CINEMA IV
Um
amor muito louco no GuararapesNick Cassavetes é filho
de John Cassavetes e Gena
Rowlands. John faleceu em 89 e
foi um dos cineastas americanos
mais ferozes na sua vontade de
filmar e contar histórias,
alimentando uma carreira de ator
que ajudava a pagar as contas dos
seus filmes baratos e
expressivos, valorizados pelo
tratamento cru de relações
humanas. O roteiro de Loucos de
Amor (She's So Lovely, EUA, 1997,
Art-Guararapes 1) é dele e virou
filme nas mãos do filho, que
trabalhou com Gena, há dois
anos, num outro projeto pessoal
chamado De Bem Com a Vida (Unhook
the Stars, exibido na Sessão de
Arte). Sabe-se que o filme
anterior foi um presente para a
mãe e esse aqui para o pai.
Acompanhamos de
perto o relacionamento conturbado
de Maureen (Robin Wright, de
Forrest Gump) e Eddie (Sean Penn,
ambos casados na vida real). Os
dois bebem e fumam em todas as
cenas, Maureen parece sempre
estar à beira de uma estafa,
grita e cai no asfalto, se mete
com um vizinho mala, apanha e é
estuprada, tudo isso normal
dentro do seu estilo de vida.
Está também grávida de Eddie.
Eddie, sempre
acompanhado do amigo Shorty
(Harry Dean Stanton, de Paris,
Texas), no bar da vizinhança,
desconfia dos hematomas, pega uma
arma, enlouquece dois passos
além do normal e atira num
funcionário de um instituto
psiquiátrico, enviado para
tirá-lo do convívio social, o
que realmente acontece. Fim da
primeira parte.
A Segunda parte
do filme acontece 10 anos depois,
num mundo diferente, mas ao mesmo
tempo igual, uma vez que o amor
de Eddie e Maureen continua
intacto. Em uma década, ela foi
salva da sarjeta por Joey (John
Travolta), um empresário bronco
com quem teve duas filhas,
criando uma terceira, Jeanie
(Kelsey Mulroney, uma graça), a
filha de Eddie. Dona de uma casa
grande, confortável, cabe a
Maureen avaliar a sua vida e
honrar, ou não, o seu amor por
Eddie, que acaba de sair do
manicômio.
Loucos de Amor
tem elementos tanto de John, como
de Nick, não significando
necessariamente valores
positivos. Os personagens são
ríspidos, difíceis, bêbados e
loucos, traços inconfundíveis
do estilo de John. Uma pena que
os seus filmes não estejam
disponíveis no Brasil. Você
poderia alugar uma jóia chamada
A Woman Under the Influence
(1974), com Rowlands, e ver que
tipo de crueza pode ser trilhada
ao abordar personagens
problemáticos, especialmente em
relação ao abuso do álcool.
Com isso em
mente, o tratamento de Nick, em
Loucos de Amor, não parece
autêntico, muito embora o filme
conte com alguns dos melhores
atores hoje em atividade nos
Estados Unidos. No seu filme
anterior ele havia conseguido
bons resultados com Marisa Tomei
num papel idêntico ao de
Maureen. Aqui, talvez por querer
fazer justiça ao pai, o toque de
Nick não parece certo.
O amor de Eddie
e Maureen, por exemplo, não é
composto por pequenos detalhes
importantes, mas por grandes atos
físicos como correr, dançar,
pular, arrombar portas e
esbravejar. Curiosamente, Maureen
nos informa que o sexo entre os
dois é muito bom, o que deve ser
mesmo, embora não haja uma cena
franca que registre isso em
celulóide, elemento essencial
num filme sobre uma relação
tão forte.
Por fim, o
filme apresenta um painel humano
pouco interessante. No frigir dos
ovos, Maureen é uma louca que
não pára de gritar, beber e
fumar. Eddie é um cara legal,
mas maluco demais para sabermos o
que está pensando. Mesmo assim,
Penn se destaca num papel
difícil, apelando às vezes para
um tom nítidamente infantil.
Travolta é o mais perdido de
todos, numa situação que
poderia ter gerado eletricidade e
algum tipo de emoção ao vermos
um homem prestes a perder
duramente a mulher que ama. O
filme parece atropelar a
pontuação e nos leva a um
desses finais que constituem
apenas o término do filme, ou
seja, um não-final. (K.M.F.)