- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 23 de março de 1998

CINEMA (III)

Festival: sucesso de público com filmes de qualidade

A primeira palavra que vem à cabeça ao pensarmos sobre a semana que passou é "sucesso". O II Festival de Cinema do Recife foi um enorme sucesso, bateu recordes de público (mas de 12 mil pessoas em sete dias) dentro do circuito brasileiro de eventos desse tipo, cresceu a cada dia e provou o quanto o brasileiro (especialmente, o recifense) precisa ver filmes brasileiros, deficiência provada pelo ineditismo de longas importantes do ano passado como A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr., Miramar, de Júlio Bressane, e Os Matadores, de Beto Brant. O evento firmou-se também como um dos mais importantes do Brasil, já em grau de comparação com os festivais tradicionais de Gramado e Brasília.

Foi também o Festival que disse "oi, voltamos a produzir", com a participação de quatro curtas pernambucanos. Circo Vicioso, de Renata Nascimento e Juliana Rondon, Clandestina Felicidade, de Beto Normal e Marcelo Gomes, Recife de Dentro Pra Fora, de Kátia Mesel, e Simião Martiniano, o Camelô do Cinema, de Clara Angélica e Hilton Larceda (que arrebatou quatro prêmios) e, iniciam o que, espera-se ser, uma produção constante no estado, especialmente num ano em que Prefeitura e Governo acenam com prêmios para realização.

A questionada troca de endereço do Festival do Recife terminou dando muito certo. Trocamos o glamour do São Luiz pelo concreto do Teatro Guararapes, mas ganhamos espaço para o público. Só em Miramar, filme considerado difícil para platéias, foram mais de 1.200 espectadores, talvez o maior público reunido numa única sessão para um filme de Bressane.

Do ponto de vista da seleção, Isaac Kelner e Alfredo Bertini tiveram dificuldades em agendar novos longas para a competição, uma vez que parece existir um excesso de cautela por parte de produtores em relação a uma possível queima dos seus recém-nascidos nas fogueiras das premiações, do público e da crítica.

No quesito curtas, é inaceitável que coisa macabras tipo Viva 2 de Julho, um documentário baiano aparentemente achado em algum baú dos anos 70, ou Dedos de Pianista, um drama constrangedor do Rio Grande do Sul, tenha tomado o lugar de filmes como À Meia-Noite Com Glauber, Ângelo Anda Sumido ou até o interessante Cinco Filmes Estrangeiros.

Outro ponto que merece consideração. A descentralização das exibições pode não ser uma boa idéia. Boa parte do que foi exibido no Teatro Apolo não funcionou, tendo sofrido problemas técnicos ou falta de público. Uma sugestão: já que o circo está montado a um custo alto no Teatro Guararapes, porquê não localizar as exibições extras no mesmo local, com programações iniciando à tarde?

Outro fator que merece destaque neste balanço é a quantidade da premiação, uma das questões mais polêmicas nos festivais. Foram distribuídos prêmios justos para a grande maioria dos filmes em competição, por jurados que honraram a responsabilidade que lhes foram dadas. Os dois prêmios para Jane Malaquias pelos seus trabalhos fantásticos de fotografia nos curtas Clandestina Felicidade e A Árvore da Miséria podem ser considerados exemplares ao reconhecerem arte e competência. Também merece destaque os prêmios do público, ao dar o troféu à Árvore da Miséria, que é da Paraíba e premiado a excelência de A Ostra e o Vento.

Enfim, um evento muito bem sucedido que pode, ao longo do ano, ter alguns dos seus defeitos resolvidos, principalmente, aqui vai uma crítica construtiva, se Isaac e Bertini se aproximarem mais da própria comunidade à procura de idéias. (K.M.F)


     

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