ABASTECIMENTO
Serrinha:
sonho que não vira realidadepor JODEVAL DUARTE
Um açude
público onde caberiam três
barragens de Tapacurá é o
centro das atenções no Sertão
do Pajeú hoje. Serrinha, o
açude, foi construído para
armazenar 311 milhões de metros
cúbicos d'água. Quarenta anos
depois de iniciadas as obras, e
dois anos após a inauguração,
ainda há ações de
indenização não concluídas,
não teve início a irrigação
programada de 4 mil hectares nem
produção anual de 552 toneladas
de peixes.
Serrinha é uma
grande esperança para o Pajeú
e, apesar de tudo ainda estar por
ser feito para o aproveitamento
do gigantesco reservatório,
alguns créditos já lhe são
atribuídos. Um deles é a
abertura das comportas para
assegurar a perenização do Rio
Pajeú em 80 quilômetros, de
Serra Talhada a Floresta,
desaguando no Rio São Francisco.
Nesse percurso há hoje 300
hectares irrigados, produzindo
tomate, cebola e melão.
Mais próximo
da barragem, na área onde
começam a ser feitos
levantamentos topográficos para
os assentamentos prometidos, pelo
menos um agricultor já tira bom
proveito das águas do Serrinha.
José Bezerra, do Sítio Poço da
Cerca, há dois meses iniciou por
conta própria um trabalho de
irrigação e, pela primeira vez
nos seus 10 anos no local, tem
esperança de água o tempo todo.
O padre Afonso
de Carvalho, da Paróquia do Bom
Jesus Ressuscitado, em Serra
Talhada, acha que gastaram
dinheiro de mais, "um custo
acima do que seria natural",
e mesmo assim Serrinha continua
sem atender ao objetivo. Lembra
as promessas, cobrando:
"Falta trabalhar a área de
irrigação, a piscicultura e a
eletrificação".
Para o padre, a
barragem desarticulou a vida de
muitos trabalhadores que viviam e
produziam na terra inundada,
receberam pequena indenização,
foram para a cidade de Serra
Talhada e ficaram sem fazer nada.
"Muitos passaram a ser
ladrões". Apesar dessa
constatação pessimista, o padre
acha que, quando estiverem
cumpridas as promessas, Serrinha
vai ser muito útil para o
Pajeú.
"Ozias
Alves de Souza, do conselho
fiscal do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Serra
Talhada, lembra a
desarticulação de pequenos
proprietários de terra - como
falou o padre Afonso - informando
que, 40 anos depois de iniciadas
as obras do açude público, o
sindicato está organizando uma
reunião, na próxima
quarta-feira, quando agricultores
da área desapropriada
entregarão o caso a um advogado.
João Carlos,
do Dnocs em Serra Talhada, mostra
outro cenário. Ele reconhece que
Serrinha espera por algumas
obras. Acredita que isso seja um
processo natural, como é o caso
de Jucazinho, inaugurada e que
demorará para ter as adutoras e
servir no abastecimento d'água
das cidades.
"Apesar de
não ter ainda o perímetro de
irrigação, Serrinha está
beneficiando os agricultores nos
80 quilômetros perenizados do
Rio Pajeú até o São Francisco,
em Floresta. Se a previsão de
pesca é para 550 a 600 toneladas
de peixes por ano, mais ou menos
metade já está sendo tirada.
O problema
central deixa de ser a conclusão
de obras complementares. A
questão agora é a seca, que
reduz os reservatórios e impede
a ampliação da irrigação. A
esperança de 200 milímetros de
chuva em março está morrendo e
os sertanejos ficam na
dependência do que as barragens
conseguem sustentar. No caso de
Serrinha, o correspondente a uma
Tapacurá.