USINAS
Liberação
do álcool já detona guerra de
preçospor ALEX GOMES
O Governo
Federal decidiu liberar o preço
do álcool hidratado, à partir
de maio. A decisão causou uma
corrida de produtores de álcool
às distribuidoras. As previsões
para o setor estão assustando
muita gente, desde o grande
usineiro até o produtor de cana.
Uma das
distribuidoras, a Maxx, com 5
postos no Recife e 1 no Ceará,
recebeu propostas de desconto de
até 40% sobre o preço tabelado
em R$ 0,52 do álcool hidratado.
São produtores em crise de
caixa, com estoques altos e pouca
perspectiva de retorno a longo
prazo.
"Não
comprei por que é um tipo de
negócio que está sendo feito
fora da regulamentação do DNP
(Departamento Nacional de
Petróleo). É o mercado paralelo
de álcool, ativo como
nunca", explica André
Pereira, diretor comercial da
Maxx. "Quem tem cotas do
DNP, também está oferecendo
descontos, de até 20% dos
negócios à vista",
garantiu.
Os descontos
atingem grandes produtores, como
Eduardo Farias. Com 4 usinas e
uma produção recente de 60
milhões de litros, ele já
pratica 8% de desconto sobre os
R$ 0,52 por litro e vendeu mais
da metade do estoque antes da
liberação de preços.
"Sem uma
regulamentação para o impacto
desta liberação, o mercado
quebra. O Governo Federal deu 3
anos de estudos para a
liberação do preço da
gasolina, enquanto o álcool teve
um ano apenas. Mas eu confio no
bom senso dos profissionais do
DNP", diz. Há um ano o
preço do álcool anidro foi
liberado e caiu 20%. "Mas a
tabela do álcool hidratado ainda
segurou o preço",
acrescenta.
José Ranulpho,
presidente do Sindicato das
Usinas de Açúcar e do Álcool
de Pernambuco, confirma a falta
de acordo entre regiões
produtoras. "Não houve
acordo possível em uma semana de
reuniões entre representantes do
Rio, São Paulo, Goiás, Minas,
Pernambuco, Paraíba e Sergipe.
Quem estiver mal localizado, sem
modernização, e sem capital
para segurar o estoque nas
usinas, vai ter problemas com o
mercado liberado".
Estudiosos do
mercado fornecem a base teórica
para a preocupação dos
produtores de álcool e de
cana-de-açúcar. Eles chamam de
oligopsônio a situação de
mercado onde há poucos
compradores (7 distribuidoras de
combustíveis) e muitos
vendedores (347 indústrias de
álcool) de um só produto.
Gregório
Maranhão, que presta serviços
para a Associação Nacional dos
Fornecedores de Cana, lembra a
questão social, onde a parte
mais fraca -trabalhadores rurais-
do elo de produção do álcool
pode pagar, com empregos e crise
social, pela liberação no
preço do combustível. 12
Hospitais e 300 laboratórios
mantidos pela associação podem
ser fechados com a crise, segundo
o consultor.
"A crise
é histórica. Com a liberação
indiscriminada, fica uma
expectativa de quebra para metade
das empresas no Estado, o que
deixaria mais de cinqüenta mil
desempregados na próxima
safra.", diz o consultor.
Outro
consultor, Aloísio Sotero,
alerta para práticas
anti-concorrenciais que devem
surgir, caso o Governo não
organize a concorrência. Uma
delas é a diferença de ICMS
entre Estados.