-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 22 de março de 1998

TRADIÇÃO
Cidade das flores reúne o maior número de vaqueiros do interior

por NÚBIA KÊNIA E LEILA NÚBIA CUNHA

GARANHUNS - Com cerca de cem profissionais e amadores, esta cidade já é reconhecida como pólo estadual de vaquejadas por reunir o maior número de vaqueiros do interior. Às vésperas da 2ª etapa do 2º Circuito Pernambucano de Vaquejada, de 27 a 29 de março, no Parque Meridional - que costuma atrair entre 400 e 500 competidores -, eles treinam, diariamente, nos parques particulares da zona rural. Por conta própria ou patrocinados por fazendeiros do Agreste, os vaqueiros da cidade se distinguem em diferentes classes sociais e idades, onde o mais velho tem 60 e o mais jovem, nove anos.

Conhecido por "Cazuza Beju", José Simplício Neto, 60, é um dos mais antigos competidores da região: faz quase 48 anos que ele participa de vaquejadas em todo o país. Sem nunca ter ido à escola (só sabe escrever o nome), ele traz, no sangue, a arte de "derrubar o boi", paixão herdada do bisavô. "Aos dez anos passei a ser treinado por meu pai, Manoel Simplício Sobrinho, o "Mané Bejú", que também puxava bois desde criança. Daí não parei mais e sempre que posso participo, todo fim de semana, de vaquejada daqui ou de outros estados".

"Cazuza" recorda que, em 1957, ganhou sua primeira medalha. Na época, o esporte era praticado só por diversão, nas fazendas, sem ser pago com as senhas cobradas aos competidores, nem ter grandes prêmios. Ele conta que, em 1965, surgiram os prêmios com carros, motos e dinheiro e, hoje, depois de ter atraído muitos adeptos e admiradores, o esporte já lhe rendeu quatro veículos zero quilômetro e inúmeros trófeus. "Minha vida é nas pistas de vaquejada com cavalos e bois. Até de minha esposa me separei, há cinco anos, por causa de um namoro de final de semana, uma atividade típica da festa", brinca.

DUPLA MIRIM - Outro personagem da festa de gado que começou ainda mais cedo a derrubar o boi, aos quatro anos de idade, é José Hilton de Melo Neto, de nove anos, o "Netinho". Acostumado a disputar, na categoria mirim, a maior parte das competições em Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Ceará, ele treina, quase todos os dias, no Parque João Torres, pertencente a sua família. Sempre acompanhado do parceiro e primo Jaime Batista da Silveira, 10, ("Jubinho"), que é o batedor de esteira (auxilia o parceiro, o "puxador", a pegar o boi pelo rabo).

Juntos, já ganharam alguns troféus classificatórios, um deles conquistado no Parque José Galvão, na cidade de Monteiro, na Paraíba. Nos fins de semana, viajam com o pai de Jaime, também vaqueiro, José Batista Torres, 33. "Não pago senha por ser mirim, categoria que não dá direito a prêmios. Quero ser um grande vaqueiro e ganhar muitos carros, mas também pretendo ser um médico veterinário, pois sei que não dá para viver só de puxar boi", reconhece.

Um dos mais conceituados vaqueiros da região é o veterinário Alexandre Monteiro, 29, que, só em casa, guarda mais de cem troféus. Ele até perdeu as contas de quantos ganhou no total, desde que começou a praticar o esporte, há 24 anos. Outra parte deles está guardada na Fazenda Arandú, onde mantém um parque no qual realiza os chamados bolões, vaquejadas de pequeno porte, cuja senha custa em torno de R$ 50. Para a segunda etapa do 2º Circuito, a senha é de R$ 270,00, valor que inviabiliza a participação de muitos vaqueiros sem patrocinador. Por conta disso, os bolões acabam sendo comuns em Garanhuns e cidades próximas. "É uma forma de incentivo aos mais humildes".


 

 

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