..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 20 de dezembro de 1998

COMPORTAMENTO III
Amigo oculto pode ser entidade espiritual

A doutrina espírita também apresenta sua explicação para as amizades surgidas entre as crianças e seus colegas invisivéis. De acordo com o espiritismo, até os 8 anos de idade meninos e meninas têm facilidade de entrar em contato com os espíritos desencarnados por não estarem com suas atuais encarnações concretizadas. "Todos nós somos médiuns, mas até essa faixa de idade a mediunidade é muito latente. É como se as crianças estivessem mais no mundo espiritual do que aqui", explica o espírita Silvio Romero, estudioso da doutrina codificada por Allan Kardec. Ele é psicólogo e trabalha a linha intrapessoal.

Segundo Romero, os amigos ocultos, quando tratam-se de entidades espirituais e não de um personagem criado pela imaginação da criança, são espirítos protetores. "Elas podem ver esses espíritos mesmo que não os tenham conhecido nessa vida", diz. Ele conta ter atendido, em seu consultório, uma garota que brincava com um menino desencarnado chamado Saulo. Ele aparecia para ela sempre que seu pai chegava em casa bêbado. "No início achei que ela criou Saulo para extravasar a tristeza que sentia quando via seu pai embriagado. Porém, com a ajuda da sua mãe, que costumava fazer perguntas sobre o garoto, descobrimos que se tratava de um primo de segundo grau. Ele desencarnou quando o pai da garota estava na puberdade", diz.

Durante as sessões com sua paciente, Romero constatou que Saulo morreu num acidente de carro provocado por seu pai, que dirigia alcoolizado. "Quando o pai da menina bebia, o garoto aparecia para ela e explicava, através de comparações, o estado de espírito do pai dela. Ele dizia que o pai era um cavalo preso por uma cerca. No caso, a cerca era a bebida. Saulo pedia para ela ser compreensiva com o pai e amá-lo muito, pois só isso o faria deixar de beber. Ele deixou".

O psicólogo destaca que é preciso muito cuidado dos profissionais para separar o que é fantasia nessas relações de amizade. "No meu caso, primeiro observo se a criança não está projetando algo que falta em sua vida, como um irmão, por exemplo. Isso é preciso para não criar uma fantasia em cima de outra fantasia", afirma. "Acontece muito dos filhos fantasiarem amizades e histórias para chamar a atenção dos pais".

Assim como a psicóloga Guiomar Carvalho, ele aconselha os pais a não reprimirem essa vivência da criança com violência. "Por outro lado, não devem incentivar essas amizades porque, se forem fantasias, podem se tornar uma patologia", adverte. (F.T.)


     

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