- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 21 de junho de 1998

CASAMENTO
Eles ainda dizem sim

por FABIANA MORAES

Não adianta. Por mais que se discuta, discorde, odeie ou simplesmente ignore, a maioria das pessoas ainda diz sim para o casamento. Da maneira mais tradicional até a mais inusitada forma de união, juntar as escovas e dividir a cama é ainda um dos sonhos íntimos da maioria dos seres humanos, que começam a ver o assunto de maneira menos combativa e de certa forma mais "negociável". Hoje, o que realmente importa para os casais é a plena convivência, a amizade, o sexo e, para usar o clichê preferido de todos eles, "um bom diálogo".

"O casamento ainda é o nível máximo de realização de todo homem e de toda mulher", opina o padre Reginaldo Veloso, casado há quatro anos com a professora Edileuza Veloso. Ele, um religioso 30 anos mais velho que sua mulher e duramente criticado pelo arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, conta que sua união se solidifica e se torna mais intensa a cada ano. "Brigamos pouco e cada vez menos, mas sabemos que a convivência exige muito de todo o casal", diz o padre, lembrando que muitas pessoas podem alcançar a felicidade plena sem ter que necessariamente se casar. "Apenas acho que uma união torna duas pessoas mais ricas".

Um dos principais vilões modernos do casamento é, pasmem, a mídia. De acordo com a psicoterapeuta Amparo Caridade, "a sociedade do espetáculo", como ela denomina o meio social, simplesmente descarta os valores mais sólidos da convivência em nome de uma felicidade mais rápida e fugaz. "Somos cada vez mais pobres de valores, vivemos passivamente, consumindo imagens, nos consolando com imagens. Tudo isso mantém o indivíduo na periferia dos sentimentos", diz Amparo.

A especialista conta que a maioria dos casais que a procuram para tratamento queixam-se de desencanto, mas admitem querer retomar a vida de casado, sempre buscando a paixão inicial. "Existem dois estágios nessa relação: o pré e o pós juntar escovas. É preciso vivenciar o real de cada um, e estar preparado para o maravilhoso e para o insuportável", ensina. O frei Aloísio Fragoso, da Igreja e Convento de São Francisco, faz coro com Amparo e critica a desenfreada busca do prazer dos casais atuais. "Esse hedonismo é hoje um objetivo de vida. As pessoas acham que, quando o prazer acaba, o amor também acabou", diz o frei.

Apesar de criticado, o tal prazer é um dos pilares de casamentos como o de Elisabeth Bauchwitz, 34 anos, e José Agostinho Filho, de 36 anos. "Saímos todos os dias. Às vezes vamos apenas entregar uma fita na locadora e terminamos sentando num barzinho para tomar chope e conversar", conta Agostinho. O casamento dos dois, realizado em março deste ano, foi celebrado por uma sacerdotisa na praia da Pipa, em Natal. "Era nosso terceiro casamento. Queríamos que fosse diferente, bonito, com boas energias", diz Elizabeth. Os dois nunca se casaram na igreja, classificada como omissa por Agostinho. "O Deus dele se preocupa muito consigo mesmo e pouco com os homens. Sinceramente, Ele não me impõe respeito".

LAVOU, TÁ NOVO - Outro detalhe interessante na união do casal é a não crença na máxima do "que dure para sempre". "Eu não acredito nessa história de uma união eterna, acho que a mudança de parceiros dá mais condições para que possamos encontrar a pessoa certa", diz ele, como bom espírita. Elisabeth conta que é adepta do "que seja eterno enquanto dure", e faz questão de lembrar que, durante a cerimônia de seu casamento, nenhuma promessa foi feita. "Nós apenas nos prometemos sinceridade, e toda semana conversamos sobre o nosso casamento".

Entre Patrícia Souza, 29 anos, e Leonardo de Albuquerque, 25, a promesa de união eterna, feita em frente a um padre da Igreja Católica, é mais uma forma de fortalecer a relação dos dois. "Vou dar tudo de mim para que seja eterna. Acreditamos profundamente nisso na hora de dizer o sim", fala Patrícia. No item traição, os dois casais são bastante díspares: enquanto Elizabeth e Agostinho afirmam não admitir nenhuma forma de infidelidade, Patrícia e Leonardo acenam com a possibilidade de, no mínimo, uma conversa sobre o assunto.

"Nunca passei por isso, acho que não saberia como agir. Mas, se acontecesse, teríamos que conversar. Ia doer e machucar muito, mas nossa relação é bem maior do que isso", diz a arquiteta Patrícia. Leonardo, por sua vez, crê que não conseguiria remediar uma situação deste tipo. "A questão da confiança é muito forte, acho que não ia agüentar passar por isso. Não iria mais ter paz".


     

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