-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 26 de junho de 1998


ARTIGO

Vamos em frente

por JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO*

Terça perdemos para a Noruega. E quarta, dia livre, nossos bravos jogadores comemoraram fazendo compras na St. Honoré (Zagalo, quem diria, foi dos primeiros). Só que nem tudo está perdido, alguns deles continuam pensando que estão na França para ganhar a Copa e permaneceram na concentração. Inclusive Dunga. O mesmo Dunga que, dias antes, foi pisoteado pela mídia por ter exigido garra de Bebeto - bom rapaz que se considera no direito de não marcar ninguém. Retomo o tema por considerar que há, por traz dessa reação, a questão básica de nossa identidade como povo.

Duas razões para não gostar do carão: primeiro porque, até inconsciente, o gesto nos reportou ao regime de força que até bem pouco nos oprimiu. E que deixou marcas. Ainda não conseguimos diferenciar adequadamente, por exemplo, autoritarismo de autoridade. Segundo, porque ainda carregamos no coração o mito do homem cordial. E o gesto de Dunga não bate com esse modelo. Por mais que doa dizer, o brasileiro prefere perder jogando no ataque a ganhar jogando feio. Nesse jogo já estávamos classificados, tínhamos apenas que fazer o que estávamos fazendo, deixando o tempo passar, sem riscos. Perdemos sobretudo por conta das vaias, fizemos 1 x 0, quisemos mostrar no finzinho do jogo que sabíamos jogar bonito. Não faltou só futebol, faltou também maturidade.

Não por acaso nada ocupou mais nossos noticiários, fora dos gramados, que os hooligans - tidos como exemplo da barbárie civilizatória, conseqüência natural e inevitável do neoliberalismo, síntese das desfunções de um modelo econômico que privilegia o individualismo. O contraponto dos hooligans seriam os alegres torcedores dos países não desenvolvidos, especialmente africanos e brasileiros, gente que está sempre com roupas coloridas, irradiando alegria e confraternizando em cantos e danças que parecem nunca ter fim. Só que, no fundo, não é bem assim. O povo inglês, como povo, não pode ser representado pelos hooligans. O respeito que tem pelos direitos, mesmo os mais simples, é rigorosíssimo. Tente o leitor amigo perguntar a um vendedor londrino que estiver atendendo alguém, em uma banca de frutas, o preço de uma maçã. Não vai ter resposta, só na sua vez. Enquanto por aqui não se respeita fila, ela é por ali uma instituição sagrada.

Bem visto, hooligans são personagens que optam, conscientemente, por ficar à margem das convenções sociais. Claro que ainda precisaríamos entender por que exercitam suas catarses no futebol, e não na política ou no fundamentalismo religioso - como em outros países. Mas é preciso dizer que eles estão em toda parte. Outro foram os alemães que espatifaram tudo, até um cinegrafista da Globo. Estão inclusive no Brasil - encrostados na "Mancha Verde", nos "Gaviões da Fiel", nos arrastões do Maracanã. Fosse a Copa no Uruguai e estaríamos correndo o risco de ver gangues paulistas travestidas de torcidas organizadas depredando as vitrines de Montevidéu. No fundo nossos marginais do Pacaembu não estão na Europa, sobretudo porque lhes falta dinheiro para essa viagem.

Depois do jogo, olhando rostos desencantados de torcedores nas ruas, pensei em um conhecido do romance de Robert Louis Stevenson, "O Médico e o Monstro". Onde se conta as desventuras de médico que, à noite, se converte em lobisomem. Aos olhos do público duas pessoas, Dr. Jeckyl e Mr. Hyde; e, no entanto, apenas um homem solitário. Porque nossa tristeza era conseqüência da derrota, claro; mas era também porque perdemos como perdemos. Porque o país no gramado não refletia o modelo que tínhamos dele na imaginação. Pobres de nós, ainda incapazes de perceber nossas quotidianas imperfeições. Porque se abrimos bem os olhos veremos que não somos apenas o que gostaríamos de ser. Somos o que somos: um pouco Dr. Jeckyl e um pouco Mr. Hyde, um pouco Dunga e um pouco Bebeto, um pouco aqueles hooligans e um pouco aqueles brasileiros sambando no Champs Elisées.

*José Paulo Cavalcanti Filho é advogado

 
 

 

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