- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 23 de março de 1998

CINEMA (II)

Um festival que só teve vencedores

por FLÁVIA DE GUSMÃO

Uma noite brilhante onde onde o público ocupou todo o espaço disponível no Teatro Guararapes e não teve motivos para lamentar. O encerramento do II Festival de Cinema Nacional do Recife, no último sábado, consagrou o cinema brasileiro nessa sua fase de renascente autoestima, ovacionando pessoas e realizações. O filme A Ostra e O Vento, de Walter Lima Jr. levou quase tudo para casa - o reconhecimento unânime da platéia e quatro troféus O Passista; os curtas pernambucanos Clandestina Felicidade, de Marcelo Gomes e Beto Normal, Simião Martiniano - o camelô do cinema, de Hilton Lacerda e Clara Angélica, e Recife de Dentro Pra Fora, de Kátia Mesel, também tiveram suas qualidades reconhecida.

A Paraíba despontou como um promissor pólo audiovisual com o belíssimo A Árvore da Miséria (que traz como protagonista a atriz paraibana Sôia Lira que fez também a mãe do garoto Josué em Central do Brasil), de Marcos Vilar, arrebatando os prêmios de Melhor Filme e Melhor Fotografia na categoria ficção, além de embolsar os R$ 10 mil referentes ao Prêmio Banco do Nordeste. O final apoteótico com a aclamação de Central do Brasil parece ter selado a declaração emocionada que a atriz Fernanda Montenegro dedicou aos potenciais patrocinadores: "Nós sabemos, nós somos artistas, deixa a gente fazer cinema que a gente arrebenta". Depois de visto o filme, ninguém duvidou.

José Wilker foi uma das surpresas reservadas para a última noite. Ele dividiu a apresentação com Graça Araújo e Bete Mendes e foi ele também quem se encarregou de dar um fora nos que insistiam em não desligar o celular: "É muito importante que telefones celulares toquem em lugares públicos porque senão como é que vão saber que temos celular", provocou o ator com seu jeito ferino de sempre. Vale dizer que não adiantou muito.

Com tanta expectativa criada em torno desta que foi a primeira exibição nacional de Central do Brasil, era natural que a platéia estivesse ansiosa. A expectativa foi aguçada com o tempo excessivo que durou a premiação - cerca de duas horas e meia. Central do Brasil só começou a ser exibido às 23 horas. O que se viu então foi puro deslumbramento. Os nordestinos na platéia devem ter ficado particularmente tantalizados ao se verem - cores, gostos, costumes, linguajar - num filme de excepcional delicadeza e sentimento.

Ao subir ao palco para os agradecimentos, Walter Salles repetiu a mesma fórmula usada por Fernanda Montenegro (que também estava lá ao lado de Vinicius de Oliveira) ao receber o Urso de Prata em Berlim: "Danke Recife, danke", disse o diretor. Bite, Walter, nós é que agradecemos.


     

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