- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 23 de dezembro de 1998

HARDWARE
30 anos de uma revolução. É a idade do rato

por JOAQUIM PRADO e
FABÍOLA BLAH

Mouse, maus, ratón, souris, rato: nas três décadas de sua existência, que se comemora este ano, o popular aparelhinho se tornou indispensável para usuários de computadores pessoais em quase todos os recantos do mundo. Sua invenção foi um divisor de águas na história do computador.

Antes do mouse, computadores eram máquinas muito complicadas, de uso restrito a cientistas e pesquisadores treinados. Fora da ficção científica, era difícil imaginar que aqueles aparelhos tão complexos poderiam ser usados um dia até por crianças em processo de alfabetização.

A primeira pessoa a propor idéias para um computador fácil de usar, que mostrasse sua informações e recebesse comandos através de múltiplas janelas na tela e gráficos, foi Douglas Engelbart, engenheiro elétrico americano e pai do mouse. Em 1963, ele já experimentava com o desenho de um dispositivo para agilizar a edição de textos em computador, capaz de mover rapidamente o cursor em duas dimensões. Foi o próprio Engelbart quem, anos depois, apelidou sua invenção, uma caixa de madeira com duas rodas metálicas embaixo. Chamou-a de mouse (rato): o fio que sai pela traseira do aparelho lhe lembrava uma cauda.

Em dezembro de 1968, Engelbart apresentou sua criação ao público em uma histórica conferência em São Francisco, Califórnia, durante o Joint Computer Conference. Lá, ele introduziu conceitos experimentais que acabariam mudando o rumo da evolução dos computadores: videoconferência com computador e vídeo, groupware, hipermídia e hipertexto, e as idéias básicas do que viriaa ser a Internet (veja quadro).

Durante 90 minutos, Engelbart usou o mouse para clicar na tela do computador, ampliada em um grande telão e, diante de uma platéia perplexa, se comunicar remotamente com seus assistentes no instituto de pesquisa da Universidade de Stanford, em Palo Alto, também na Califórnia. Era a primeira videoconferência com computadores operando em rede do mundo, uma apresentação multimídia, através de imagem, texto e som. O show de Engelbart marcou, oficialmente, o nascimento do mouse.

Douglas Engelbart só tirou patente do acessório em 1970. Descreveu então o mecanismo como um "indicador da posição X-Y para um sistema de tela". Mas as idéias revolucionárias do engenheiro só alcançariam sucesso comercial em 1984, quando a Apple lançou o primeiro computador pessoal, o bem sucedido Macintosh. O Mac, como é conhecido ainda hoje pelas suas legiões de adoradores no mundo todo, introduziu uma revolucionária interface gráfica, baseada nas idéias de Engelbart, em que o usuário usa o mouse para mover um cursor pela tela e selecionar ou mover objetos que correspondem a programas e comandos.

O engenheiro também contribuiu com o seu gênio para outros projetos de longo fôlego e sucesso. Em novembro de 1969, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, enviaram os primeiros dado pela ARPAnet, a precursora da Internet, o receptor foi Engelbart, em seu laboratório em Stanford.

Noventa milhões de mouses depois, Engelbart continua apresentando palestras e trabalhando em projetos sobre como melhorar a interação e aumentar a produtividade de usuários e computadores. A instituição de pesquisa que criou, o Bootstrap Institute, ocupa um pequeno escritório e alguns cubículos na sede da Logitech, em Fremont, Califórnia. O inventor não paga aluguel, o que é apenas justo: sua invenção permitiu à companhia tornar-se a maior fabricante de mouses do mundo.


 

 

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