- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

FERTILIZAÇÃO
Os riscos da gravidez múltipla

por MÁRCIA CEZIMBRA E HELIETE VAITSMAN
Agência Globo

O sonho de N. A., de 38 anos, era ter um filho e uma família feliz. Oito meses depois, uma dura realidade bateu à sua porta. Depois de um tratamento de fertilização artificial, N. se viu entre a vida e a morte, em conseqüência de complicações no parto de quatro meninas prematuras (nascidas há 15 dias). As quatro placentas provocaram uma queda tão drástica de plaquetas que N. foi submetida a transfusões de sangue antes, durante e logo após a cesariana. Saiu da sala de parto para a unidade de terapia intensiva (UTI) da Clínica São José, no Rio de Janeiro, e, mesmo já tendo tido alta, continua tão debilitada que mal sai de casa para visitar as meninas, que estão na unidade neonatal da clínica.

Sua obstetra, Julieta Rozo, conta que N. está muito assustada. Pediu um remédio para secar o leite, dizendo que não conseguirá dar conta de amamentar quatro meninas. O sonho de N., por muito pouco, não se tornou um pesadelo. "Ela caiu na realidade de ter quatro bebês prematuros. O pior já passou. Ela, porém, corre sério risco de uma depressão pós-parto".

O caso de N. não é tão raro quanto se imagina para quem recorre às novas técnicas de fertilização. A medicina, hoje, permite até que parte dos casais estéreis realizem o sonho de ter filhos. Mas, o índice de êxito na fertilização é de apenas 20% e, por isso, os médicos implantam de dois a quatro óvulos no útero, prevendo que só um se desenvolva. Os riscos se multiplicam quando todos resistem.

Um caso como o dos sete bebês - nascidos em novembro nos Estados Unidos e que só agora tiveram alta, depois de cinco meses hospitalizados - está longe de ser um sucesso para os especialistas. "Implantar tantos embriões num útero é transformar seres humanos em cobaias", declara oneonatologista Luis Eduardo Miranda. Miranda participava de um congresso de neonatologia no Jackson Memorial Hospital, na Flórida, quando os séptuplos nasceram e conta que os 800 médicos presentes condenaram as gestações múltiplas.

O que os médicos condenam são os riscos crescentes tanto para a mãe quanto para os bebês. Muitas mulheres entram em tratamentos de fertilização sem ter consciência do perigo que as cerca e aos seus filhos. Em gestações de trigêmeos, o risco de prematuridade chega a 60%; para quadrigêmeos (ou mais), é de 100%.

O pior é o risco de seqüelas (neurológicas, visuais e respiratórias). Para trigêmeos, por exemplo, o risco de retardo mental em pelo menos um dos recém-nascidos pode alcançar os 50%, afirma o ginecologista Thomaz Gollop, professor de genética médica da USP e especialista em medicina fetal. As crianças destas gestações precisam ser acompanhadas por, no mínimo, cinco anos, diz Gollop, pois são mais propensas a problemas de acuidade visual e atraso neuropsicomotor.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina - que, na falta de leis específicas, regula o assunto - determina que não se implantem mais de quatro embriões num útero. Se a futura mãe decidir retirar um dos embriões durante a gravidez - técnica abortiva conhecida como "redução embrionária", feita por aspiração - enfrentará a legislação brasileira contrária ao aborto. Não terá, no entanto, dificuldades de encontrar profissionais favoráveis ao procedimento.

O especialista Eduardo Isfer, criador do Serviço de Medicina Fetal da USP, por exemplo, afirma que, na gravidez de quatro ou mais bebês, o médico que não indicar esta redução poderia ser processado por negligência ou imperícia e até ser cassado. "É alto o risco de sofrimento e morte para os embriões. A mãe pode até perder o útero. Fiz mais de 50 reduções durante a minha especialização em Paris e vou apresentar mais 30 casos num congresso, na Austrália. Aqui no Brasil, estou de mãos atadas", diz Isfer.

Volney Garrafa, professor de Bioética da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, acha que é hora de o Congresso enfrentar a questão. Segundo ele, muitos médicos preferem fazer esta "redução" antes do implante dos embriões no útero feminino. Ou seja: na fertilização in vitro, os embriões não-implantados no útero vão para o lixo. São poucos os médicos como Franco Júnior, de Ribeirão Preto (que fez a fertilização da apresentadora de TV Fátima Bernardes), que implantam apenas dois embriões, em mulheres até 30 anos.


     

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