Sertão saqueadoOs leitores que
acompanham as sucessivas
coberturas da imprensa sobre o
crescimento da violência no
sertão podem ser conduzidos a
estabelecer um paralelo com a
situação daquela área nos fins
dos anos 20 e boa parte dos anos
30 deste século, quando grupos
de cangaceiros desafiavam a
autoridade constituída,
dominando grandes áreas daquela
sub-região fisiográfica.
Pode haver
semelhanças, inclusive no apoio
de certos fazendeiros aos grupos
armados, mas as diferenças entre
as duas situações são
profundas. As raízes
sociológicas da violência, de
que Lampião é o nosso principal
símbolo, foram discutidas de
forma abrangente por diferentes
autores, brasileiros ou
"brazianistas", no
rastro deixado por Oliveira
Viana, que associou o
cangaceirismo ao coronelismo e ao
fanatismo religioso como
instituições sertanejas
típicas.
Já o crime
organizado deste final de século
não nasceu no sertão, mas foi
ali introduzido por criminosos
fugidos de áreas urbanas (São
Paulo e Rio de Janeiro,
especialmente), quando se apertou
em torno deles o aparato bélico
de operações armadas que, pelo
menos na última destas duas
cidades, envolveram até o
Exército. Claro que a procura da
área rural, tal como já faziam
nas favelas das duas grandes
metrópoles brasileiras, foi uma
estratégia compensadora para
ocupar o vazio deixado pela
ação governamental.
Hoje, o
aparelho governamental
encontra-se mais organizado e
mais bem aparelhado do que na
época de Lampião. Mas, em
compensação, este lutava com
armas precárias e se expunha
pessoalmente aos azares da luta
com as forças volantes da
Polícia. Agora, os bandidos
estão muito bem equipados e
possuem redes eficientes de venda
dos produtos roubados dos
caminhões (ou do narcotóxico),
quando não preferem atacar
diretamente as agências
bancárias ou os
carros-pagadores. E sabem também
que somente são perseguidos de
tempos em tempos, através de
barulhentas
"operações" com data
e local anunciados através dos
meios de comunicação de massa.
Para
tranqüilizar ainda mais os
traficantes e assaltantes de
carros nas rodovias feitas pelo
governo, alguns integrantes do
Ministério Público lotados nas
áreas sertanejas dizem-se
intimidados pelas ameaças dos
bandidos, chegando até a
anunciar uma possível greve, se
não forem transferidos para
lugares menos perigosos. Até
juízes unem-se algumas vezes a
esse coro.
No interior de
Pernambuco há um déficit de 92
delegados de Polícia. Como
também na capital o policiamento
é precário, muitos se agarram a
este pretexto para não trabalhar
longe do Recife. O último
concurso realizado pela
Secretaria de Segurança Pública
foi em 1996. Dizia-se então
haver 125 vagas, mas houve
acusação de manipulação do
edital, para beneficiar antigos
ocupantes de cargos, e o assunto
está até hoje sub judice. No
ano do concurso, havia 1.134
mandados de prisão pedidos desde
1991 e até então não
cumpridos.
O problema da
chuva, o governo não pode
resolver (ainda que possa fazer
poços e obras hídricas),
justificando-se até certo ponto
que o sertanejo continue fazendo
preces a São José para poder
colher o milho do São João que
se aproxima. Mas pode ser dado um
"basta" ao problema da
violência, se as autoridades de
âmbito estadual se unirem de
forma competente às federais,
dando ao assunto a prioridade que
ele merece. Pernambuco não pode
permanecer com parte de sua
Justiça e do seu povo
encurralados pelos bandidos.