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ARTIGO
Bom-dia,
Recife
por RONILDO
MAIA LEITE*
Não gosto de
beber nas quatro festas do ano.
No Natal, nem se fala. À mesa
levo a leveza das frutas. Hoje à
noite, tomo sucos, de pitanga ou
tamarindo. Ou laranja-cravo, que
as pessoas de outros cantos
chamam de tangerina, de sumo
cheiroso feito o sovaco de moças
asseadas.
É, a um só
tempo, refresco e remédio o suco
meio amargo do tamarindo. Estão
aí e não me deixam mentir as
antigas e doces mulheres
grávidas: era, o tamarindo, o
fruto facilitador das antigas
parteiras, daí já ter sido
considerada uma árvore sagrada.
A seca castiga
o nosso chão, não sei de onde
vêm, mas nos desordenados
tabuleiros e barracas, do centro
ou das feiras do Recife, as
frutas regionais parecem fartas.
Há de um tudo. Umas mais, outras
menos, de todas há.
Final do ano,
quero romãs, excelente no ponche
e também pra remédio, pra curar
erisipela. Haverei de querer
também os jambos, os mamões, as
mangabas ou carambolas e
pitangas.
A pitanga dá
um licor muito popular e
conhecido de todo mundo ainda que
o nosso Gilberto Freyre tenha
dito guardar em absoluto segredo
a sagrada fórmula de se obter o
mel e o álcool.
No Carvanal,
como, tomo e bebo cajá. É, o
cajá, irmão gêmeo da
seringüela, que se orgulha em
competir com o caju na mesa dos
tomadores de cachaça. A melancia
é meio traiçoeira, daí alguns
comunistas infiltrados no
movimento integralista serem
chamados de agentes-melancia -
verdes por fora, vermelhos por
dentro.
Gosto também
das frutas de comer e chupar. O
fruta-pão, por exemplo, que se
come cozinhado, com manteiga e
até com mel de engenho e
farinha.
Também não
bebo nas festas de São João.
Como milho. Fruta não seja, pois
é uma erva, tenho-a como uma
erva-eva, de extremíssima
sensualidade. Dizem tratar-se de
uma planta andrógina, pois que
produz flores masculinas e
femininas. Adultas, as espigas
fêmeas têm estigmas tão longos
que lembram fios de cabelo.
Quando ainda bonecas, os seus
pêlos são brilhantes. Penugens
louras como as de garotas de
doze, treze anos.
Por isso, muito
cuidado no trato com o milho. Ele
deve ser desfolhado como quem vai
despir a mais de todas as
mulheres. Folha a folha, na ponta
dos dedos, como se estivesse
cometendo carícias. Assa-se a
espiga na brasa como se aquece o
corpo noutro corpo.
Aliás, aqui,
na esquina da Nelson Ferreira,
Piedade, tem uma negra que, além
do assado, vende milho cozido,
que tanto se saboreia como se
toma ou se bebe ou se chupa a sua
água morna e salgada como o
inconfundível suor das jovens
muito limpas.
Outras
serventias há: na forma, vira
canjica, doce e suave como
lábios. Empalhado, é pamonha,
na forma, é bolo, cozido no
leite é munguzá. No vapor do
banho-maria, é cuscuz, que deve
ter leite, mas não tanto.
Cheinho e redondo deve ser como
os seios da namorada mais
íntima.
Outras flores
fêmeas dá ainda o milho desses
tempos e não apenas os de São
João, com as quais se produz o
sorvete e o sonho. O que se
dizer, por exemplo, da
mulher-polenta, feita com leite
de côco, toda coberta com molho
de tomate e cebola, além de
suavíssimo leite ralado? E da
mulher-suflê, escandalosamente
maravilha, nuinha no prato, num
leite de ovos e maizena?
O milho que
vejo acolá, na esquina da Nelson
Ferreira, Piedade, é pra se
comer assim - a gente vai
debulhando, debulhando, feito a
mulher se debulha desde a blusa
à calcinha e à saia.
Pra não
dizerem que, no São João, não
falo em frutas flores.
Conhecereis, por acaso, o
fruta-pão meu licor de Maria
Izabel?
Pois tá falado
com ele, camarada...
*Ronildo
Maia Leite é jornalista
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