- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

ALCOOLISMO (II)
Vício assusta pelas doenças que provoca

"Um homem só atinge seu estado natural após a quarta ou quinta dose". A enfática e famosa frase de Henry Miller, um dos maiores escritores americanos, é um bom exemplo da boa relação entre a sociedade e o álcool. Beber é um ato intensamente vendido pela mídia, que usa ícones como Ronaldinho, com apenas 20 anos, para vender cerveja. Este fato, segundo o médico Evaldo Melo de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e Outras Drogas (Abad), resulta na gestação de grande parte dos alcoolistas, que começam a beber dentro de casa.

Existem cinco diferentes tipos de consumidores de álcool. O primeiro deles é o experimentador, que, como diz o nome, tem apenas curiosidade a respeito das bebidas. Depois, vem o bebedor social, aquele que bebe mas não apresenta problemas com o álcool. O abusador social surge após esta etapa. Nas poucas vezes em que ele se confronta com o álcool, ingere-o em grande quantidade e termina ficando bêbado. Já o bebedor problema apresenta distúrbio todas as vezes em que bebe, não importando a quantidade. Por último, existe o alcoolista, uma pessoa já dependente da droga.

Um recente levantamento realizado em duas grandes empresas pernambucanas, constatou que 75% das pessoas bebem socialmente. São os denominados "referidos", que, apesar de não serem alcoolistas, consomem álcool periodicamente. "Nessa fase que surgem os bebedores problema, que apresentam algum tipo de reação negativa quando ingerem álcool", explica.

Segundo especialistas, é nesta etapa, quando é mais fácil detectar que tipo de problema está ocorrendo, que as pessoas devem procurar ajuda médica. "Se forem tratados no início, 80% dos pacientes têm chances de se recuperar completamente. Caso se tratem após adquirir a doença, apenas 30% consegue se curar", admite Evaldo de Oliveira.

NA CLASSE MÉDIA - O alcoolismo está cada dia mais presente na vida das pessoas de classe média: a maioria dos internados em centros de reabilitação são empresários, advogados, políticos e médicos. Este último grupo, de acordo com Evaldo Oliveira, é um dos mais propensos a desenvolver relação negativa com o álcool. "A convivência com o estresse, a correria e a dor leva estes profissionais a desenvolverem este hábito", diz.

O vício da bebida assusta principalmente pelo número de doenças que provoca. Os aparelhos digestivo, neurológico e circulatório são seriamente comprometidos após a ingestão crônica de álcool. "A pancreatite é um dos grandes sintomas do alcoolismo. Outros problemas são as crises de amnésia, que atingem principalmente os bebedores problema", continua Oliveira.

Os danos causados pelos fermentados possuem o mesmo efeito que os provocados pelos destilados, outra informação ainda pouco esclarecida entre a população. "Criou-se um mito que apenas os destilados levam à dependência, mas o uso crônico de fermentados também é extremamente prejudicial".


     

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