- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

ALCOOLISMO
Cuidado com o primeiro gole

por FABIANA MORAES

Quando descobriu que o marido era alcoolista, a advogada M.I.S., simplesmente passou a ignorá-lo. Aquele homem bêbado, que não tinha o mínimo controle emocional, estava a anos-luz da pessoa com quem ela tinha se casado. "Tinha raiva dele, via tudo como uma mera falta de caráter", diz a advogada. A reação de M.I.S. em relação ao marido é mais comum do que se pensa: grande parte das famílias que descobrem ter um alcoolista em seu meio passa a desprezá-lo. Especialistas na área alertam que o abandono dos familiares acaba levando o doente à morte.

"Só percebi que se tratava de uma doença depois que uma assistente social veio conversar comigo a respeito do alcoolismo. Hoje, me arrependo muito por não ter dado atenção ao meu marido", revela a advogada. A partir do momento em que recebeu apoio da mulher, o bancário aposentado N.S., 54 anos, iniciou um tratamento de combate a doença. "Passei três meses numa clínica, onde me desintoxiquei", conta.

O aposentado tomou seu último gole de álcool há cerca de três anos. No início, ele bebia "socialmente", ato que pode provocar o desenvolvimento da doença (Leia matéria na página 2). "Eu nem gostava tanto da bebida, mas me sentia mais sociável e desinibido com um copo na mão", diz N.S, que passou longos quatro anos viciado em álcool. "Minha filha tinha tanta vergonha que deixou de levar os amigos para casa".

Já a economista Darci Freire, 60 anos, recebeu total apoio da família quando descobriu ser dependente. "Eu vinha bebendo desde os 28 anos, mas de forma moderada. Depois, tive que parar de ingerir álcool, já que o médico havia me receitado anti-depressivos. Não consegui parar e comecei a consumir os dois", lembra. A situação piorou quando Darci se aposentou. Dentro de casa, a depressão aumentou e ela passou a beber todos os dias. "Só tomava cerveja. Começava às dez da manhã e bebia até dormir. Depois, acordava e começava a beber de novo".

Janaína Freire, filha da economista, tinha apenas 15 anos na época em que a mãe era alcoolista. "Eu procurava ajudá-la, ficava ao seu lado e conversava. Mas às vezes, depois da milésima vez vendo-a voltar a beber, ficava com raiva. Achava até que era falta de caráter". Darci decidiu isolar-se e o álcool simplesmente passou a comandar sua vida, que se desestruturou por completo. "Perdi três carros e uma loja. Não tinha forças para gerenciar nada, e chegava a acordar no meio da noite para beber".

A saída para Darci Freire foi o internamento integral. Ela passou dois meses numa clínica, onde fazia terapia em conjunto com o marido e a filha. "Me arrependo, pois não estava ao lado da minha família. Toda vez que minha filha precisava de mim, eu estava bêbada". Darci não bebe há dois anos e dez meses, e ainda hoje submete-se a terapias de grupo.

COMO LOUCOS - De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e Outras Drogas (ABAD), Evaldo Melo de Oliveira, é de extrema importância que o doente alcóolico receba apoio familiar tanto antes quanto durante e depois do tratamento. "É preciso que a família entenda o fato como uma doença, e não simplesmente uma fraqueza de personalidade", ensina.

Oliveira é um dos diretores do Instituto Recife de Ação Integral às Dependências (Raid), que tem tratamento diferenciado para o alcoolismo. Em muitas clínicas de desintoxicação, o alcoolista é internado junto a doentes mentais, esquizofrênicos e depressivos, e terminam sendo medicados com drogas pesadas, destinadas apenas a tratamentos psiquiátricos. "É um absurdo que alcoolistas sejam comparados a doentes mentais", diz o presidente.

O ex-alcoolista e hoje acompanhante do Raid, o relações públicas Marcílio Cavalcante, esteve internado em cinco clínicas de recuperação. "Eles me sedavam e eu passava o dia totalmente dopado. Depois, voltava pro vício", conta. Marcílio foi salvo tanto pelos médicos quanto pela esposa, a enfermeira Benita Spinelli. "Ela me acompanhou desde o início do problema até o fim", lembra.

Benita emociona-se ao lembrar da época em que seu marido era alcoolista. "Um dia, ele estava tão mal que me pediu ajuda, e disse que não conseguia mais responder pelos atos dele", conta, chorando. Para ela, o maior fator para recuperação de Marcílio foi sua força de vontade - foi ele quem decidiu procurar uma clínica para se tratar e insistiu nas sucessivas internações em várias clínicas. "Estava morrendo, tinha que procurar ajuda. No auge da doença, consumia duas garrafas de conhaque por dia".

O Abad formou um grupo de trabalho que vem pressionando o Ministério da Saúde a criar espaços específicos para dependentes de álcool. São os chamados Centros de Reabilitação, espécies de albergues onde os alcoolistas poderão ser desintoxicados e ainda ter acompanhamento terapêutico e social. "Cerca de 18% a 30% das pessoas internadas em hospitais com problemas como pancreatite são, na verdade, alcoolistas. Os médicos é que detectam apenas aquele problema e cuidam especificamente dele", revela Evaldo Oliveira.


     

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