- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 24 de dezembro de 1998


ARTIGO

Bom-dia, Recife

por RONILDO MAIA LEITE*

Não gosto de beber nas quatro festas do ano. No Natal, nem se fala. À mesa levo a leveza das frutas. Hoje à noite, tomo sucos, de pitanga ou tamarindo. Ou laranja-cravo, que as pessoas de outros cantos chamam de tangerina, de sumo cheiroso feito o sovaco de moças asseadas.

É, a um só tempo, refresco e remédio o suco meio amargo do tamarindo. Estão aí e não me deixam mentir as antigas e doces mulheres grávidas: era, o tamarindo, o fruto facilitador das antigas parteiras, daí já ter sido considerada uma árvore sagrada.

A seca castiga o nosso chão, não sei de onde vêm, mas nos desordenados tabuleiros e barracas, do centro ou das feiras do Recife, as frutas regionais parecem fartas. Há de um tudo. Umas mais, outras menos, de todas há.

Final do ano, quero romãs, excelente no ponche e também pra remédio, pra curar erisipela. Haverei de querer também os jambos, os mamões, as mangabas ou carambolas e pitangas.

A pitanga dá um licor muito popular e conhecido de todo mundo ainda que o nosso Gilberto Freyre tenha dito guardar em absoluto segredo a sagrada fórmula de se obter o mel e o álcool.

No Carvanal, como, tomo e bebo cajá. É, o cajá, irmão gêmeo da seringüela, que se orgulha em competir com o caju na mesa dos tomadores de cachaça. A melancia é meio traiçoeira, daí alguns comunistas infiltrados no movimento integralista serem chamados de agentes-melancia - verdes por fora, vermelhos por dentro.

Gosto também das frutas de comer e chupar. O fruta-pão, por exemplo, que se come cozinhado, com manteiga e até com mel de engenho e farinha.

Também não bebo nas festas de São João. Como milho. Fruta não seja, pois é uma erva, tenho-a como uma erva-eva, de extremíssima sensualidade. Dizem tratar-se de uma planta andrógina, pois que produz flores masculinas e femininas. Adultas, as espigas fêmeas têm estigmas tão longos que lembram fios de cabelo. Quando ainda bonecas, os seus pêlos são brilhantes. Penugens louras como as de garotas de doze, treze anos.

Por isso, muito cuidado no trato com o milho. Ele deve ser desfolhado como quem vai despir a mais de todas as mulheres. Folha a folha, na ponta dos dedos, como se estivesse cometendo carícias. Assa-se a espiga na brasa como se aquece o corpo noutro corpo.

Aliás, aqui, na esquina da Nelson Ferreira, Piedade, tem uma negra que, além do assado, vende milho cozido, que tanto se saboreia como se toma ou se bebe ou se chupa a sua água morna e salgada como o inconfundível suor das jovens muito limpas.

Outras serventias há: na forma, vira canjica, doce e suave como lábios. Empalhado, é pamonha, na forma, é bolo, cozido no leite é munguzá. No vapor do banho-maria, é cuscuz, que deve ter leite, mas não tanto. Cheinho e redondo deve ser como os seios da namorada mais íntima.

Outras flores fêmeas dá ainda o milho desses tempos e não apenas os de São João, com as quais se produz o sorvete e o sonho. O que se dizer, por exemplo, da mulher-polenta, feita com leite de côco, toda coberta com molho de tomate e cebola, além de suavíssimo leite ralado? E da mulher-suflê, escandalosamente maravilha, nuinha no prato, num leite de ovos e maizena?

O milho que vejo acolá, na esquina da Nelson Ferreira, Piedade, é pra se comer assim - a gente vai debulhando, debulhando, feito a mulher se debulha desde a blusa à calcinha e à saia.

Pra não dizerem que, no São João, não falo em frutas flores. Conhecereis, por acaso, o fruta-pão meu licor de Maria Izabel?

Pois tá falado com ele, camarada...

*Ronildo Maia Leite é jornalista

 
 

 

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