-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

ABASTECIMENTO
Serrinha: sonho que não vira realidade

por JODEVAL DUARTE

Um açude público onde caberiam três barragens de Tapacurá é o centro das atenções no Sertão do Pajeú hoje. Serrinha, o açude, foi construído para armazenar 311 milhões de metros cúbicos d'água. Quarenta anos depois de iniciadas as obras, e dois anos após a inauguração, ainda há ações de indenização não concluídas, não teve início a irrigação programada de 4 mil hectares nem produção anual de 552 toneladas de peixes.

Serrinha é uma grande esperança para o Pajeú e, apesar de tudo ainda estar por ser feito para o aproveitamento do gigantesco reservatório, alguns créditos já lhe são atribuídos. Um deles é a abertura das comportas para assegurar a perenização do Rio Pajeú em 80 quilômetros, de Serra Talhada a Floresta, desaguando no Rio São Francisco. Nesse percurso há hoje 300 hectares irrigados, produzindo tomate, cebola e melão.

Mais próximo da barragem, na área onde começam a ser feitos levantamentos topográficos para os assentamentos prometidos, pelo menos um agricultor já tira bom proveito das águas do Serrinha. José Bezerra, do Sítio Poço da Cerca, há dois meses iniciou por conta própria um trabalho de irrigação e, pela primeira vez nos seus 10 anos no local, tem esperança de água o tempo todo.

O padre Afonso de Carvalho, da Paróquia do Bom Jesus Ressuscitado, em Serra Talhada, acha que gastaram dinheiro de mais, "um custo acima do que seria natural", e mesmo assim Serrinha continua sem atender ao objetivo. Lembra as promessas, cobrando: "Falta trabalhar a área de irrigação, a piscicultura e a eletrificação".

Para o padre, a barragem desarticulou a vida de muitos trabalhadores que viviam e produziam na terra inundada, receberam pequena indenização, foram para a cidade de Serra Talhada e ficaram sem fazer nada. "Muitos passaram a ser ladrões". Apesar dessa constatação pessimista, o padre acha que, quando estiverem cumpridas as promessas, Serrinha vai ser muito útil para o Pajeú.

"Ozias Alves de Souza, do conselho fiscal do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Serra Talhada, lembra a desarticulação de pequenos proprietários de terra - como falou o padre Afonso - informando que, 40 anos depois de iniciadas as obras do açude público, o sindicato está organizando uma reunião, na próxima quarta-feira, quando agricultores da área desapropriada entregarão o caso a um advogado.

João Carlos, do Dnocs em Serra Talhada, mostra outro cenário. Ele reconhece que Serrinha espera por algumas obras. Acredita que isso seja um processo natural, como é o caso de Jucazinho, inaugurada e que demorará para ter as adutoras e servir no abastecimento d'água das cidades.

"Apesar de não ter ainda o perímetro de irrigação, Serrinha está beneficiando os agricultores nos 80 quilômetros perenizados do Rio Pajeú até o São Francisco, em Floresta. Se a previsão de pesca é para 550 a 600 toneladas de peixes por ano, mais ou menos metade já está sendo tirada.

O problema central deixa de ser a conclusão de obras complementares. A questão agora é a seca, que reduz os reservatórios e impede a ampliação da irrigação. A esperança de 200 milímetros de chuva em março está morrendo e os sertanejos ficam na dependência do que as barragens conseguem sustentar. No caso de Serrinha, o correspondente a uma Tapacurá.


 

 

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