-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

EMPREGO V
Desemprego aumenta a procura por profissões alternativas

por ADRIANA VIEIRA &
GABRIELA MICHELOTTI
Agência Folha

Conseguir um emprego. Qualquer um. É esse hoje o principal objetivo de mais de um milhão de brasileiros - a taxa de desemprego nunca esteve tão alta. Muitos, cansados de enviar currículos e de receber a negativa de sempre, estão recorrendo a alternativas "pouco usuais" para sobreviver.

Os diplomas ficam pendurados na parede, os anos de experiência profissional são deixados de lado. Como no filme inglês "Ou Tudo Ou Nada", onde seis trabalhadores decidem tirar a roupa para tirar o pé da lama, a imaginação passa a ser o principal trunfo para quem precisa sobreviver à crise.

Depois de amargar longos períodos de depressão - financeira, amorosa e sexual -, muitos desempregados decidem deixar os pruridos pra lá e começar uma vida nova - mesmo que provisória - em áreas completamente desconhecidas. Um grupo de paulistanos, por exemplo, seguiu o mesmo caminho dos desempregados de "Ou Tudo ou Nada", antes mesmo de o filme ter chegado à cidade. Às terças-feiras, eles se reúnem para ter aula com a professora de artes sensuais Fátima Moura, que ensina receitas básicas de "como tirar a roupa de forma sensual".

O engenheiro Eymard Pinheiro da Silva, 36, é um deles. Formado em 1983, Eymard começou a trabalhar como estagiário em uma firma de consultoria de engenharia. "Depois de dois anos, eles me disseram que me efetivariam só se fosse como motorista." Ele tentou ainda outros empregos na área, mas só esbarrou com empresas que não pagavam em dia ou o dispensavam de uma hora para outra.

"Parti para o trabalho autônomo. Mas não é um serviço de primeira necessidade, não é sempre que as empresas gastam dinheiro com um laudo técnico. Por isso, meu negócio é muito pequeno, com desempenho comercial tímido."

Eymard começou a fazer o curso de striptease para se soltar, ganhar auto-estima, mas descobriu que poderia ser uma boa forma de "diversificação de negócios" e complementação de renda. "Pensei: por que não caminhar por aí? Trabalhar a sensualidade, no ramo de dança e artístico, sempre me agradou."

Ele não pretende largar totalmente a engenharia. "Quero seguir as duas profissões e ser o empresário do grupo de strippers. Só tenho medo de que as pessoas misturem as duas coisas e que eu sofra descriminação, porque as pessoas ligam striptease à prostituição, o que não é verdade."

CACHORRO - Depois de dez anos trabalhando de terno e gravata dentro de escritórios de multinacionais, Fernando Baiardi, 32, hoje ganha a vida passeando com cães - de bermuda e tênis, nas ruas arborizadas do Morumbi. Montar a Cãopanhia Animal, empresa prestadora de serviços para animais, foi a solução que o administrador de empresas encontrou, há dois anos, para não ser um desempregado.

Mochila nas costas, 24 vôos internacionais por ano e, no máximo, cinco dias de permanência na mesma cidade. Nada de projetos urbanos, programas de computação gráfica ou pranchetas em escritórios de ar condicionado. A rotina do arquiteto Moacir Cláudio Ramos, 42, mudou totalmente depois que ele virou guia turístico na Ásia.

Já o enfermeiro Clóvis André Bispo, 47, demitido há quatro anos do hospital São Camilo, é hoje "atendente místico" no disque 0900 de Walter Mercado, o megaempresário porto-riquenho do além. Enquanto o cliente aguarda - e paga - do outro lado da linha, Bispo joga os búzios e tenta adivinhar o futuro. O rendimento no final do mês, segundo ele, é de cerca de R$ 10 mil. "Hoje estou muito melhor do que antes, apesar de ter deixado tudo para minha ex-mulher e meus três filhos."

Depois de ficar dois anos mandando currículos para todos os hospitais de São Paulo, Bispo resolveu investir em um lado que, segundo ele, sempre esteve presente em sua vida - o espiritual.

"Os dotes divinatórios e espirituais sempre estiveram presentes em mim, e resolvi desenvolvê-los. Cheguei ao grau de babalaô - no rito iorubano, o sacerdote dedicado ao deus da adivinhação. Sua mulher não aceitou que ele seguisse a carreira de místico, mesmo depois de três anos desempregado.

"A crise do desemprego cria um desequilíbrio familiar. Minha auto-estima ficou a zero, até o lado sexual ficou prejudicado. Sem dinheiro, como o homem mantém a família?", diz.


 

 

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