SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Caça
aos estrangeiros em dia de cãopor FERNANDO MENEZES
Repórter especial
A violenta
reação popular ao afundamento
dos navios brasileiros, sobretudo
os ocorridos na costa nordestina,
durante a Segunda Guerra Mundial,
foi resultado do choque que
trouxe o conflito para tão perto
de casa. Antes disso, o Brasil
já havia perdido 12 navios
mercantes, a maioria na costa dos
Estados Unidos, com perda de 135
homens, das marinhas mercante, de
guerra e passageiros. Mas, o
governo pouco informou. Por causa
da censura, o povo quase nada
sabia, além de boatos. A
tragédia bem próxima, as
histórias dolorosas dos
náufragos, o número de mortos
quase triplicado, tudo isso
somado foi demais. Deste trauma,
nasceu o chamado quebra-quebra, a
destruição do patrimônio de
italianos, alemães e japoneses
residentes no Recife, alguns já
há mais de duas décadas.
Os dias 16 e 17
de agosto de 1942 foram de dor e
angústia. Nestes dois dias, um
submarino alemão, o U-507,
torpedeou e afundou cinco navios,
três mercantes e dois paquetes,
entre Salvador e Aracaju. As
histórias dramáticas dos
náufragos do Baependi,
Araraquara, Aníbal Benévolo,
Itagiba e Ararás funcionaram
como um barril de pólvora.
Afinal, o povo chorava quase 300
mortos.
UM DIA
DE CÃO - E neste clima,
na manhã de 18 de agosto, o povo
se reuniu nas praças públicas,
atendendo ao chamado dos
estivadores e de outras
categorias mais ligadas ao
movimento do porto, além,
naturalmente, dos estudantes
universitários. A emoção ficou
diante da razão e a multidão
partiu para vingar seus mortos.
Os comerciantes italianos,
alemães e japoneses, como ficou
mais tarde provado, não estavam
envolvidos em espionagem. Todos
residiam no Recife há mais de 20
anos, tinham filhos e até netos
brasileiros. A fúria da
multidão correu solta, a
polícia, ou melhor, a guarda
civil, não podia e, talvez, até
nem quisesse conter o povo. E foi
um dia de cão, especialmente
entre as ruas Nova e Imperatriz,
e na Rua Marquês de Olinda.
O procurador
aposentado Ajax Pereira tinha 15
anos e já trabalhava num
escritório comercial. Ele conta
que se juntou ao povo e sem nem
saber o que estava fazendo,
partiu para as lojas dos
"espiões". E foram
cenas que ele nunca mais
esqueceu: "Na Rua da
Imperatriz o povo quebrou uma
perfumaria, se não me engano era
a Odalisca. Os vidros eram
estourados nas calçadas. O
cheiro dos perfumes ficou
impregnado nas paredes e no
calçamento por muitos dias. Na
alfaiataria Imbeloni, a multidão
arrancou os ternos e os tecidos
do estoque e rasgou tudo, como
num cabo de guerra, um grupo
agarrado numa ponta e outro do
lado oposto. Uma loucura. A
sapataria Buffone, onde quase
todas as senhoras da sociedade
faziam sapatos sob encomenda,
durou poucos minutos. O povo
quebrou tudo".
Assim também
aconteceu com as óticas de
alemães, como a Moderna e
Universal. Só o Regulador da
Marinha, por ser também
joalheria, recebeu uma certa
proteção, para evitar o saque.
Ajax Pereira lembra de uma cena
curiosa. Um popular foi agarrado
por um guarda levando objetos de
uma ótica. O guarda disse
bruscamente:"Quebre! Isso
você pode fazer, mas se tentar
levar pra casa eu lhe
prendo!" Na Avenida Marquês
de Olinda, o povo invadiu o
escritório de uma distribuidora
de máquina alemã, Hermann
Stoltz, e lá, do segunda andar,
conta Ajax, "atirou um torno
mecânico de meia tonelada. O
impacto abriu um buraco na
calçada! A multidão
aplaudia".
A senhora
Yolanda Buffone, filha do
italiano Costantino Buffone,
proprietário da sapataria
famosa, lembra: "embora eu
fosse muito criança, nunca mais
esqueci. A dor maior não foi a
perda da loja de papai, mas ver o
povo destratá-lo, logo ele que
estava aqui há mais de 30 anos.
Ele nascera na Itália, mas amava
o Brasil tanto quanto outro
qualquer brasileiro. Meu pai
recomeçou do zero. Nunca fomos
indenizados, aliás, creio que
ninguém recebeu pelos danos
morais e materiais".
Uma outra cena
que ficou marcada na memória do
procurador Ajax Pereira foi a
ocupação de uma fábrica de
manteiga, na Rua Fernandes
Vieira, esquina com a Praça
Oswaldo Cruz. Ali, o povo
derramou na rua todo o estoque.
"Era um mar de manteiga, o
bonde não tinha tração, não
saía do lugar, era preciso botar
areia nos trilhos". Assim
transcorreu o dia 18, dia do
quebra-quebra, dia da vingança,
irracional, mas vingança. A
polícia só agiu de forma
preventiva quando a exaltação
popular ameaçou outros
municípios. A multidão já
estava se organizando para ir
quebrar a fábrica de tecidos dos
Lundgren, em Paulista. A estrada
foi interditada com reforço do
exército.