-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

USINAS
Liberação do álcool já detona guerra de preços

por ALEX GOMES

O Governo Federal decidiu liberar o preço do álcool hidratado, à partir de maio. A decisão causou uma corrida de produtores de álcool às distribuidoras. As previsões para o setor estão assustando muita gente, desde o grande usineiro até o produtor de cana.

Uma das distribuidoras, a Maxx, com 5 postos no Recife e 1 no Ceará, recebeu propostas de desconto de até 40% sobre o preço tabelado em R$ 0,52 do álcool hidratado. São produtores em crise de caixa, com estoques altos e pouca perspectiva de retorno a longo prazo.

"Não comprei por que é um tipo de negócio que está sendo feito fora da regulamentação do DNP (Departamento Nacional de Petróleo). É o mercado paralelo de álcool, ativo como nunca", explica André Pereira, diretor comercial da Maxx. "Quem tem cotas do DNP, também está oferecendo descontos, de até 20% dos negócios à vista", garantiu.

Os descontos atingem grandes produtores, como Eduardo Farias. Com 4 usinas e uma produção recente de 60 milhões de litros, ele já pratica 8% de desconto sobre os R$ 0,52 por litro e vendeu mais da metade do estoque antes da liberação de preços.

"Sem uma regulamentação para o impacto desta liberação, o mercado quebra. O Governo Federal deu 3 anos de estudos para a liberação do preço da gasolina, enquanto o álcool teve um ano apenas. Mas eu confio no bom senso dos profissionais do DNP", diz. Há um ano o preço do álcool anidro foi liberado e caiu 20%. "Mas a tabela do álcool hidratado ainda segurou o preço", acrescenta.

José Ranulpho, presidente do Sindicato das Usinas de Açúcar e do Álcool de Pernambuco, confirma a falta de acordo entre regiões produtoras. "Não houve acordo possível em uma semana de reuniões entre representantes do Rio, São Paulo, Goiás, Minas, Pernambuco, Paraíba e Sergipe. Quem estiver mal localizado, sem modernização, e sem capital para segurar o estoque nas usinas, vai ter problemas com o mercado liberado".

Estudiosos do mercado fornecem a base teórica para a preocupação dos produtores de álcool e de cana-de-açúcar. Eles chamam de oligopsônio a situação de mercado onde há poucos compradores (7 distribuidoras de combustíveis) e muitos vendedores (347 indústrias de álcool) de um só produto.

Gregório Maranhão, que presta serviços para a Associação Nacional dos Fornecedores de Cana, lembra a questão social, onde a parte mais fraca -trabalhadores rurais- do elo de produção do álcool pode pagar, com empregos e crise social, pela liberação no preço do combustível. 12 Hospitais e 300 laboratórios mantidos pela associação podem ser fechados com a crise, segundo o consultor.

"A crise é histórica. Com a liberação indiscriminada, fica uma expectativa de quebra para metade das empresas no Estado, o que deixaria mais de cinqüenta mil desempregados na próxima safra.", diz o consultor.

Outro consultor, Aloísio Sotero, alerta para práticas anti-concorrenciais que devem surgir, caso o Governo não organize a concorrência. Uma delas é a diferença de ICMS entre Estados.


 

 

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