se de maneirismos que
borraram, para alguns, a
percepção dos seus dois
primeiros filmes, A Grande Arte
(1991) e Terra Estrangeira
(1994). Ele fez de Central um
filme expressionista no sentido
que as imagens falam até mais
que os diálogos, especialmente
no seu retrato impecável de uma
cidade grande (no caso, o Rio,
mas poderia ser, a rigor,
qualquer outra). Somos
apresentados a um emaranhado de
ferro e concreto, trens lotados e
vizinhanças barulhentas captadas
de maneira soberba por Walter
Carvalho no formato scope. Há
uma atenção especial à
arquitetura, que oprime a dupla
de personagens. Há no ar ecos de
O Processo, de Welles.
Fernanda
Montenegro como Dora, a escritora
de aluguel para analfabetos
saudosos dos que deixaram para
trás, é cínica, amarga e
endurecida pela sua existência
pública, em contato diariamente
com milhares de pessoas e, ao
mesmo tempo, distante léguas de
cada uma delas. Lembra um dos
corrimões da estação, sempre
em contato com gente, mas capaz
apenas de pegar a sujeira. Nunca
entendi direito o significado do
ser estrela, mas Montenegro é
uma. Seu carisma chega a ser
comovente e sua emoção,
totalmente real.
Josué
(Vinicius de Oliveira), de 9
anos, órfão, é a imagem da
fragilidade corajosa, uma
criança que tenta adaptar-se à
dureza ao se apoiar na esperança
de saber quem realmente é. O
Cinema Nacional acaba de adquirir
dois novos ícones, na tradição
de Zé do Burro, Antonio das
Mortes e Pixote.
O filme é tão
consistente que qualquer ressalva
que possa vir à tona torna-se
quase insignificante ao olharmos
para o todo. Elementos
periféricos à trama podem ser
questionados como concessões à
percepção que estrangeiros têm
do Brasil, ou seja, parecem ter
sido trabalhados para o público
de fora, Há, por exemplo, uma
execução à luz do dia de um
ladrão, ou uma alavanca do
roteiro que vem na forma de
traficantes de órgãos infantis.
Numa das cenas
que praticamente sintetizam o
filme, Dora e Josué trocam
palavras, na estação do
título, em meio a uma profusão
de vultos anônimos que passam
por eles sem nunca serem
identificados e sem que saibamos
para onde estão indo. A cena
estabelece o contato entre dois
personagens que irão permanecer
perdidos, um junto ao outro, e
expostos, ao longo do filme, a
uma coleção notável de vultos
que, lentamente, adquirem suas
próprias identidades, eles dois
incluídos. Da mesma forma,
Central do Brasil aponta para uma
nova identidade para o nosso
próprio cinema, e poderá ser
lembrado e repensado como um novo
tipo de padrão para as nossas
imagens.