- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - ---Jornal do Commercio - Recife, 23 de março de 1998

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Caça aos estrangeiros em dia de cão

por FERNANDO MENEZES
Repórter especial

A violenta reação popular ao afundamento dos navios brasileiros, sobretudo os ocorridos na costa nordestina, durante a Segunda Guerra Mundial, foi resultado do choque que trouxe o conflito para tão perto de casa. Antes disso, o Brasil já havia perdido 12 navios mercantes, a maioria na costa dos Estados Unidos, com perda de 135 homens, das marinhas mercante, de guerra e passageiros. Mas, o governo pouco informou. Por causa da censura, o povo quase nada sabia, além de boatos. A tragédia bem próxima, as histórias dolorosas dos náufragos, o número de mortos quase triplicado, tudo isso somado foi demais. Deste trauma, nasceu o chamado quebra-quebra, a destruição do patrimônio de italianos, alemães e japoneses residentes no Recife, alguns já há mais de duas décadas.

Os dias 16 e 17 de agosto de 1942 foram de dor e angústia. Nestes dois dias, um submarino alemão, o U-507, torpedeou e afundou cinco navios, três mercantes e dois paquetes, entre Salvador e Aracaju. As histórias dramáticas dos náufragos do Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Ararás funcionaram como um barril de pólvora. Afinal, o povo chorava quase 300 mortos.

UM DIA DE CÃO - E neste clima, na manhã de 18 de agosto, o povo se reuniu nas praças públicas, atendendo ao chamado dos estivadores e de outras categorias mais ligadas ao movimento do porto, além, naturalmente, dos estudantes universitários. A emoção ficou diante da razão e a multidão partiu para vingar seus mortos. Os comerciantes italianos, alemães e japoneses, como ficou mais tarde provado, não estavam envolvidos em espionagem. Todos residiam no Recife há mais de 20 anos, tinham filhos e até netos brasileiros. A fúria da multidão correu solta, a polícia, ou melhor, a guarda civil, não podia e, talvez, até nem quisesse conter o povo. E foi um dia de cão, especialmente entre as ruas Nova e Imperatriz, e na Rua Marquês de Olinda.

O procurador aposentado Ajax Pereira tinha 15 anos e já trabalhava num escritório comercial. Ele conta que se juntou ao povo e sem nem saber o que estava fazendo, partiu para as lojas dos "espiões". E foram cenas que ele nunca mais esqueceu: "Na Rua da Imperatriz o povo quebrou uma perfumaria, se não me engano era a Odalisca. Os vidros eram estourados nas calçadas. O cheiro dos perfumes ficou impregnado nas paredes e no calçamento por muitos dias. Na alfaiataria Imbeloni, a multidão arrancou os ternos e os tecidos do estoque e rasgou tudo, como num cabo de guerra, um grupo agarrado numa ponta e outro do lado oposto. Uma loucura. A sapataria Buffone, onde quase todas as senhoras da sociedade faziam sapatos sob encomenda, durou poucos minutos. O povo quebrou tudo".

Assim também aconteceu com as óticas de alemães, como a Moderna e Universal. Só o Regulador da Marinha, por ser também joalheria, recebeu uma certa proteção, para evitar o saque. Ajax Pereira lembra de uma cena curiosa. Um popular foi agarrado por um guarda levando objetos de uma ótica. O guarda disse bruscamente:"Quebre! Isso você pode fazer, mas se tentar levar pra casa eu lhe prendo!" Na Avenida Marquês de Olinda, o povo invadiu o escritório de uma distribuidora de máquina alemã, Hermann Stoltz, e lá, do segunda andar, conta Ajax, "atirou um torno mecânico de meia tonelada. O impacto abriu um buraco na calçada! A multidão aplaudia".

A senhora Yolanda Buffone, filha do italiano Costantino Buffone, proprietário da sapataria famosa, lembra: "embora eu fosse muito criança, nunca mais esqueci. A dor maior não foi a perda da loja de papai, mas ver o povo destratá-lo, logo ele que estava aqui há mais de 30 anos. Ele nascera na Itália, mas amava o Brasil tanto quanto outro qualquer brasileiro. Meu pai recomeçou do zero. Nunca fomos indenizados, aliás, creio que ninguém recebeu pelos danos morais e materiais".

Uma outra cena que ficou marcada na memória do procurador Ajax Pereira foi a ocupação de uma fábrica de manteiga, na Rua Fernandes Vieira, esquina com a Praça Oswaldo Cruz. Ali, o povo derramou na rua todo o estoque. "Era um mar de manteiga, o bonde não tinha tração, não saía do lugar, era preciso botar areia nos trilhos". Assim transcorreu o dia 18, dia do quebra-quebra, dia da vingança, irracional, mas vingança. A polícia só agiu de forma preventiva quando a exaltação popular ameaçou outros municípios. A multidão já estava se organizando para ir quebrar a fábrica de tecidos dos Lundgren, em Paulista. A estrada foi interditada com reforço do exército.


     

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