HARDWARE VI
O
lado ruim: a LER como efeitoElas são consideradas
doenças do mundo contemporâneo,
devido à modernização e
automatização dos locais de
trabalho. As antigas Lesões por
Esforço Repetitivo (L.E.R.) hoje
são chamadas de Disfunções
Osteomusculares Relacionadas ao
Trabalho, ou DORT. A mudança de
nome deve-se à principal
característica das DORTs, o
desequilíbrio no uso dos
tendões e articulações.
"Mudou-se
o nome porque a lesão não
existe de fato. O que acontece é
o excesso de movimentos
repetidamente. Disfunção é um
termo mais exato", explica o
médico Guilherme Cerqueira,
ortopedista há 17 anos. Qualquer
pessoa que exerça um movimento
contínuo, preciso e repetitivo
está sujeito a sofrer de alguma
DORT. Elas ocorrem com maior
freqüência entre caixas de
banco e supermercado, músicos,
dentistas, escriturários e
informatas. Nestes últimos, o
teclado não é a causa única
das DORTs.
O uso excessivo
do mouse também pode contribuir
para o desenvolvimento das
doenças, já que o equipamento
concentra suas ações a partir
do movimento repetido de dois
dedos - os modelos ergonômicos
ajudam a minimizar esses efeitos.
Como envolvem uma atividade
profissional, as DORTs são
consideradas doenças do
trabalho, por serem provocadas em
locais pouco estruturados e com
equipamento inadequado para a
realização das tarefas.
O crescimento
da incidência dos DORT tem
gerado também um maior interesse
em sua origem, causas e
possíveis soluções. Nos
Estados Unidos, as indenizações
e compensações financeiras
variam entre US$ 3.500,00 a US$
35.000,00 por caso. A maioria dos
pacientes das DORTs está na fase
mais produtiva de suas carreiras,
entre os 25 e 35 anos de idade.
Dos vinte
pacientes que Guilherme Cerqueira
atende diariamente em seu
consultório, 20% são vítimas
das DORTs. "As firmas têm
começado a tratar, realmente,
seus funcionários, pois acabam
sendo prejudicadas com as faltas
e a queda da produtividade",
comenta o médico.
As grandes
causas para as DORT são duas,
além da repetição de tarefas:
força excessiva e postura
incorreta. Os sintomas mais
característicos são dores
provenientes de inflamações das
estruturas ósseas, músculos ou
tendões, podendo até serem
fruto, em casos extremos, de
compressão de nervos. "Elas
não chegam a atingir a estrutura
do osso, a não ser quando
começam a incomodar a
coluna", afirma Cerqueira.
O tratamento
para as DORTs envolve elementos
químicos, os
anti-inflamatórios, e
exercícios físicos,
representados pela fisioterapia.
"Movimentar o corpo é
fundamental para quem quer se
curar, ou pelo menos aliviar suas
dores", esclarece Paula
Asfora, fisioterapeuta há dez
anos na clínica FisioForma. Por
dia, 160 pessoas passam pela
clínica e desses, pelo menos 30%
estão em tratamento de DORTs.
Paula Asfora explica: "De
acordo com cada caso montamos a
grade de exercícios. Geralmente
são sessões diárias de 50
minutos, onde a potência depende
do grau de inflamação de cada
paciente".
O tratamento
dá bons resultados segundo
muitos pacientes. Sheila Comber,
43, presta assessoria a empresas
em engenharia de qualidade, e
está agora se recuperando de uma
tendinite nos pulsos: "Essa
minha dor começava no meio do
polegar e ia até o braço, e se
alguem me tocava no braço eu
sentia como se fosse um choque
elétrico indo do pulso ao
polegar."
Sheila teve que
interromper sua rotina de
trabalho porque não podia
dirigir, digitar ou usar o mouse
sem sentir dor. Osmédicos que
lhe receitaram usar uma digitala,
que imobiliza os pulsos mas
permite o uso das mãos, e até
engessaram seus antebraços, sem
que a dor fosse embora
definitivamente.
Mas depois do
tratamento com
anti-inflamatórios e
fisioterapia diária, que incluiu
exercícios de alongamento, uso
de ultrassom e ondas curtas, seus
pulsos voltaram ao normal.
"Já voltei a trabalhar e
vou até encarar uma
ginástica", disse.