CINEMA (II)
Um
festival que só teve vencedorespor FLÁVIA DE
GUSMÃO
Uma noite
brilhante onde onde o público
ocupou todo o espaço disponível
no Teatro Guararapes e não teve
motivos para lamentar. O
encerramento do II Festival de
Cinema Nacional do Recife, no
último sábado, consagrou o
cinema brasileiro nessa sua fase
de renascente autoestima,
ovacionando pessoas e
realizações. O filme A Ostra e
O Vento, de Walter Lima Jr. levou
quase tudo para casa - o
reconhecimento unânime da
platéia e quatro troféus O
Passista; os curtas pernambucanos
Clandestina Felicidade, de
Marcelo Gomes e Beto Normal,
Simião Martiniano - o camelô do
cinema, de Hilton Lacerda e Clara
Angélica, e Recife de Dentro Pra
Fora, de Kátia Mesel, também
tiveram suas qualidades
reconhecida.
A Paraíba
despontou como um promissor pólo
audiovisual com o belíssimo A
Árvore da Miséria (que traz
como protagonista a atriz
paraibana Sôia Lira que fez
também a mãe do garoto Josué
em Central do Brasil), de Marcos
Vilar, arrebatando os prêmios de
Melhor Filme e Melhor Fotografia
na categoria ficção, além de
embolsar os R$ 10 mil referentes
ao Prêmio Banco do Nordeste. O
final apoteótico com a
aclamação de Central do Brasil
parece ter selado a declaração
emocionada que a atriz Fernanda
Montenegro dedicou aos potenciais
patrocinadores: "Nós
sabemos, nós somos artistas,
deixa a gente fazer cinema que a
gente arrebenta". Depois de
visto o filme, ninguém duvidou.
José Wilker
foi uma das surpresas reservadas
para a última noite. Ele dividiu
a apresentação com Graça
Araújo e Bete Mendes e foi ele
também quem se encarregou de dar
um fora nos que insistiam em não
desligar o celular: "É
muito importante que telefones
celulares toquem em lugares
públicos porque senão como é
que vão saber que temos
celular", provocou o ator
com seu jeito ferino de sempre.
Vale dizer que não adiantou
muito.
Com tanta
expectativa criada em torno desta
que foi a primeira exibição
nacional de Central do Brasil,
era natural que a platéia
estivesse ansiosa. A expectativa
foi aguçada com o tempo
excessivo que durou a premiação
- cerca de duas horas e meia.
Central do Brasil só começou a
ser exibido às 23 horas. O que
se viu então foi puro
deslumbramento. Os nordestinos na
platéia devem ter ficado
particularmente tantalizados ao
se verem - cores, gostos,
costumes, linguajar - num filme
de excepcional delicadeza e
sentimento.
Ao subir ao
palco para os agradecimentos,
Walter Salles repetiu a mesma
fórmula usada por Fernanda
Montenegro (que também estava
lá ao lado de Vinicius de
Oliveira) ao receber o Urso de
Prata em Berlim: "Danke
Recife, danke", disse o
diretor. Bite, Walter, nós é
que agradecemos.