COMPORTAMENTO
Era
uma vez uma família...Por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo
Era uma vez uma
psicanalista americana, chamada
Jean Grasso Fitzpatrick, que
decidiu ensinar os pais a lidarem
melhor com as suas emoções e as
de seus filhos através dos mais
belos contos, parábolas e
lendas. Estas técnicas, de
contar histórias para criar
vínculos afetivos na família,
estão descritas no livro Era uma
vez uma família - Como
desenvolver a inteligência
emocional na vida familiar
contando histórias e brincando
com seus filhos, da Editora
Objetiva (R$ 28,00, à venda na
livraria Sodiler).
"As
crianças precisam ter vínculos
com pais que sejam pessoas de
verdade. Um lar capaz de nutrir
espiritualmente não é uma casa
sem conflitos, desapontamentos ou
sofrimentos, mas é onde a
criança se sente segura para
expressar estes sentimentos e
sabe que alguém se importa.
Quando você compartilha
histórias e suas respostas a
elas, cria vínculos com seu
filho de acordo com quem você
realmente é", diz Jean.
A
recomendação básica da
psicanalista é que, ao final de
cada história, a família
continue a vivê-la, seja
representando-a teatralmente,
desenhando seus temas num papel
ou simplesmente recriando-a com
novos desfechos. Trata-se de uma
brincadeira entre pais e filhos
que garante à criança a
presença de bons aliados para a
construção de seu mundo
imaginário.
O Natal é um
momento perfeito para se pôr em
prática estas fantasias. De
acordo com a psicanalista, os
pais não devem se limitar a
contar histórias de Papai Noel,
mas escrever cartas para ele e
fazer com que as crianças
expressem assim os seus desejos.
Se encontrarem um Papai Noel num
shopping, pais e filhos devem
dizer-lhe o que desejariam
ganhar.
Uma das
motivações da autora de Era uma
vez uma família... foram as
estatísticas de que as mães
americanas dedicam apenas 11
minutos por dia a conversas com
seus filhos - uma migalha,
segundo a psicanalista. Com a
intuição de que as mães não
conversam mais com os filhos
simplesmente porque não sabem
como fazê-lo, Jean transformou
cada capítulo numa espécie de
aula, todos recheados de contos
de fadas e da sabedoria popular
de diversas partes do mundo. Eles
são pontos de partida para o
trabalho de emoções como medo,
agressividade, tristeza, perda e
luto, competitividade e potencial
para o amor.
Um exemplo
clássico para lidar com o medo
é, segundo a autora, a história
de Chapeuzinho Vermelho. Ela
sugere exercícios para serem
feitos só pelos adultos antes de
contar à criança a saga da
personagem. Por exemplo: os pais
devem relacionar por escrito tudo
o que lhes dá medo, do que
tinham medo na infância e o que
fizeram com estes medos antigos.
Assim fica mais fácil conversar
com a criança sobre seus medos,
em vez de proibir a criança de
sentir medo.
"Uma
criança que teme ser afastada
dos pais pode vivenciar este
temor com a história de
Chapeuzinho Vermelho. E ainda há
um caçador que dá fim ao lobo.
Esta história torna os medos
concretos e controláveis e,
assim, podem ser compartilhados.
Ao dramatizá-la, a mãe ajuda o
filho a se sentir compreendido.
Ele sabe que não está sozinho
com o medo, e é esta
percepção, e não a ausência
de medo, que ajuda a criança a
crescer confiante", diz a
psicanalista.
O conto
italiano A camisa do homem feliz,
por exemplo, ensina com uma
história simples que a alegria
não está em ter as coisas, mas
na alma livre para realizar seus
impulsos. Um rei, que sofria
muito por não conseguir fazer o
triste filho feliz, procurou um
sábio. Este disse-lhe que o caso
estaria resolvido quando o rei
vestisse no filho a camisa de um
homem feliz. O rei procurou um
rabino aparentemente feliz, mas
ambicioso demais para sê-lo.
Outro candidato a homem feliz
não serviu porque, se de dia
vivia sorrindo, passava a noite
atormentado, com insônia. O rei
estava desistindo quando ouviu na
floresta um pobre cantar
alegremente. Seguiu o canto pela
mata e, ao se deparar com o homem
da voz, viu que não vestia
camisa.
Esta história,
segundo a autora, tenta ensinar
os pais a aceitarem os filhos
como são, através dos seguintes
exercícios: os pais podem pedir
aos filhos para desenhar uma
camisa de homem feliz; encenar
com a criança uma conversa entre
o rei e o seu filho triste; ou
relacionar uns aos outros as
ocasiões em que foram felizes.
Para a
psicanalista brasileira Hedilaine
Coelho, que na semana passada
participou de um debate sobre o
livro Era uma vez uma
família..., na Casa da Leitura,
no Rio de Janeiro, o mérito da
psicanalista é trazer as
experiências dos workshops com
pais e filhos que desenvolve nos
EUA a partir de clássicos
infantis.
"A
história é um recurso para se
entrar nos conflitos familiares e
estabelecer vínculos. Toda
criança vive grandes terrores.
Quando os pais sentam-se ao seu
lado para contar uma história,
ajudam a aplacar estes medos. Era
o que se fazia antes da TV, do
videogame e do excesso de
informações que a criança às
vezes não tem maturidade
neurológica para receber".
O professor
Carlos Alberto, presidente da
Casa da Leitura, sede do Programa
Nacional de Incentivo à Leitura
(Projeto Pró-Ler), explica que
fez questão de promover este
debate sobre o livro Era uma
vez... para valorizar o ato de
contar uma história. "Além
de criar vínculos fundamentais
entre mães e filhos, o contar
uma história para as crianças
cria futuros leitores".
Para a
psicanalista Bruna Carvalho, os
livros infantis são presentes
ricos e baratos de Natal.
"Um livro de história é um
exercício fácil e acessível
para a mãe que não consegue se
relacionar com o filho por
excesso de trabalho ou por
bloqueios emocionais. Ela começa
a ler, talvez com dificuldade,
mas percebe com satisfação o
resultado mágico de um ato tão
simples".