ALCOOLISMO
Cuidado
com o primeiro golepor FABIANA MORAES
Quando
descobriu que o marido era
alcoolista, a advogada M.I.S.,
simplesmente passou a ignorá-lo.
Aquele homem bêbado, que não
tinha o mínimo controle
emocional, estava a anos-luz da
pessoa com quem ela tinha se
casado. "Tinha raiva dele,
via tudo como uma mera falta de
caráter", diz a advogada. A
reação de M.I.S. em relação
ao marido é mais comum do que se
pensa: grande parte das famílias
que descobrem ter um alcoolista
em seu meio passa a desprezá-lo.
Especialistas na área alertam
que o abandono dos familiares
acaba levando o doente à morte.
"Só
percebi que se tratava de uma
doença depois que uma assistente
social veio conversar comigo a
respeito do alcoolismo. Hoje, me
arrependo muito por não ter dado
atenção ao meu marido",
revela a advogada. A partir do
momento em que recebeu apoio da
mulher, o bancário aposentado
N.S., 54 anos, iniciou um
tratamento de combate a doença.
"Passei três meses numa
clínica, onde me
desintoxiquei", conta.
O aposentado
tomou seu último gole de álcool
há cerca de três anos. No
início, ele bebia
"socialmente", ato que
pode provocar o desenvolvimento
da doença (Leia matéria na
página 2). "Eu nem gostava
tanto da bebida, mas me sentia
mais sociável e desinibido com
um copo na mão", diz N.S,
que passou longos quatro anos
viciado em álcool. "Minha
filha tinha tanta vergonha que
deixou de levar os amigos para
casa".
Já a
economista Darci Freire, 60 anos,
recebeu total apoio da família
quando descobriu ser dependente.
"Eu vinha bebendo desde os
28 anos, mas de forma moderada.
Depois, tive que parar de ingerir
álcool, já que o médico havia
me receitado anti-depressivos.
Não consegui parar e comecei a
consumir os dois", lembra. A
situação piorou quando Darci se
aposentou. Dentro de casa, a
depressão aumentou e ela passou
a beber todos os dias. "Só
tomava cerveja. Começava às dez
da manhã e bebia até dormir.
Depois, acordava e começava a
beber de novo".
Janaína
Freire, filha da economista,
tinha apenas 15 anos na época em
que a mãe era alcoolista.
"Eu procurava ajudá-la,
ficava ao seu lado e conversava.
Mas às vezes, depois da
milésima vez vendo-a voltar a
beber, ficava com raiva. Achava
até que era falta de
caráter". Darci decidiu
isolar-se e o álcool
simplesmente passou a comandar
sua vida, que se desestruturou
por completo. "Perdi três
carros e uma loja. Não tinha
forças para gerenciar nada, e
chegava a acordar no meio da
noite para beber".
A saída para
Darci Freire foi o internamento
integral. Ela passou dois meses
numa clínica, onde fazia terapia
em conjunto com o marido e a
filha. "Me arrependo, pois
não estava ao lado da minha
família. Toda vez que minha
filha precisava de mim, eu estava
bêbada". Darci não bebe
há dois anos e dez meses, e
ainda hoje submete-se a terapias
de grupo.
COMO
LOUCOS - De acordo com o
presidente da Associação
Brasileira de Estudo do Álcool e
Outras Drogas (ABAD), Evaldo Melo
de Oliveira, é de extrema
importância que o doente
alcóolico receba apoio familiar
tanto antes quanto durante e
depois do tratamento. "É
preciso que a família entenda o
fato como uma doença, e não
simplesmente uma fraqueza de
personalidade", ensina.
Oliveira é um
dos diretores do Instituto Recife
de Ação Integral às
Dependências (Raid), que tem
tratamento diferenciado para o
alcoolismo. Em muitas clínicas
de desintoxicação, o alcoolista
é internado junto a doentes
mentais, esquizofrênicos e
depressivos, e terminam sendo
medicados com drogas pesadas,
destinadas apenas a tratamentos
psiquiátricos. "É um
absurdo que alcoolistas sejam
comparados a doentes
mentais", diz o presidente.
O ex-alcoolista
e hoje acompanhante do Raid, o
relações públicas Marcílio
Cavalcante, esteve internado em
cinco clínicas de recuperação.
"Eles me sedavam e eu
passava o dia totalmente dopado.
Depois, voltava pro vício",
conta. Marcílio foi salvo tanto
pelos médicos quanto pela
esposa, a enfermeira Benita
Spinelli. "Ela me acompanhou
desde o início do problema até
o fim", lembra.
Benita
emociona-se ao lembrar da época
em que seu marido era alcoolista.
"Um dia, ele estava tão mal
que me pediu ajuda, e disse que
não conseguia mais responder
pelos atos dele", conta,
chorando. Para ela, o maior fator
para recuperação de Marcílio
foi sua força de vontade - foi
ele quem decidiu procurar uma
clínica para se tratar e
insistiu nas sucessivas
internações em várias
clínicas. "Estava morrendo,
tinha que procurar ajuda. No auge
da doença, consumia duas
garrafas de conhaque por
dia".
O Abad formou
um grupo de trabalho que vem
pressionando o Ministério da
Saúde a criar espaços
específicos para dependentes de
álcool. São os chamados Centros
de Reabilitação, espécies de
albergues onde os alcoolistas
poderão ser desintoxicados e
ainda ter acompanhamento
terapêutico e social.
"Cerca de 18% a 30% das
pessoas internadas em hospitais
com problemas como pancreatite
são, na verdade, alcoolistas. Os
médicos é que detectam apenas
aquele problema e cuidam
especificamente dele",
revela Evaldo Oliveira.