FERTILIZAÇÃO
(II)
Redução
de embriões divide médicosApesar das advertências
dos especialistas, a
proliferação descontrolada dos
serviços de fertilização, de
um lado, e o desejo feminino de
ter um filho, do outro,
contribuem para que muitas
mulheres se disponham a enfrentar
riscos que não conseguem
avaliar. Conta a mãe de N. que o
médico, ao implantar os quatro
embriões, garantiu a ela que
havia poucas chances de todos se
desenvolverem. Tendo gasto na
fertilização toda a sua
poupança, ela confiou no
médico.
A redução
embrionária foi sugerida, mas N.
recusou, temendo perder todos os
bebês. "Tudo o que ela
queria era um filho e nada a
faria ameaçar a gestação.
Agora, está doente, nervosa.
Quem vai ajudá-la? Com o marido
desempregado, ainda não tem os
bercinhos nem roupas para todas
as meninas. Mas, minhas netas
são lindas e tudo vai dar
certo", acredita a avó.
Sem que todos
os riscos sejam esclarecidos,
casos como esse continuarão a
acontecer no Brasil. A gravidez
múltipla é tão perigosa que o
médico paulista Roger
Abdelmassih - responsável pela
gravidez que resultou nos gêmeos
de Pelé - diz que, embora seja
católico e contra o aborto, não
deixa de informar à cliente
sobre a redução embrionária.
"No Brasil, a redução
embrionária é ilegal. Mas
indico clínicas americanas onde
o método é feito com
segurança".
Os temores
quanto à segurança da redução
não refletem a realidade,
segundo o médico Eduardo Isfer,
que apresentará seus últimos 30
casos de redução no próximo
Congresso Internacional das
Sociedades de Medicina Fetal e de
Cirurgia Fetal, na Austrália.
Ele diz que dos 58 casos que
realizou em 1991 em Paris, na
Maternidade Port Royal (todos
relatados em publicações
médicas internacionais), só em
quatro a mulher perdeu todos os
fetos.
Também para
Thomas Gollop, a redução
embrionária é "um
procedimento válido, realizado
em todos os países
industrializados". O
professor Volney Garrafa,
professor de Bioética da
Universidade de Brasília,
acrescenta que o assunto está a
merecer ampla discussão no
Brasil. "Os embriões
resultantes das fertilizações
ou são congelados para futuras
gestações ou vão para o lixo.
Na prática, isso significa que
há uma redução, só que fora
do útero. Não sou a favor do
aborto indiscriminado, mas temos
que avançar nas questões de
má-formação do feto e risco
para a mulher. O primeiro bebê
de proveta nasceu há 20 anos e a
legislação brasileira sequer se
manifesta sobre esta
questão".
Ele sugere que
se adote o critério de
pré-embrião da Inglaterra. Lá,
o feto até o décimo quarto dia
é considerado um pré-embrião,
pois não tem DNA formado nem
medula. Com isso, pode ser usado
em pesquisas. A partir daí, é
considerado um embrião.
Se os
múltiplos forem inevitáveis, é
preciso haver apoio terapêutico
às mães, como o que dá a
psicóloga Adelaide Ferraz no
Ceperj, instituição carioca. A
diretora Christina Lins diz que
as futuras mães de múltiplos
devem ser convencidas a visitar
uma UTI neonatal para entenderem
o que poderão enfrentar.
"Toda mãe acha que terá um
filhinho gordinho, mas a
realidade do prematuro é bem
diferente. É bom adiar o parto
ao máximo. A mãe deve ter todo
cuidado. Ao conhecer a UTI,
Fátima Bernardes levou um susto
e parou de trabalhar na gravidez.
Ela teve sorte: os trigêmeos
nasceram bem e só precisaram
ganhar peso".
Para Isfer,
casos como o dos sétuplos
americanos são uma
bomba-relógio. "A mídia
fez um estardalhaço, mas estes
sétuplos apenas nasceram vivos.
Não significa que estejam bem.
Quero vê-los daqui a dez anos.
Quando um bebê nasce, 50% de seu
sistema nervoso não está
formado. Precisa do conforto e do
carinho da mãe para se
estruturar física e
psiquicamente. Com sete filhos ao
mesmo tempo, isto é difícil.
Eles podem até ter problemas
mentais", diz.
O diretor do
Ceperj, Luis Eduardo Miranda,
também teme pelo futuro dos
múltiplos. Por temer igualmente
as reduções de embriões no
útero - devido aos casos em que
a vida de todos é comprometida -
ele defende a atitude do médico
Franco Júnior, do Centro de
Reprodução Humana e Maternidade
Sinhá Junqueira, de Ribeirão
Preto, que transfere apenas dois
embriões para o útero da mulher
de menos de 30 anos.
A tendência
atual, para Franco Júnior, é a
de implantar quatro embriões só
em mulheres maiores de 40 anos,
cujas chances de engravidar são
de 10%. Nas que têm até 30
anos, as chances de êxito sobem
para 25% e o mais seguro é não
implantar mais de dois embriões.
Entre 30 e 40 anos, indicam-se
três embriões. Miranda diz que,
embora a mãe de quádruplos
enfrente riscos como eclâmpsia,
distensão uterina, hemorragia e
até perda do útero, o lado mais
vulnerável é o do bebê.
"Além dos riscos físicos,
o prematuro sofre emocionalmente.
A separação forçada da mãe,
durante a longa internação,
gera sentimentos contraditórios
na mãe, que pode até rejeitar
os filhos".
Segundo
pesquisas americanas e
européias, é preciso uma
prevenção psicológica para
fazer com que a família se
adapte a bebês problemáticos
como os prematuros. "O
prematuro pode ser visto pela
família como alguém que
ameaçou a estabilidade
emocional, financeira e física
da mãe. Nos EUA, muitos
prematuros acabam formando um
segmento importante de bebês
negligenciados", diz
Miranda.
Há mães que
sequer visitam os prematuros, nem
telefonam para saber como vão. A
equipe é que tem que procurar a
família, conta o médico.
Quando, ao invés de um
prematuro, nascem três ou
quatro, o trauma se agrava, o que
faz com que mães de trigêmeos
como A. C. se recusem a dar
depoimento. "Não queremos
que chamem nossos filhos de
bebês de proveta. Por isso,
preferimos não expô-los".
Miranda narra,
também, o caso de um marido que
obrigou a mulher a se submeter à
fertilização induzida porque
sofria de varicocele (dilatação
de veias do testículo, que causa
esterilidade masculina) e não
quis resolver o problema com uma
cirurgia simples. Para ele, o
caso é exemplo de que técnicas
modernas convivem com velhos
tabus, que associam a
infertilidade à falta de
virilidade.