- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 24 de dezembro de 1998


JOELMIR BETTING

Sinistrose abortada

NOVA YORK - Caçapa cantada por Wall Street: o banco central americano, Fed para os chegados, só vai rebaixar a taxa básica de juros (dos federal funds) na segunda quinzena de fevereiro. A taxa atual, de 4,75% ao ano, foi ratificada na reunião de terça-feira. Alan Greenspan diz que esse piso é de bom tamanho para um PIB de 3,6%, uma inflação de 1,8% e um desemprego de 4,3%. Uma redução para 4,50%, recomendada pela União Européia (onde as taxas de 11 países fundidos no euro convergem para 3% ao ano), não ajudaria em nada na reversão das expectativas destiladas pela crise global.

Historicamente, a taxa básica do Fed vinha sendo calibrada por uma invenção de gabinete: a taxa de desemprego que não acelera a inflação. Uma construção acadêmica que tem nome de guerra nos bares de Wall Street: Nairu. Que não é o prenome de nenhuma estagiária espevitada da Casa Branca. É a sigla, em inglês, de "non aceleration inflation rate of unemployment" (a tal de taxa de desemprego que não acelera a inflação). Certo?

Errado. A Nairu estabelece para o desemprego não-inflacionário a taxa-limite de 6%. Abaixo disso, a economia estaria com o radiador fervendo, a uma curva da inflação de demanda. Então, desemprego abaixo de 6% da força total de trabalho autoriza o Fed, em caráter preventivo ou dissuasório, a uma competente elevação criogênica dos juros básicos - que enquadram os juros na ponta do consumo e da produção. O velho esquema stop-and-go do monetarismo acadêmico made in Chicago.

Pois a Nairu está há quase três anos abaixo de 6%, devendo virar o ano abaixo de 4,3% (taxa de novembro) - o menor índice de desemprego desde a escalada do Vietnã em 1968. E a inflação de demanda, a da ressaca do consumo, não rebrotou nem vai rebrotar. Ela simplesmente tomou Doril e sumiu, deixando a Nairu a ver duendes. Para a euforia natalina da irrational exuberance da Bolsa de Nova York - onde, entre mortos e feridos, estão escapando todos ilesos do ano do Juízo Final.

Lembram-se? Há exatamente um ano, véspera de Natal mais jururu da década, economistas e consultores anunciavam, em todas as línguas e moedas, que haveria em 1998, sob os escombros da quebradeira em cascata da tigrada asiática, uma recessão mundial de 18 quilates e um que morde. Inclusive nos Estados Unidos. Balanço final do ano: expansão econômica de 2,9% no mundo e de 3,6% nos Estados Unidos. Ah! Esperem 1999...

Tudo azul

O americano é otimista por vocação. Ele cultiva o que Toynbee chamava de "espírito de fronteira". No coletivo, o otimismo pode não ajudar. Mas o pessimismo atrapalha.

Esperança

Sucesso de vendas natalinas na Barnes & Noble do Citicorp: Optimism: The Biology of Hope, do antropólogo Lionel Tiger. Vou degustar a obra no vôo de regresso ao Brasil cor-de-anil.

Vontade

Em The Greates (Random House) há um longo depoimento de Muhammad Ali (Cassius Clay), datado de 1978. Ele diz: "Campeões no esporte ou no trabalho se fazem com talento e com vontade. Eu diria com 51% de vontade e 49% de talento".

Família

De Donald Westlake, em A Likely Story (Warner Books): "O Natal verdadeiro é uma festa de aniversário. E não de nascimento de Cristo. Mas, através Dele, do nascimento da Família". Feliz Natal.

 
 

 

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