- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 23 de dezembro de 1998

HARDWARE VI
O lado ruim: a LER como efeito

Elas são consideradas doenças do mundo contemporâneo, devido à modernização e automatização dos locais de trabalho. As antigas Lesões por Esforço Repetitivo (L.E.R.) hoje são chamadas de Disfunções Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho, ou DORT. A mudança de nome deve-se à principal característica das DORTs, o desequilíbrio no uso dos tendões e articulações.

"Mudou-se o nome porque a lesão não existe de fato. O que acontece é o excesso de movimentos repetidamente. Disfunção é um termo mais exato", explica o médico Guilherme Cerqueira, ortopedista há 17 anos. Qualquer pessoa que exerça um movimento contínuo, preciso e repetitivo está sujeito a sofrer de alguma DORT. Elas ocorrem com maior freqüência entre caixas de banco e supermercado, músicos, dentistas, escriturários e informatas. Nestes últimos, o teclado não é a causa única das DORTs.

O uso excessivo do mouse também pode contribuir para o desenvolvimento das doenças, já que o equipamento concentra suas ações a partir do movimento repetido de dois dedos - os modelos ergonômicos ajudam a minimizar esses efeitos. Como envolvem uma atividade profissional, as DORTs são consideradas doenças do trabalho, por serem provocadas em locais pouco estruturados e com equipamento inadequado para a realização das tarefas.

O crescimento da incidência dos DORT tem gerado também um maior interesse em sua origem, causas e possíveis soluções. Nos Estados Unidos, as indenizações e compensações financeiras variam entre US$ 3.500,00 a US$ 35.000,00 por caso. A maioria dos pacientes das DORTs está na fase mais produtiva de suas carreiras, entre os 25 e 35 anos de idade.

Dos vinte pacientes que Guilherme Cerqueira atende diariamente em seu consultório, 20% são vítimas das DORTs. "As firmas têm começado a tratar, realmente, seus funcionários, pois acabam sendo prejudicadas com as faltas e a queda da produtividade", comenta o médico.

As grandes causas para as DORT são duas, além da repetição de tarefas: força excessiva e postura incorreta. Os sintomas mais característicos são dores provenientes de inflamações das estruturas ósseas, músculos ou tendões, podendo até serem fruto, em casos extremos, de compressão de nervos. "Elas não chegam a atingir a estrutura do osso, a não ser quando começam a incomodar a coluna", afirma Cerqueira.

O tratamento para as DORTs envolve elementos químicos, os anti-inflamatórios, e exercícios físicos, representados pela fisioterapia. "Movimentar o corpo é fundamental para quem quer se curar, ou pelo menos aliviar suas dores", esclarece Paula Asfora, fisioterapeuta há dez anos na clínica FisioForma. Por dia, 160 pessoas passam pela clínica e desses, pelo menos 30% estão em tratamento de DORTs. Paula Asfora explica: "De acordo com cada caso montamos a grade de exercícios. Geralmente são sessões diárias de 50 minutos, onde a potência depende do grau de inflamação de cada paciente".

O tratamento dá bons resultados segundo muitos pacientes. Sheila Comber, 43, presta assessoria a empresas em engenharia de qualidade, e está agora se recuperando de uma tendinite nos pulsos: "Essa minha dor começava no meio do polegar e ia até o braço, e se alguem me tocava no braço eu sentia como se fosse um choque elétrico indo do pulso ao polegar."

Sheila teve que interromper sua rotina de trabalho porque não podia dirigir, digitar ou usar o mouse sem sentir dor. Osmédicos que lhe receitaram usar uma digitala, que imobiliza os pulsos mas permite o uso das mãos, e até engessaram seus antebraços, sem que a dor fosse embora definitivamente.

Mas depois do tratamento com anti-inflamatórios e fisioterapia diária, que incluiu exercícios de alongamento, uso de ultrassom e ondas curtas, seus pulsos voltaram ao normal. "Já voltei a trabalhar e vou até encarar uma ginástica", disse.


 

 

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