TRADIÇÃO
Cidade
das flores reúne o maior número
de vaqueiros do interiorpor NÚBIA KÊNIA E
LEILA NÚBIA CUNHA
GARANHUNS -
Com cerca de cem profissionais e
amadores, esta cidade já é
reconhecida como pólo estadual
de vaquejadas por reunir o maior
número de vaqueiros do interior.
Às vésperas da 2ª etapa do 2º
Circuito Pernambucano de
Vaquejada, de 27 a 29 de março,
no Parque Meridional - que
costuma atrair entre 400 e 500
competidores -, eles treinam,
diariamente, nos parques
particulares da zona rural. Por
conta própria ou patrocinados
por fazendeiros do Agreste, os
vaqueiros da cidade se distinguem
em diferentes classes sociais e
idades, onde o mais velho tem 60
e o mais jovem, nove anos.
Conhecido por
"Cazuza Beju", José
Simplício Neto, 60, é um dos
mais antigos competidores da
região: faz quase 48 anos que
ele participa de vaquejadas em
todo o país. Sem nunca ter ido
à escola (só sabe escrever o
nome), ele traz, no sangue, a
arte de "derrubar o
boi", paixão herdada do
bisavô. "Aos dez anos
passei a ser treinado por meu
pai, Manoel Simplício Sobrinho,
o "Mané Bejú", que
também puxava bois desde
criança. Daí não parei mais e
sempre que posso participo, todo
fim de semana, de vaquejada daqui
ou de outros estados".
"Cazuza"
recorda que, em 1957, ganhou sua
primeira medalha. Na época, o
esporte era praticado só por
diversão, nas fazendas, sem ser
pago com as senhas cobradas aos
competidores, nem ter grandes
prêmios. Ele conta que, em 1965,
surgiram os prêmios com carros,
motos e dinheiro e, hoje, depois
de ter atraído muitos adeptos e
admiradores, o esporte já lhe
rendeu quatro veículos zero
quilômetro e inúmeros trófeus.
"Minha vida é nas pistas de
vaquejada com cavalos e bois.
Até de minha esposa me separei,
há cinco anos, por causa de um
namoro de final de semana, uma
atividade típica da festa",
brinca.
DUPLA MIRIM -
Outro personagem da festa de gado
que começou ainda mais cedo a
derrubar o boi, aos quatro anos
de idade, é José Hilton de Melo
Neto, de nove anos, o
"Netinho". Acostumado a
disputar, na categoria mirim, a
maior parte das competições em
Pernambuco, Paraíba, Alagoas e
Ceará, ele treina, quase todos
os dias, no Parque João Torres,
pertencente a sua família.
Sempre acompanhado do parceiro e
primo Jaime Batista da Silveira,
10, ("Jubinho"), que é
o batedor de esteira (auxilia o
parceiro, o "puxador",
a pegar o boi pelo rabo).
Juntos, já
ganharam alguns troféus
classificatórios, um deles
conquistado no Parque José
Galvão, na cidade de Monteiro,
na Paraíba. Nos fins de semana,
viajam com o pai de Jaime,
também vaqueiro, José Batista
Torres, 33. "Não pago senha
por ser mirim, categoria que não
dá direito a prêmios. Quero ser
um grande vaqueiro e ganhar
muitos carros, mas também
pretendo ser um médico
veterinário, pois sei que não
dá para viver só de puxar
boi", reconhece.
Um dos mais
conceituados vaqueiros da região
é o veterinário Alexandre
Monteiro, 29, que, só em casa,
guarda mais de cem troféus. Ele
até perdeu as contas de quantos
ganhou no total, desde que
começou a praticar o esporte,
há 24 anos. Outra parte deles
está guardada na Fazenda
Arandú, onde mantém um parque
no qual realiza os chamados
bolões, vaquejadas de pequeno
porte, cuja senha custa em torno
de R$ 50. Para a segunda etapa do
2º Circuito, a senha é de R$
270,00, valor que inviabiliza a
participação de muitos
vaqueiros sem patrocinador. Por
conta disso, os bolões acabam
sendo comuns em Garanhuns e
cidades próximas. "É uma
forma de incentivo aos mais
humildes".