..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 20 de dezembro de 1998

COMPORTAMENTO II
Como encarar a relação com o amigo imaginário

Por FABÍOLA TAVARES

Anônimos ou apelidados, companheiros de brincadeiras e de confissões, os "amiguinhos" invisíveis com os quais as crianças conversam quando estão brincando sozinhas fazem parte da infância. Frutos da imaginação ou não (veja texto ao lado), esses amigos participam de suas vidas até eles completarem oito anos de idade. A relação com os colegas ocultos chega a preocupar os pais, que não lembram, mas podem ter vividos a mesma experiência quando garotos. Para a psicóloga infantil Guiomar de Carvalho, essa é uma vivência normal, com a qual pais e mães não devem se preocupar.

De acordo com ela, essa "amizade" não se caracteriza como sintoma de uma doença. "Hoje, isso não é mais tão comum por causa dos brinquedos, mas reflete a necessidade que a criança tem de criar, imaginar, projetar um amigo que é ideal", explica Guiomar de Carvalho. "Esse amigo não vai contrariá-la. Se ela quiser dar banho nele dará, se quiser impor alguma coisa ele vai aceitar", completa a psicóloga.

A criação de amigos ocultos não é observada apenas entre filhos únicos, mas apresenta-se principalmente em crianças que convivem pouco com outras pessoas de sua faixa etária. "Tive uma cliente que passava o dia no apartamento junto com a empregada, e elas não costumavam conversar. Os seus pais trabalhavam durante todo o dia e quando a ouviam falar com o amigo invisível enquanto brincava, achavam que ela estava tendo alucinações. Não era o caso. Ela apenas criou um amigo para amenizar sua solidão". Esta mesma garota conversava com seu cão, a única companhia que tinha durante o dia.

Essas projeções podem expressar a necessidade da criança em ter um amigo de verdade ou um irmão para dividir suas experiências. Normalmente, quando ela passa a conviver com outras crianças e a participar de atividades socializadoras, como a prática de esportes e de recreações artísticas, à amizade é deixada de lado. "Por causa da violência, os pais estão isolando seus filhos diante da TV, convivendo apenas com as babás. Isso cria neles a necessidade de brincar com outros garotos", observa a médica.

SEMELHANÇAS - Os amigos imaginários têm características de uma criança com a qual o garoto ou a garota que o projeta deseja estar convivendo no seu dia-a-dia. Em geral, eles se assemelham. Têm a mesma estatura, são parecidos fisicamente e gostam das mesmas coisas. O colega oculto pode, também, ser um adulto, o que é menos freqüente. Fernanda Albuquerque, 5 anos, além de brincar com sua irmã, Estela Albuquerque, de 3 anos, e com outras meninas em Paratibe, bairro onde mora, costuma partilhar seus brinquedos com dois amigos imaginários. "Rafa" é um menina de cabelos compridos e "Binho" um garoto negro. Ambos são do mesmo tamanho que ela.

"Eles gostam de brincar de comidinha, e o que mais gostam de comer é chocolate", conta Fernanda, que diz gostar mais de Rafa do que de Binho. A sua mãe, a dona de casa, Zoraia Albuquerque, vê como positiva essa fase da vida de sua filha. "Nunca vi maldade na relação de Fernanda com esses dois colegas imaginários. Acho que isso reflete a sua criatividade", afirma Zoraia. "Quando ela e Estela brincam de casinha, ela põe pratos para eles dois comerem. Algumas vezes eles brigam. Segundo Fernanda, porque um dos dois quer pegar a sua boneca", conta.

A mãe de Clarissa Ferreira, de 4 anos, a dona de casa Deolinda Ferreira, confessa ter ficado preocupada quando ouviu pela primeira vez a menina conversar sem nenhuma companhia do lado. "Achei estranho e contei para minha filha mais velha, de 21 anos. Ela contou a história para um amigo e ele disse que era normal ela conversar sozinha ou com as bonecas", disse Deolinda. Embora Clarissa ainda não conviva freqüentemente com outras meninas e meninos de sua idade - ele não estuda e as outras crianças do seu prédio são mais velhas - há um ano os diálogos com os amigos invisíveis foram se tornando cada vez mais escassos.

Para a psicóloga Guiomar Carvalho, essa experiência infantil pode ser anormal quando a criança, mesmo tendo amigos de verdade, prefere brincar com os colegas ocultos. "Nesta situação, é preciso os pais observarem seus filhos com mais atenção. Se sentirem necessidade, devem levá-los para uma consulta com um especialista. Pode ser que eles estejam querendo chamar a atenção", adverte Guiomar. Ela aconselha a não reprimir a criança com tapas, censuras ou piadinhas. "Os pais devem entender que elas vivem mais no mundo da fantasia do que na realidade".


     

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