Natal de agora e sempreQueríamos falar do
Natal. Não o das compras nem o
das luzes coloridas, mas o do
símbolo vivo do cristianismo,
pregado pelos Evangelhos, na fala
do anjo aos pastores: "Eu
vos anuncio uma boa nova, de
grande alegria para todo o povo.
Hoje, em Belém, nasceu para vós
um Salvador, que é o Cristo
Senhor. Isto vos servirá de
sinal: encontrareis um
recém-nascido enrolado em panos
e deitado numa manjedoura".
(Lucas, 2, 10-11).
Não
pretendemos também falar do
Natal tal como fazem os
teólogos, nem outros
intérpretes rigorosos dos textos
bíblicos. Preferimos falar do
Natal dos poetas. Estes, cheios
de sensibilidade e muitas vezes
apegando-se a um resto de fé,
resguardada apesar dos rumos
contraditórios a que a vida os
conduziu. Como Manuel Bandeira,
ao citar sua infância no Recife.
Lembrando os "sinos de
quando eu menino. Sinos da Boa
Vista e de Santo Antônio. Sinos
do Poço, do Monteiro e da
igrejinha de Boa Viagem. Outros
sinos, sinos, quantos sinos. No
noturno pátio. Sem silêncio, ó
sinos de quando eu menino."
Esses versos
parecem complementados, e com que
vigor, pelo "Poema de
Natal" de Carlos Pena Filho:
"Sino, claro sino, tocas
para quem? - Para o Deus menino
que de longe vem. - Pois se o
encontrares traze-o ao meu amor.
- E o que lhe ofereces velho
pecador? - Minha fé cansada, meu
vinho, meu pão, meu silêncio
limpo, minha solidão".
Não queremos
falar das confraternizações e
da troca de presentes, muito
menos das crises e dos
bombardeios, dos escândalos e
dos adiamentos na solução dos
problemas. Voltamos, por isso, ao
livro sagrado de judeus e
cristãos, remontando-nos agora
ao Velho Testamento, que assim
previu, na voz de um dos
profetas, a chegada do Senhor:
"Pois um menino nasceu para
nós, um filho nos foi dado; ele
recebeu o império sobre os
ombros e foi-lhe dado como nome:
Pai para sempre, Príncipe da
Paz." (Isaías, 9.5).
Desejamos que
todos - até os mais ocupados e
de mente mais confusa - tenham um
pouco de tempo para pensar no
nascimento desse menino, em
condições tão simples, num
lugar pequeno, afastado da vista
dos poderosos do lugar. Que os
gestos de solidariedade aos
necessitados de todos os tempos
se multipliquem, nesta época,
com a convicção de que deve ser
repetido nos outros dias, nos
próximos anos, por toda a vida.
Ainda mesmo
àqueles que têm dúvidas -
talvez a estes, sobretudo - esta
data deve servir para pensar no
nascimento do Cristo e meditar
sobre nossa participação neste
mundo. Como o fez Tobias Barreto,
em um soneto hoje pouco recitado:
"Dizem que o Cristo, o filho
de Deus vivo, a quem chamam
também Deus verdadeiro, veio ao
mundo remir do cativeiro, e eu
vejo o mundo ainda tão
cativo!"
Ao contrário
deste, pouco conhecido,
poderíamos citar a pergunta
tantas vezes repetida, feita por
Machado de Assis no fecho de ouro
do seu "Soneto de
Natal", em que fala do homem
a quem faltou inspiração,
quando desejoso de
"transportar ao verso doce e
ameno as sensações de sua idade
antiga, naquela mesma velha noite
amiga, noite cristã, berço do
Nazareno". Ainda vale a pena
repetir os tercetos finais do
imenso escritor e também grande
poeta: "Escolheu o soneto...
A folha branca pede-lhe a
inspiração; mas, frouxa e
manca, a pena não acode ao gesto
seu. E, em vão lutando contra o
metro adverso, só lhe saiu este
pequeno verso: Mudaria o Natal ou
mudei eu?"
Que a mensagem
autêntica do Natal, de hoje e
sempre, encha de alegria e paz o
espírito de nossos leitores.
São os nossos votos mais
sinceros.