EMPREGO
V
Desemprego
aumenta a procura por profissões
alternativaspor ADRIANA VIEIRA
&
GABRIELA MICHELOTTI
Agência Folha
Conseguir um
emprego. Qualquer um. É esse
hoje o principal objetivo de mais
de um milhão de brasileiros - a
taxa de desemprego nunca esteve
tão alta. Muitos, cansados de
enviar currículos e de receber a
negativa de sempre, estão
recorrendo a alternativas
"pouco usuais" para
sobreviver.
Os diplomas
ficam pendurados na parede, os
anos de experiência profissional
são deixados de lado. Como no
filme inglês "Ou Tudo Ou
Nada", onde seis
trabalhadores decidem tirar a
roupa para tirar o pé da lama, a
imaginação passa a ser o
principal trunfo para quem
precisa sobreviver à crise.
Depois de
amargar longos períodos de
depressão - financeira, amorosa
e sexual -, muitos desempregados
decidem deixar os pruridos pra
lá e começar uma vida nova -
mesmo que provisória - em áreas
completamente desconhecidas. Um
grupo de paulistanos, por
exemplo, seguiu o mesmo caminho
dos desempregados de "Ou
Tudo ou Nada", antes mesmo
de o filme ter chegado à cidade.
Às terças-feiras, eles se
reúnem para ter aula com a
professora de artes sensuais
Fátima Moura, que ensina
receitas básicas de "como
tirar a roupa de forma
sensual".
O engenheiro
Eymard Pinheiro da Silva, 36, é
um deles. Formado em 1983, Eymard
começou a trabalhar como
estagiário em uma firma de
consultoria de engenharia.
"Depois de dois anos, eles
me disseram que me efetivariam
só se fosse como
motorista." Ele tentou ainda
outros empregos na área, mas só
esbarrou com empresas que não
pagavam em dia ou o dispensavam
de uma hora para outra.
"Parti
para o trabalho autônomo. Mas
não é um serviço de primeira
necessidade, não é sempre que
as empresas gastam dinheiro com
um laudo técnico. Por isso, meu
negócio é muito pequeno, com
desempenho comercial
tímido."
Eymard começou
a fazer o curso de striptease
para se soltar, ganhar
auto-estima, mas descobriu que
poderia ser uma boa forma de
"diversificação de
negócios" e
complementação de renda.
"Pensei: por que não
caminhar por aí? Trabalhar a
sensualidade, no ramo de dança e
artístico, sempre me
agradou."
Ele não
pretende largar totalmente a
engenharia. "Quero seguir as
duas profissões e ser o
empresário do grupo de
strippers. Só tenho medo de que
as pessoas misturem as duas
coisas e que eu sofra
descriminação, porque as
pessoas ligam striptease à
prostituição, o que não é
verdade."
CACHORRO -
Depois de dez anos trabalhando de
terno e gravata dentro de
escritórios de multinacionais,
Fernando Baiardi, 32, hoje ganha
a vida passeando com cães - de
bermuda e tênis, nas ruas
arborizadas do Morumbi. Montar a
Cãopanhia Animal, empresa
prestadora de serviços para
animais, foi a solução que o
administrador de empresas
encontrou, há dois anos, para
não ser um desempregado.
Mochila nas
costas, 24 vôos internacionais
por ano e, no máximo, cinco dias
de permanência na mesma cidade.
Nada de projetos urbanos,
programas de computação
gráfica ou pranchetas em
escritórios de ar condicionado.
A rotina do arquiteto Moacir
Cláudio Ramos, 42, mudou
totalmente depois que ele virou
guia turístico na Ásia.
Já o
enfermeiro Clóvis André Bispo,
47, demitido há quatro anos do
hospital São Camilo, é hoje
"atendente místico" no
disque 0900 de Walter Mercado, o
megaempresário porto-riquenho do
além. Enquanto o cliente aguarda
- e paga - do outro lado da
linha, Bispo joga os búzios e
tenta adivinhar o futuro. O
rendimento no final do mês,
segundo ele, é de cerca de R$ 10
mil. "Hoje estou muito
melhor do que antes, apesar de
ter deixado tudo para minha
ex-mulher e meus três
filhos."
Depois de ficar
dois anos mandando currículos
para todos os hospitais de São
Paulo, Bispo resolveu investir em
um lado que, segundo ele, sempre
esteve presente em sua vida - o
espiritual.
"Os dotes
divinatórios e espirituais
sempre estiveram presentes em
mim, e resolvi desenvolvê-los.
Cheguei ao grau de babalaô - no
rito iorubano, o sacerdote
dedicado ao deus da
adivinhação. Sua mulher não
aceitou que ele seguisse a
carreira de místico, mesmo
depois de três anos
desempregado.
"A crise
do desemprego cria um
desequilíbrio familiar. Minha
auto-estima ficou a zero, até o
lado sexual ficou prejudicado.
Sem dinheiro, como o homem
mantém a família?", diz.