CINEMA (III)
Festival:
sucesso de público com filmes de
qualidadeA primeira palavra que
vem à cabeça ao pensarmos sobre
a semana que passou é
"sucesso". O II
Festival de Cinema do Recife foi
um enorme sucesso, bateu recordes
de público (mas de 12 mil
pessoas em sete dias) dentro do
circuito brasileiro de eventos
desse tipo, cresceu a cada dia e
provou o quanto o brasileiro
(especialmente, o recifense)
precisa ver filmes brasileiros,
deficiência provada pelo
ineditismo de longas importantes
do ano passado como A Ostra e o
Vento, de Walter Lima Jr.,
Miramar, de Júlio Bressane, e Os
Matadores, de Beto Brant. O
evento firmou-se também como um
dos mais importantes do Brasil,
já em grau de comparação com
os festivais tradicionais de
Gramado e Brasília.
Foi também o
Festival que disse "oi,
voltamos a produzir", com a
participação de quatro curtas
pernambucanos. Circo Vicioso, de
Renata Nascimento e Juliana
Rondon, Clandestina Felicidade,
de Beto Normal e Marcelo Gomes,
Recife de Dentro Pra Fora, de
Kátia Mesel, e Simião
Martiniano, o Camelô do Cinema,
de Clara Angélica e Hilton
Larceda (que arrebatou quatro
prêmios) e, iniciam o que,
espera-se ser, uma produção
constante no estado,
especialmente num ano em que
Prefeitura e Governo acenam com
prêmios para realização.
A questionada
troca de endereço do Festival do
Recife terminou dando muito
certo. Trocamos o glamour do São
Luiz pelo concreto do Teatro
Guararapes, mas ganhamos espaço
para o público. Só em Miramar,
filme considerado difícil para
platéias, foram mais de 1.200
espectadores, talvez o maior
público reunido numa única
sessão para um filme de
Bressane.
Do ponto de
vista da seleção, Isaac Kelner
e Alfredo Bertini tiveram
dificuldades em agendar novos
longas para a competição, uma
vez que parece existir um excesso
de cautela por parte de
produtores em relação a uma
possível queima dos seus
recém-nascidos nas fogueiras das
premiações, do público e da
crítica.
No quesito
curtas, é inaceitável que coisa
macabras tipo Viva 2 de Julho, um
documentário baiano
aparentemente achado em algum
baú dos anos 70, ou Dedos de
Pianista, um drama constrangedor
do Rio Grande do Sul, tenha
tomado o lugar de filmes como À
Meia-Noite Com Glauber, Ângelo
Anda Sumido ou até o
interessante Cinco Filmes
Estrangeiros.
Outro ponto que
merece consideração. A
descentralização das
exibições pode não ser uma boa
idéia. Boa parte do que foi
exibido no Teatro Apolo não
funcionou, tendo sofrido
problemas técnicos ou falta de
público. Uma sugestão: já que
o circo está montado a um custo
alto no Teatro Guararapes,
porquê não localizar as
exibições extras no mesmo
local, com programações
iniciando à tarde?
Outro fator que
merece destaque neste balanço é
a quantidade da premiação, uma
das questões mais polêmicas nos
festivais. Foram distribuídos
prêmios justos para a grande
maioria dos filmes em
competição, por jurados que
honraram a responsabilidade que
lhes foram dadas. Os dois
prêmios para Jane Malaquias
pelos seus trabalhos fantásticos
de fotografia nos curtas
Clandestina Felicidade e A
Árvore da Miséria podem ser
considerados exemplares ao
reconhecerem arte e competência.
Também merece destaque os
prêmios do público, ao dar o
troféu à Árvore da Miséria,
que é da Paraíba e premiado a
excelência de A Ostra e o Vento.
Enfim, um
evento muito bem sucedido que
pode, ao longo do ano, ter alguns
dos seus defeitos resolvidos,
principalmente, aqui vai uma
crítica construtiva, se Isaac e
Bertini se aproximarem mais da
própria comunidade à procura de
idéias. (K.M.F)