ENTREVISTA / Luiz Fernando Dias
dos Santos
"Não
guardo raiva de Maria do
Carmo"Na primeira
entrevista concedida após o
julgamento que o condenou a 14
anos de prisão, o procurador
Luiz Fernando Dias dos Santos
afirmou que vai requerer junto ao
Supremo Tribunal Federal a
desclassificação do crime de
tentativa de homicídio.
"Embora reafirme minha
inocência, existe uma tese que
diz que, caso admitida a
hipótese de autoria, eu poderia
ser beneficiado com a
desclassificação porque socorri
a vítima. Se isso fosse aceito,
o júri seria anulado". Ele
garantiu que não guarda raiva da
ex-esposa, Maria do Carmo, nem
dos dois filhos que teve com ela.
"Eu queria dizer que desejo
um felicíssimo Natal para eles e
o mais próspero Ano Novo",
afirmou.
Jornal do
Commercio - O senhor ficou
surpreso com o resultado do
julgamento?
Luiz
Fernando Dias dos Santos - Eu
tinha total confiança de que o
júri ia dar o veredito ao meu
favor, reconhecendo a minha
inocência. Achava, inclusive,
que seria de 7 a 0. Mas, mesmo
que eu não tivesse essa certeza,
eu não iria ficar a vida toda
prolongando esse processo e
adiando a realização do júri.
Eu só queria esgotar as
possibilidades de recursos
previstos pela Justiça.
JC - O que o
senhor pretende fazer agora?
Santos -
Meus advogados já entraram com
uma petição solicitando o
relaxamento da prisão ao juiz de
Jaboatão dos Guararapes, José
Roberto Moreira. Se o juiz não
se retratar, tem a câmara de
férias, que poderá julgar um
pedido de habeas-corpus. Acredito
que a partir do dia 2 de janeiro,
eu já tenha um posicionamento
favorável. O chato é ficar as
festividades de final de ano
longe da minha família. Além
disso, vou pedir ao meu advogado
que encaminhe de imediato um
recurso extraordinário para o
Supremo Tribunal Federal,
solicitando a desclassificação
do crime. Ou seja, caso eu
admitisse a hipótese de ter
atirado contra Maria do Carmo, eu
seria beneficiado porque teria me
arrependido e socorrido a
vítima. Essa é uma tese
alternativa, defendida por muitos
juristas e advogados de renome.
Se nosso pedido for aceito, este
júri será anulado. E um juiz
togado iria me julgar e não mais
o tribunal do júri.
JC - E se
fosse realizado um novo júri, o
senhor acredita que teria
melhores chances?
Santos -
Eu acho que sim. Não estou
culpando ninguém, mas os jurados
são leigos e não percebem
certas coisas, como a afirmação
da assistência da acusação que
disse que o Tribunal de Justiça
já havia me condenado. Era só
uma frase de efeito. Claro que se
ela fosse verdadeira eu não
estaria diante de um júri. Esses
equívocos poderiam ser melhor
esclarecidos.
JC - Qual o
seu sentimento em relação à
sua ex-esposa, a advogada Maria
do Carmo?
Santos -
É obvio que eu fiquei chateado,
mas sei que a culpa não é dela,
fizeram a cabeça de Maria do
Carmo, o que, infelizmente, eu
não posso provar. Além disso,
existem no processo laudos que
comprovam que ela teve amnésia
lacunar. Colocaram ela numa
redoma de vidro e fizeram o que
quiseram com ela. A própria dona
Minervina, mãe de Maria do
Carmo, teve uma influência muito
forte. Ela sofreu muito por ter
tido um filho cardíaco e viveu a
vida toda quase em função desse
filho doente, isso a deslocou do
mundo real. Mas eu não tenho
raiva de ninguém, não. Não
desejo mal nem a dona Minervina.
JC - Como o
senhor se sente em relação aos
seus filhos? Pretende se
reaproximar deles?
Santos -
É uma coisa que dói muito. Eu
jamais queria que isso
acontecesse, nem com meus filhos.
Eu vou tentar a vida toda
reverter essa situação. O
próprio padre Edvaldo afirmou,
em seu depoimento, que eu o havia
procurado para interceder junto
aos meus filhos. Atendendo a meu
pedido, muitas pessoas tentaram
em vão demover a família da
decisão de eu não poder ver as
crianças. Na adolescência
deles, eu passei a mandar três
ou quatro cartas que,
provavelmente, foram
interceptadas. Eles nunca devem
ter recebido essas
correspondências. Eu queria
dizer que desejo um felicíssimo
Natal para eles, o mais próspero
Ano Novo. Não só para eles, mas
para todos.
JC - Como
tem passado esses primeiros dias
na prisão?
Santos -
Eu estou lendo o livro Quatro
Contos, que reúne contos de
Carlos Drummond de Andrade,
Cecília Meirelles, Manoel
Bandeira e Raquel de Queiroz.
JC - A
imprensa influenciou na decisão
dos jurados?
Santos -
Sempre achei que o fórum correto
para discutir isso é a Justiça.
Tive uns problemas com a imprensa
e fiquei retraído. Por isso
nunca procurei os jornalistas,
que sempre ouviram Maria do Carmo
e eu procurava evitar responder.
O espaço foi muito maior para
ela e isso fez a cabeça da
sociedade. Foi um erro. Se
pudesse voltar no tempo, teria
adotado uma postura diferente,
procurando a imprensa e
publicando matéria paga, como
eles fizeram.