-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 23 de março de 1998

Sertão saqueado

Os leitores que acompanham as sucessivas coberturas da imprensa sobre o crescimento da violência no sertão podem ser conduzidos a estabelecer um paralelo com a situação daquela área nos fins dos anos 20 e boa parte dos anos 30 deste século, quando grupos de cangaceiros desafiavam a autoridade constituída, dominando grandes áreas daquela sub-região fisiográfica.

Pode haver semelhanças, inclusive no apoio de certos fazendeiros aos grupos armados, mas as diferenças entre as duas situações são profundas. As raízes sociológicas da violência, de que Lampião é o nosso principal símbolo, foram discutidas de forma abrangente por diferentes autores, brasileiros ou "brazianistas", no rastro deixado por Oliveira Viana, que associou o cangaceirismo ao coronelismo e ao fanatismo religioso como instituições sertanejas típicas.

Já o crime organizado deste final de século não nasceu no sertão, mas foi ali introduzido por criminosos fugidos de áreas urbanas (São Paulo e Rio de Janeiro, especialmente), quando se apertou em torno deles o aparato bélico de operações armadas que, pelo menos na última destas duas cidades, envolveram até o Exército. Claro que a procura da área rural, tal como já faziam nas favelas das duas grandes metrópoles brasileiras, foi uma estratégia compensadora para ocupar o vazio deixado pela ação governamental.

Hoje, o aparelho governamental encontra-se mais organizado e mais bem aparelhado do que na época de Lampião. Mas, em compensação, este lutava com armas precárias e se expunha pessoalmente aos azares da luta com as forças volantes da Polícia. Agora, os bandidos estão muito bem equipados e possuem redes eficientes de venda dos produtos roubados dos caminhões (ou do narcotóxico), quando não preferem atacar diretamente as agências bancárias ou os carros-pagadores. E sabem também que somente são perseguidos de tempos em tempos, através de barulhentas "operações" com data e local anunciados através dos meios de comunicação de massa.

Para tranqüilizar ainda mais os traficantes e assaltantes de carros nas rodovias feitas pelo governo, alguns integrantes do Ministério Público lotados nas áreas sertanejas dizem-se intimidados pelas ameaças dos bandidos, chegando até a anunciar uma possível greve, se não forem transferidos para lugares menos perigosos. Até juízes unem-se algumas vezes a esse coro.

No interior de Pernambuco há um déficit de 92 delegados de Polícia. Como também na capital o policiamento é precário, muitos se agarram a este pretexto para não trabalhar longe do Recife. O último concurso realizado pela Secretaria de Segurança Pública foi em 1996. Dizia-se então haver 125 vagas, mas houve acusação de manipulação do edital, para beneficiar antigos ocupantes de cargos, e o assunto está até hoje sub judice. No ano do concurso, havia 1.134 mandados de prisão pedidos desde 1991 e até então não cumpridos.

O problema da chuva, o governo não pode resolver (ainda que possa fazer poços e obras hídricas), justificando-se até certo ponto que o sertanejo continue fazendo preces a São José para poder colher o milho do São João que se aproxima. Mas pode ser dado um "basta" ao problema da violência, se as autoridades de âmbito estadual se unirem de forma competente às federais, dando ao assunto a prioridade que ele merece. Pernambuco não pode permanecer com parte de sua Justiça e do seu povo encurralados pelos bandidos.

 
     

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