- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 24 de dezembro de 1998

Natal de agora e sempre

Queríamos falar do Natal. Não o das compras nem o das luzes coloridas, mas o do símbolo vivo do cristianismo, pregado pelos Evangelhos, na fala do anjo aos pastores: "Eu vos anuncio uma boa nova, de grande alegria para todo o povo. Hoje, em Belém, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido enrolado em panos e deitado numa manjedoura". (Lucas, 2, 10-11).

Não pretendemos também falar do Natal tal como fazem os teólogos, nem outros intérpretes rigorosos dos textos bíblicos. Preferimos falar do Natal dos poetas. Estes, cheios de sensibilidade e muitas vezes apegando-se a um resto de fé, resguardada apesar dos rumos contraditórios a que a vida os conduziu. Como Manuel Bandeira, ao citar sua infância no Recife. Lembrando os "sinos de quando eu menino. Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio. Sinos do Poço, do Monteiro e da igrejinha de Boa Viagem. Outros sinos, sinos, quantos sinos. No noturno pátio. Sem silêncio, ó sinos de quando eu menino."

Esses versos parecem complementados, e com que vigor, pelo "Poema de Natal" de Carlos Pena Filho: "Sino, claro sino, tocas para quem? - Para o Deus menino que de longe vem. - Pois se o encontrares traze-o ao meu amor. - E o que lhe ofereces velho pecador? - Minha fé cansada, meu vinho, meu pão, meu silêncio limpo, minha solidão".

Não queremos falar das confraternizações e da troca de presentes, muito menos das crises e dos bombardeios, dos escândalos e dos adiamentos na solução dos problemas. Voltamos, por isso, ao livro sagrado de judeus e cristãos, remontando-nos agora ao Velho Testamento, que assim previu, na voz de um dos profetas, a chegada do Senhor: "Pois um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; ele recebeu o império sobre os ombros e foi-lhe dado como nome: Pai para sempre, Príncipe da Paz." (Isaías, 9.5).

Desejamos que todos - até os mais ocupados e de mente mais confusa - tenham um pouco de tempo para pensar no nascimento desse menino, em condições tão simples, num lugar pequeno, afastado da vista dos poderosos do lugar. Que os gestos de solidariedade aos necessitados de todos os tempos se multipliquem, nesta época, com a convicção de que deve ser repetido nos outros dias, nos próximos anos, por toda a vida.

Ainda mesmo àqueles que têm dúvidas - talvez a estes, sobretudo - esta data deve servir para pensar no nascimento do Cristo e meditar sobre nossa participação neste mundo. Como o fez Tobias Barreto, em um soneto hoje pouco recitado: "Dizem que o Cristo, o filho de Deus vivo, a quem chamam também Deus verdadeiro, veio ao mundo remir do cativeiro, e eu vejo o mundo ainda tão cativo!"

Ao contrário deste, pouco conhecido, poderíamos citar a pergunta tantas vezes repetida, feita por Machado de Assis no fecho de ouro do seu "Soneto de Natal", em que fala do homem a quem faltou inspiração, quando desejoso de "transportar ao verso doce e ameno as sensações de sua idade antiga, naquela mesma velha noite amiga, noite cristã, berço do Nazareno". Ainda vale a pena repetir os tercetos finais do imenso escritor e também grande poeta: "Escolheu o soneto... A folha branca pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca, a pena não acode ao gesto seu. E, em vão lutando contra o metro adverso, só lhe saiu este pequeno verso: Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Que a mensagem autêntica do Natal, de hoje e sempre, encha de alegria e paz o espírito de nossos leitores. São os nossos votos mais sinceros.

 
 

 

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