COMPORTAMENTO
II
Como
encarar a relação com o amigo
imaginárioPor FABÍOLA TAVARES
Anônimos ou
apelidados, companheiros de
brincadeiras e de confissões, os
"amiguinhos"
invisíveis com os quais as
crianças conversam quando estão
brincando sozinhas fazem parte da
infância. Frutos da imaginação
ou não (veja texto ao lado),
esses amigos participam de suas
vidas até eles completarem oito
anos de idade. A relação com os
colegas ocultos chega a preocupar
os pais, que não lembram, mas
podem ter vividos a mesma
experiência quando garotos. Para
a psicóloga infantil Guiomar de
Carvalho, essa é uma vivência
normal, com a qual pais e mães
não devem se preocupar.
De acordo com
ela, essa "amizade"
não se caracteriza como sintoma
de uma doença. "Hoje, isso
não é mais tão comum por causa
dos brinquedos, mas reflete a
necessidade que a criança tem de
criar, imaginar, projetar um
amigo que é ideal", explica
Guiomar de Carvalho. "Esse
amigo não vai contrariá-la. Se
ela quiser dar banho nele dará,
se quiser impor alguma coisa ele
vai aceitar", completa a
psicóloga.
A criação de
amigos ocultos não é observada
apenas entre filhos únicos, mas
apresenta-se principalmente em
crianças que convivem pouco com
outras pessoas de sua faixa
etária. "Tive uma cliente
que passava o dia no apartamento
junto com a empregada, e elas
não costumavam conversar. Os
seus pais trabalhavam durante
todo o dia e quando a ouviam
falar com o amigo invisível
enquanto brincava, achavam que
ela estava tendo alucinações.
Não era o caso. Ela apenas criou
um amigo para amenizar sua
solidão". Esta mesma garota
conversava com seu cão, a única
companhia que tinha durante o
dia.
Essas
projeções podem expressar a
necessidade da criança em ter um
amigo de verdade ou um irmão
para dividir suas experiências.
Normalmente, quando ela passa a
conviver com outras crianças e a
participar de atividades
socializadoras, como a prática
de esportes e de recreações
artísticas, à amizade é
deixada de lado. "Por causa
da violência, os pais estão
isolando seus filhos diante da
TV, convivendo apenas com as
babás. Isso cria neles a
necessidade de brincar com outros
garotos", observa a médica.
SEMELHANÇAS
- Os amigos imaginários têm
características de uma criança
com a qual o garoto ou a garota
que o projeta deseja estar
convivendo no seu dia-a-dia. Em
geral, eles se assemelham. Têm a
mesma estatura, são parecidos
fisicamente e gostam das mesmas
coisas. O colega oculto pode,
também, ser um adulto, o que é
menos freqüente. Fernanda
Albuquerque, 5 anos, além de
brincar com sua irmã, Estela
Albuquerque, de 3 anos, e com
outras meninas em Paratibe,
bairro onde mora, costuma
partilhar seus brinquedos com
dois amigos imaginários.
"Rafa" é um menina de
cabelos compridos e
"Binho" um garoto
negro. Ambos são do mesmo
tamanho que ela.
"Eles
gostam de brincar de comidinha, e
o que mais gostam de comer é
chocolate", conta Fernanda,
que diz gostar mais de Rafa do
que de Binho. A sua mãe, a dona
de casa, Zoraia Albuquerque, vê
como positiva essa fase da vida
de sua filha. "Nunca vi
maldade na relação de Fernanda
com esses dois colegas
imaginários. Acho que isso
reflete a sua criatividade",
afirma Zoraia. "Quando ela e
Estela brincam de casinha, ela
põe pratos para eles dois
comerem. Algumas vezes eles
brigam. Segundo Fernanda, porque
um dos dois quer pegar a sua
boneca", conta.
A mãe de
Clarissa Ferreira, de 4 anos, a
dona de casa Deolinda Ferreira,
confessa ter ficado preocupada
quando ouviu pela primeira vez a
menina conversar sem nenhuma
companhia do lado. "Achei
estranho e contei para minha
filha mais velha, de 21 anos. Ela
contou a história para um amigo
e ele disse que era normal ela
conversar sozinha ou com as
bonecas", disse Deolinda.
Embora Clarissa ainda não
conviva freqüentemente com
outras meninas e meninos de sua
idade - ele não estuda e as
outras crianças do seu prédio
são mais velhas - há um ano os
diálogos com os amigos
invisíveis foram se tornando
cada vez mais escassos.
Para a
psicóloga Guiomar Carvalho, essa
experiência infantil pode ser
anormal quando a criança, mesmo
tendo amigos de verdade, prefere
brincar com os colegas ocultos.
"Nesta situação, é
preciso os pais observarem seus
filhos com mais atenção. Se
sentirem necessidade, devem
levá-los para uma consulta com
um especialista. Pode ser que
eles estejam querendo chamar a
atenção", adverte Guiomar.
Ela aconselha a não reprimir a
criança com tapas, censuras ou
piadinhas. "Os pais devem
entender que elas vivem mais no
mundo da fantasia do que na
realidade".