..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

COMPORTAMENTO
Era uma vez uma família...

Por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

Era uma vez uma psicanalista americana, chamada Jean Grasso Fitzpatrick, que decidiu ensinar os pais a lidarem melhor com as suas emoções e as de seus filhos através dos mais belos contos, parábolas e lendas. Estas técnicas, de contar histórias para criar vínculos afetivos na família, estão descritas no livro Era uma vez uma família - Como desenvolver a inteligência emocional na vida familiar contando histórias e brincando com seus filhos, da Editora Objetiva (R$ 28,00, à venda na livraria Sodiler).

"As crianças precisam ter vínculos com pais que sejam pessoas de verdade. Um lar capaz de nutrir espiritualmente não é uma casa sem conflitos, desapontamentos ou sofrimentos, mas é onde a criança se sente segura para expressar estes sentimentos e sabe que alguém se importa. Quando você compartilha histórias e suas respostas a elas, cria vínculos com seu filho de acordo com quem você realmente é", diz Jean.

A recomendação básica da psicanalista é que, ao final de cada história, a família continue a vivê-la, seja representando-a teatralmente, desenhando seus temas num papel ou simplesmente recriando-a com novos desfechos. Trata-se de uma brincadeira entre pais e filhos que garante à criança a presença de bons aliados para a construção de seu mundo imaginário.

O Natal é um momento perfeito para se pôr em prática estas fantasias. De acordo com a psicanalista, os pais não devem se limitar a contar histórias de Papai Noel, mas escrever cartas para ele e fazer com que as crianças expressem assim os seus desejos. Se encontrarem um Papai Noel num shopping, pais e filhos devem dizer-lhe o que desejariam ganhar.

Uma das motivações da autora de Era uma vez uma família... foram as estatísticas de que as mães americanas dedicam apenas 11 minutos por dia a conversas com seus filhos - uma migalha, segundo a psicanalista. Com a intuição de que as mães não conversam mais com os filhos simplesmente porque não sabem como fazê-lo, Jean transformou cada capítulo numa espécie de aula, todos recheados de contos de fadas e da sabedoria popular de diversas partes do mundo. Eles são pontos de partida para o trabalho de emoções como medo, agressividade, tristeza, perda e luto, competitividade e potencial para o amor.

Um exemplo clássico para lidar com o medo é, segundo a autora, a história de Chapeuzinho Vermelho. Ela sugere exercícios para serem feitos só pelos adultos antes de contar à criança a saga da personagem. Por exemplo: os pais devem relacionar por escrito tudo o que lhes dá medo, do que tinham medo na infância e o que fizeram com estes medos antigos. Assim fica mais fácil conversar com a criança sobre seus medos, em vez de proibir a criança de sentir medo.

"Uma criança que teme ser afastada dos pais pode vivenciar este temor com a história de Chapeuzinho Vermelho. E ainda há um caçador que dá fim ao lobo. Esta história torna os medos concretos e controláveis e, assim, podem ser compartilhados. Ao dramatizá-la, a mãe ajuda o filho a se sentir compreendido. Ele sabe que não está sozinho com o medo, e é esta percepção, e não a ausência de medo, que ajuda a criança a crescer confiante", diz a psicanalista.

O conto italiano A camisa do homem feliz, por exemplo, ensina com uma história simples que a alegria não está em ter as coisas, mas na alma livre para realizar seus impulsos. Um rei, que sofria muito por não conseguir fazer o triste filho feliz, procurou um sábio. Este disse-lhe que o caso estaria resolvido quando o rei vestisse no filho a camisa de um homem feliz. O rei procurou um rabino aparentemente feliz, mas ambicioso demais para sê-lo. Outro candidato a homem feliz não serviu porque, se de dia vivia sorrindo, passava a noite atormentado, com insônia. O rei estava desistindo quando ouviu na floresta um pobre cantar alegremente. Seguiu o canto pela mata e, ao se deparar com o homem da voz, viu que não vestia camisa.

Esta história, segundo a autora, tenta ensinar os pais a aceitarem os filhos como são, através dos seguintes exercícios: os pais podem pedir aos filhos para desenhar uma camisa de homem feliz; encenar com a criança uma conversa entre o rei e o seu filho triste; ou relacionar uns aos outros as ocasiões em que foram felizes.

Para a psicanalista brasileira Hedilaine Coelho, que na semana passada participou de um debate sobre o livro Era uma vez uma família..., na Casa da Leitura, no Rio de Janeiro, o mérito da psicanalista é trazer as experiências dos workshops com pais e filhos que desenvolve nos EUA a partir de clássicos infantis.

"A história é um recurso para se entrar nos conflitos familiares e estabelecer vínculos. Toda criança vive grandes terrores. Quando os pais sentam-se ao seu lado para contar uma história, ajudam a aplacar estes medos. Era o que se fazia antes da TV, do videogame e do excesso de informações que a criança às vezes não tem maturidade neurológica para receber".

O professor Carlos Alberto, presidente da Casa da Leitura, sede do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Projeto Pró-Ler), explica que fez questão de promover este debate sobre o livro Era uma vez... para valorizar o ato de contar uma história. "Além de criar vínculos fundamentais entre mães e filhos, o contar uma história para as crianças cria futuros leitores".

Para a psicanalista Bruna Carvalho, os livros infantis são presentes ricos e baratos de Natal. "Um livro de história é um exercício fácil e acessível para a mãe que não consegue se relacionar com o filho por excesso de trabalho ou por bloqueios emocionais. Ela começa a ler, talvez com dificuldade, mas percebe com satisfação o resultado mágico de um ato tão simples".


     

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