FERTILIZAÇÃO
Os
riscos da gravidez múltiplapor MÁRCIA CEZIMBRA
E HELIETE VAITSMAN
Agência Globo
O sonho de N.
A., de 38 anos, era ter um filho
e uma família feliz. Oito meses
depois, uma dura realidade bateu
à sua porta. Depois de um
tratamento de fertilização
artificial, N. se viu entre a
vida e a morte, em conseqüência
de complicações no parto de
quatro meninas prematuras
(nascidas há 15 dias). As quatro
placentas provocaram uma queda
tão drástica de plaquetas que
N. foi submetida a transfusões
de sangue antes, durante e logo
após a cesariana. Saiu da sala
de parto para a unidade de
terapia intensiva (UTI) da
Clínica São José, no Rio de
Janeiro, e, mesmo já tendo tido
alta, continua tão debilitada
que mal sai de casa para visitar
as meninas, que estão na unidade
neonatal da clínica.
Sua obstetra,
Julieta Rozo, conta que N. está
muito assustada. Pediu um
remédio para secar o leite,
dizendo que não conseguirá dar
conta de amamentar quatro
meninas. O sonho de N., por muito
pouco, não se tornou um
pesadelo. "Ela caiu na
realidade de ter quatro bebês
prematuros. O pior já passou.
Ela, porém, corre sério risco
de uma depressão
pós-parto".
O caso de N.
não é tão raro quanto se
imagina para quem recorre às
novas técnicas de
fertilização. A medicina, hoje,
permite até que parte dos casais
estéreis realizem o sonho de ter
filhos. Mas, o índice de êxito
na fertilização é de apenas
20% e, por isso, os médicos
implantam de dois a quatro
óvulos no útero, prevendo que
só um se desenvolva. Os riscos
se multiplicam quando todos
resistem.
Um caso como o
dos sete bebês - nascidos em
novembro nos Estados Unidos e que
só agora tiveram alta, depois de
cinco meses hospitalizados -
está longe de ser um sucesso
para os especialistas.
"Implantar tantos embriões
num útero é transformar seres
humanos em cobaias", declara
oneonatologista Luis Eduardo
Miranda. Miranda participava de
um congresso de neonatologia no
Jackson Memorial Hospital, na
Flórida, quando os séptuplos
nasceram e conta que os 800
médicos presentes condenaram as
gestações múltiplas.
O que os
médicos condenam são os riscos
crescentes tanto para a mãe
quanto para os bebês. Muitas
mulheres entram em tratamentos de
fertilização sem ter
consciência do perigo que as
cerca e aos seus filhos. Em
gestações de trigêmeos, o
risco de prematuridade chega a
60%; para quadrigêmeos (ou
mais), é de 100%.
O pior é o
risco de seqüelas
(neurológicas, visuais e
respiratórias). Para trigêmeos,
por exemplo, o risco de retardo
mental em pelo menos um dos
recém-nascidos pode alcançar os
50%, afirma o ginecologista
Thomaz Gollop, professor de
genética médica da USP e
especialista em medicina fetal.
As crianças destas gestações
precisam ser acompanhadas por, no
mínimo, cinco anos, diz Gollop,
pois são mais propensas a
problemas de acuidade visual e
atraso neuropsicomotor.
No Brasil, o
Conselho Federal de Medicina -
que, na falta de leis
específicas, regula o assunto -
determina que não se implantem
mais de quatro embriões num
útero. Se a futura mãe decidir
retirar um dos embriões durante
a gravidez - técnica abortiva
conhecida como "redução
embrionária", feita por
aspiração - enfrentará a
legislação brasileira
contrária ao aborto. Não terá,
no entanto, dificuldades de
encontrar profissionais
favoráveis ao procedimento.
O especialista
Eduardo Isfer, criador do
Serviço de Medicina Fetal da
USP, por exemplo, afirma que, na
gravidez de quatro ou mais
bebês, o médico que não
indicar esta redução poderia
ser processado por negligência
ou imperícia e até ser cassado.
"É alto o risco de
sofrimento e morte para os
embriões. A mãe pode até
perder o útero. Fiz mais de 50
reduções durante a minha
especialização em Paris e vou
apresentar mais 30 casos num
congresso, na Austrália. Aqui no
Brasil, estou de mãos
atadas", diz Isfer.
Volney Garrafa,
professor de Bioética da
Faculdade de Direito da
Universidade de Brasília, acha
que é hora de o Congresso
enfrentar a questão. Segundo
ele, muitos médicos preferem
fazer esta "redução"
antes do implante dos embriões
no útero feminino. Ou seja: na
fertilização in vitro, os
embriões não-implantados no
útero vão para o lixo. São
poucos os médicos como Franco
Júnior, de Ribeirão Preto (que
fez a fertilização da
apresentadora de TV Fátima
Bernardes), que implantam apenas
dois embriões, em mulheres até
30 anos.