- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

FERTILIZAÇÃO (II)
Redução de embriões divide médicos

Apesar das advertências dos especialistas, a proliferação descontrolada dos serviços de fertilização, de um lado, e o desejo feminino de ter um filho, do outro, contribuem para que muitas mulheres se disponham a enfrentar riscos que não conseguem avaliar. Conta a mãe de N. que o médico, ao implantar os quatro embriões, garantiu a ela que havia poucas chances de todos se desenvolverem. Tendo gasto na fertilização toda a sua poupança, ela confiou no médico.

A redução embrionária foi sugerida, mas N. recusou, temendo perder todos os bebês. "Tudo o que ela queria era um filho e nada a faria ameaçar a gestação. Agora, está doente, nervosa. Quem vai ajudá-la? Com o marido desempregado, ainda não tem os bercinhos nem roupas para todas as meninas. Mas, minhas netas são lindas e tudo vai dar certo", acredita a avó.

Sem que todos os riscos sejam esclarecidos, casos como esse continuarão a acontecer no Brasil. A gravidez múltipla é tão perigosa que o médico paulista Roger Abdelmassih - responsável pela gravidez que resultou nos gêmeos de Pelé - diz que, embora seja católico e contra o aborto, não deixa de informar à cliente sobre a redução embrionária. "No Brasil, a redução embrionária é ilegal. Mas indico clínicas americanas onde o método é feito com segurança".

Os temores quanto à segurança da redução não refletem a realidade, segundo o médico Eduardo Isfer, que apresentará seus últimos 30 casos de redução no próximo Congresso Internacional das Sociedades de Medicina Fetal e de Cirurgia Fetal, na Austrália. Ele diz que dos 58 casos que realizou em 1991 em Paris, na Maternidade Port Royal (todos relatados em publicações médicas internacionais), só em quatro a mulher perdeu todos os fetos.

Também para Thomas Gollop, a redução embrionária é "um procedimento válido, realizado em todos os países industrializados". O professor Volney Garrafa, professor de Bioética da Universidade de Brasília, acrescenta que o assunto está a merecer ampla discussão no Brasil. "Os embriões resultantes das fertilizações ou são congelados para futuras gestações ou vão para o lixo. Na prática, isso significa que há uma redução, só que fora do útero. Não sou a favor do aborto indiscriminado, mas temos que avançar nas questões de má-formação do feto e risco para a mulher. O primeiro bebê de proveta nasceu há 20 anos e a legislação brasileira sequer se manifesta sobre esta questão".

Ele sugere que se adote o critério de pré-embrião da Inglaterra. Lá, o feto até o décimo quarto dia é considerado um pré-embrião, pois não tem DNA formado nem medula. Com isso, pode ser usado em pesquisas. A partir daí, é considerado um embrião.

Se os múltiplos forem inevitáveis, é preciso haver apoio terapêutico às mães, como o que dá a psicóloga Adelaide Ferraz no Ceperj, instituição carioca. A diretora Christina Lins diz que as futuras mães de múltiplos devem ser convencidas a visitar uma UTI neonatal para entenderem o que poderão enfrentar. "Toda mãe acha que terá um filhinho gordinho, mas a realidade do prematuro é bem diferente. É bom adiar o parto ao máximo. A mãe deve ter todo cuidado. Ao conhecer a UTI, Fátima Bernardes levou um susto e parou de trabalhar na gravidez. Ela teve sorte: os trigêmeos nasceram bem e só precisaram ganhar peso".

Para Isfer, casos como o dos sétuplos americanos são uma bomba-relógio. "A mídia fez um estardalhaço, mas estes sétuplos apenas nasceram vivos. Não significa que estejam bem. Quero vê-los daqui a dez anos. Quando um bebê nasce, 50% de seu sistema nervoso não está formado. Precisa do conforto e do carinho da mãe para se estruturar física e psiquicamente. Com sete filhos ao mesmo tempo, isto é difícil. Eles podem até ter problemas mentais", diz.

O diretor do Ceperj, Luis Eduardo Miranda, também teme pelo futuro dos múltiplos. Por temer igualmente as reduções de embriões no útero - devido aos casos em que a vida de todos é comprometida - ele defende a atitude do médico Franco Júnior, do Centro de Reprodução Humana e Maternidade Sinhá Junqueira, de Ribeirão Preto, que transfere apenas dois embriões para o útero da mulher de menos de 30 anos.

A tendência atual, para Franco Júnior, é a de implantar quatro embriões só em mulheres maiores de 40 anos, cujas chances de engravidar são de 10%. Nas que têm até 30 anos, as chances de êxito sobem para 25% e o mais seguro é não implantar mais de dois embriões. Entre 30 e 40 anos, indicam-se três embriões. Miranda diz que, embora a mãe de quádruplos enfrente riscos como eclâmpsia, distensão uterina, hemorragia e até perda do útero, o lado mais vulnerável é o do bebê. "Além dos riscos físicos, o prematuro sofre emocionalmente. A separação forçada da mãe, durante a longa internação, gera sentimentos contraditórios na mãe, que pode até rejeitar os filhos".

Segundo pesquisas americanas e européias, é preciso uma prevenção psicológica para fazer com que a família se adapte a bebês problemáticos como os prematuros. "O prematuro pode ser visto pela família como alguém que ameaçou a estabilidade emocional, financeira e física da mãe. Nos EUA, muitos prematuros acabam formando um segmento importante de bebês negligenciados", diz Miranda.

Há mães que sequer visitam os prematuros, nem telefonam para saber como vão. A equipe é que tem que procurar a família, conta o médico. Quando, ao invés de um prematuro, nascem três ou quatro, o trauma se agrava, o que faz com que mães de trigêmeos como A. C. se recusem a dar depoimento. "Não queremos que chamem nossos filhos de bebês de proveta. Por isso, preferimos não expô-los".

Miranda narra, também, o caso de um marido que obrigou a mulher a se submeter à fertilização induzida porque sofria de varicocele (dilatação de veias do testículo, que causa esterilidade masculina) e não quis resolver o problema com uma cirurgia simples. Para ele, o caso é exemplo de que técnicas modernas convivem com velhos tabus, que associam a infertilidade à falta de virilidade.


     

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