- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 23 de março de 1998

NORDESTE
Paraíba: fogos explodem aliança

por FRUTUOSO CHAVES
Correspondente

JOÃO PESSOA - Uma explosão de fogos maior para o governador José Maranhão (PMDB) do que para seu colega de partido, o senador Ronaldo Cunha Lima, na festa de aniversário do segundo, voltou a agravar, no sábado à noite, em Campina Grande, o precário relacionamento entre ambos. Dono do último discurso da noite, no Clube Campestre de Campina Grande, Ronaldo recomendou que Maranhão controlasse a própria assessoria, formada, segundo disse, por "bajuladores", sob pena de redefinir em junho, data da convenção peemedebista, sua posição quanto à sucessão estadual.

Indignado, o governador abandonou o local, antes que fosse servido um jantar preparado para duas mil pessoas, dormiu na casa de um sobrinho e deixou Campina Grande, ontem pela manhã, com destino à cidade de Picuí, na Zona do Cariri paraibano.

Em setembro passado, líderes estaduais do PMDB empenhados em acabar com os desentendimentos entre os dois convocaram uma pré-convenção que levou três mil pessoas ao lançamento de uma chapa composta por Maranhão (que pretende reeleger-se), pelo deputado Ivandro Cunha Lima (irmão de Ronaldo, para vice-governador) e pelo senador Ney Suassuna. A farta explosão dos fogos de artifícios, entretanto, tinha promoção conjunta e favorecia os discursos pela unidade.

Os mesmos líderes voltaram a se reunir no último dia 4, na casa do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, para decidir sobre o apoio, ou não, à tese da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, tema que também separou Maranhão (favorável) e Ronaldo (contrário à idéia). Ambos conseguiram demonstrar prestígio. O projeto da reeleição presidencial foi rejeitado por 30 votos a 13, como pretendia o senador, mas o governador assegurou a liberação do seu grupo para apoiar FHC.

A nova crise - testemunhada pelo senador Geraldo Melo (RN), presidente em exercício do Senado - ocorre num momento em que o maior "bombeiro" do PMDB, o senador Humberto Lucena, está fora de combate, hospitalizado em São Paulo vítima de uma crise renal aguda que preocupa os médicos, parentes e amigos. Na pré-convenção de setembro, Lucena teve o papel de conciliador enaltecido por quase todos os oradores.

"Jamais vi um homem com tamanha paciência", testemunha Ney Suassuna, que hoje enfrenta, com desvantagem nas pesquisas eleitorais, a indicação para o Senado do ex-governador Tarcísio Burity (PPB), a quem Ronaldo sucedeu e em quem deu dois tiros à queima-roupa, há cerca de quatro anos, no interior do Restaurante Gulliver, em João Pessoa.

Mais afeito à poesia do que à pistola (integra a Academia Paraibana de Letras e tem livros publicados), Ronaldo não chegou a ferir de morte o desafeto político que hoje também se recupera num quarto de hospital, a exemplo de Lucena, de um infarto do miocárdio. Mas Burity já disse que está pronto para enfrentar Suassuna, o candidato do PMDB, na próxima campanha ao Senado.

Em nota distribuída no final da tarde de ontem, o governador José Maranhão diz que foi agredido pelo senador Ronaldo Cunha Lima e que mantém, em relação ao incidente, dois tipos de sentimento: "Um como cidadão, como qualquer pessoa do povo, e outro como governador do Estado". Ronaldo, em discurso, chamou Maranhão de "fraco", pediu-lhe para se livrar de determinados assessores e para governar a Paraíba, porque do contrário trataria de fazê-lo.

"A Paraíba tem um governador. Sou prudente e tolerante, mais rejeito com altivez rompantes de retórica, porque meu compromisso administrativo é com o Estado", diz Maranhão, para quem Ronaldo "deve explicar à Paraíba, pois sua atitude não revela e não traduz a tradição histórica da família campinense e dos nosso povo".

E continua a nota: "Como cidadão, lamento porque fui à festa de aniversário para levar o abraço de companheiro de partido. Não entendo, não aceito, até porque ninguém aprova uma agressão a quem estava de coração aberto e foi duramente atacado por palavras. Como governador, e com a responsabilidade de dirigir os destinos administrativos de todos os paraibanos, devo afirmar que não aceito imposições nem faço transigências para agradar a quem quer que seja".

Reafirma, por fim, o propósito de continuar a obra de Governo "com serenidade, sem medo e sem arrogância" e o desejo de buscar, para a reeleição, "o julgamento popular, autorizado pela deliberação unânime da pré-convenção realizada pelo PMDB".


     

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