- - - -- - - - - - - -- - - - -- - - ---Jornal do Commercio - Recife, 24 de dezembro de 1998

ENTREVISTA / Luiz Fernando Dias dos Santos
"Não guardo raiva de Maria do Carmo"

Na primeira entrevista concedida após o julgamento que o condenou a 14 anos de prisão, o procurador Luiz Fernando Dias dos Santos afirmou que vai requerer junto ao Supremo Tribunal Federal a desclassificação do crime de tentativa de homicídio. "Embora reafirme minha inocência, existe uma tese que diz que, caso admitida a hipótese de autoria, eu poderia ser beneficiado com a desclassificação porque socorri a vítima. Se isso fosse aceito, o júri seria anulado". Ele garantiu que não guarda raiva da ex-esposa, Maria do Carmo, nem dos dois filhos que teve com ela. "Eu queria dizer que desejo um felicíssimo Natal para eles e o mais próspero Ano Novo", afirmou.

Jornal do Commercio - O senhor ficou surpreso com o resultado do julgamento?

Luiz Fernando Dias dos Santos - Eu tinha total confiança de que o júri ia dar o veredito ao meu favor, reconhecendo a minha inocência. Achava, inclusive, que seria de 7 a 0. Mas, mesmo que eu não tivesse essa certeza, eu não iria ficar a vida toda prolongando esse processo e adiando a realização do júri. Eu só queria esgotar as possibilidades de recursos previstos pela Justiça.

JC - O que o senhor pretende fazer agora?

Santos - Meus advogados já entraram com uma petição solicitando o relaxamento da prisão ao juiz de Jaboatão dos Guararapes, José Roberto Moreira. Se o juiz não se retratar, tem a câmara de férias, que poderá julgar um pedido de habeas-corpus. Acredito que a partir do dia 2 de janeiro, eu já tenha um posicionamento favorável. O chato é ficar as festividades de final de ano longe da minha família. Além disso, vou pedir ao meu advogado que encaminhe de imediato um recurso extraordinário para o Supremo Tribunal Federal, solicitando a desclassificação do crime. Ou seja, caso eu admitisse a hipótese de ter atirado contra Maria do Carmo, eu seria beneficiado porque teria me arrependido e socorrido a vítima. Essa é uma tese alternativa, defendida por muitos juristas e advogados de renome. Se nosso pedido for aceito, este júri será anulado. E um juiz togado iria me julgar e não mais o tribunal do júri.

JC - E se fosse realizado um novo júri, o senhor acredita que teria melhores chances?

Santos - Eu acho que sim. Não estou culpando ninguém, mas os jurados são leigos e não percebem certas coisas, como a afirmação da assistência da acusação que disse que o Tribunal de Justiça já havia me condenado. Era só uma frase de efeito. Claro que se ela fosse verdadeira eu não estaria diante de um júri. Esses equívocos poderiam ser melhor esclarecidos.

JC - Qual o seu sentimento em relação à sua ex-esposa, a advogada Maria do Carmo?

Santos - É obvio que eu fiquei chateado, mas sei que a culpa não é dela, fizeram a cabeça de Maria do Carmo, o que, infelizmente, eu não posso provar. Além disso, existem no processo laudos que comprovam que ela teve amnésia lacunar. Colocaram ela numa redoma de vidro e fizeram o que quiseram com ela. A própria dona Minervina, mãe de Maria do Carmo, teve uma influência muito forte. Ela sofreu muito por ter tido um filho cardíaco e viveu a vida toda quase em função desse filho doente, isso a deslocou do mundo real. Mas eu não tenho raiva de ninguém, não. Não desejo mal nem a dona Minervina.

JC - Como o senhor se sente em relação aos seus filhos? Pretende se reaproximar deles?

Santos - É uma coisa que dói muito. Eu jamais queria que isso acontecesse, nem com meus filhos. Eu vou tentar a vida toda reverter essa situação. O próprio padre Edvaldo afirmou, em seu depoimento, que eu o havia procurado para interceder junto aos meus filhos. Atendendo a meu pedido, muitas pessoas tentaram em vão demover a família da decisão de eu não poder ver as crianças. Na adolescência deles, eu passei a mandar três ou quatro cartas que, provavelmente, foram interceptadas. Eles nunca devem ter recebido essas correspondências. Eu queria dizer que desejo um felicíssimo Natal para eles, o mais próspero Ano Novo. Não só para eles, mas para todos.

JC - Como tem passado esses primeiros dias na prisão?

Santos - Eu estou lendo o livro Quatro Contos, que reúne contos de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manoel Bandeira e Raquel de Queiroz.

JC - A imprensa influenciou na decisão dos jurados?

Santos - Sempre achei que o fórum correto para discutir isso é a Justiça. Tive uns problemas com a imprensa e fiquei retraído. Por isso nunca procurei os jornalistas, que sempre ouviram Maria do Carmo e eu procurava evitar responder. O espaço foi muito maior para ela e isso fez a cabeça da sociedade. Foi um erro. Se pudesse voltar no tempo, teria adotado uma postura diferente, procurando a imprensa e publicando matéria paga, como eles fizeram.


     

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