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ARTIGO
Vamos
em frente
por JOSÉ
PAULO CAVALCANTI FILHO*
Terça perdemos
para a Noruega. E quarta, dia
livre, nossos bravos jogadores
comemoraram fazendo compras na
St. Honoré (Zagalo, quem diria,
foi dos primeiros). Só que nem
tudo está perdido, alguns deles
continuam pensando que estão na
França para ganhar a Copa e
permaneceram na concentração.
Inclusive Dunga. O mesmo Dunga
que, dias antes, foi pisoteado
pela mídia por ter exigido garra
de Bebeto - bom rapaz que se
considera no direito de não
marcar ninguém. Retomo o tema
por considerar que há, por traz
dessa reação, a questão
básica de nossa identidade como
povo.
Duas razões
para não gostar do carão:
primeiro porque, até
inconsciente, o gesto nos
reportou ao regime de força que
até bem pouco nos oprimiu. E que
deixou marcas. Ainda não
conseguimos diferenciar
adequadamente, por exemplo,
autoritarismo de autoridade.
Segundo, porque ainda carregamos
no coração o mito do homem
cordial. E o gesto de Dunga não
bate com esse modelo. Por mais
que doa dizer, o brasileiro
prefere perder jogando no ataque
a ganhar jogando feio. Nesse jogo
já estávamos classificados,
tínhamos apenas que fazer o que
estávamos fazendo, deixando o
tempo passar, sem riscos.
Perdemos sobretudo por conta das
vaias, fizemos 1 x 0, quisemos
mostrar no finzinho do jogo que
sabíamos jogar bonito. Não
faltou só futebol, faltou
também maturidade.
Não por acaso
nada ocupou mais nossos
noticiários, fora dos gramados,
que os hooligans - tidos como
exemplo da barbárie
civilizatória, conseqüência
natural e inevitável do
neoliberalismo, síntese das
desfunções de um modelo
econômico que privilegia o
individualismo. O contraponto dos
hooligans seriam os alegres
torcedores dos países não
desenvolvidos, especialmente
africanos e brasileiros, gente
que está sempre com roupas
coloridas, irradiando alegria e
confraternizando em cantos e
danças que parecem nunca ter
fim. Só que, no fundo, não é
bem assim. O povo inglês, como
povo, não pode ser representado
pelos hooligans. O respeito que
tem pelos direitos, mesmo os mais
simples, é rigorosíssimo. Tente
o leitor amigo perguntar a um
vendedor londrino que estiver
atendendo alguém, em uma banca
de frutas, o preço de uma
maçã. Não vai ter resposta,
só na sua vez. Enquanto por aqui
não se respeita fila, ela é por
ali uma instituição sagrada.
Bem visto,
hooligans são personagens que
optam, conscientemente, por ficar
à margem das convenções
sociais. Claro que ainda
precisaríamos entender por que
exercitam suas catarses no
futebol, e não na política ou
no fundamentalismo religioso -
como em outros países. Mas é
preciso dizer que eles estão em
toda parte. Outro foram os
alemães que espatifaram tudo,
até um cinegrafista da Globo.
Estão inclusive no Brasil -
encrostados na "Mancha
Verde", nos "Gaviões
da Fiel", nos arrastões do
Maracanã. Fosse a Copa no
Uruguai e estaríamos correndo o
risco de ver gangues paulistas
travestidas de torcidas
organizadas depredando as
vitrines de Montevidéu. No fundo
nossos marginais do Pacaembu não
estão na Europa, sobretudo
porque lhes falta dinheiro para
essa viagem.
Depois do jogo,
olhando rostos desencantados de
torcedores nas ruas, pensei em um
conhecido do romance de Robert
Louis Stevenson, "O Médico
e o Monstro". Onde se conta
as desventuras de médico que, à
noite, se converte em lobisomem.
Aos olhos do público duas
pessoas, Dr. Jeckyl e Mr. Hyde;
e, no entanto, apenas um homem
solitário. Porque nossa tristeza
era conseqüência da derrota,
claro; mas era também porque
perdemos como perdemos. Porque o
país no gramado não refletia o
modelo que tínhamos dele na
imaginação. Pobres de nós,
ainda incapazes de perceber
nossas quotidianas
imperfeições. Porque se abrimos
bem os olhos veremos que não
somos apenas o que gostaríamos
de ser. Somos o que somos: um
pouco Dr. Jeckyl e um pouco Mr.
Hyde, um pouco Dunga e um pouco
Bebeto, um pouco aqueles
hooligans e um pouco aqueles
brasileiros sambando no Champs
Elisées.
*José Paulo
Cavalcanti Filho é advogado
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