CASAMENTO
II
Véus
e buquês também nos cartóriosQuinta-feira, 28 de maio
de 1998. Vestida de noiva,
Josélia Batista, 20 anos,
aguarda a juíza Paula Malta
falar com todos os 22 casais
presentes no 1º Tribunal do
Júri do Forum Tomaz de Aquino,
no centro do Recife. Num calor
imenso, agravado pelo vestido
longo, ela espera a vez para
dizer o "sim" ao seu
futuro esposo, Jorge Virgínio
Soares, de apenas 19 anos. O
clima de ansiedade é quebrado
quando a juíza chama um dos
casais e o noivo diz
"sim". "Mas onde
está a noiva?", pergunta a
juíza. "Ela teve que ir ao
banheiro", diz o rapaz.
Todos riem, e a juíza explica
que não pode celebar a união
sem a presença da noiva, que
chega logo depois.
Para muitos
casais, o casamento civil é a
única cerimônia que vai
autenticar a união. Nos
corredores dos cartórios, é
comum ver as mulheres vestidas de
noiva, carregando buquês, véus
e todos os frufus que têm
direito, enquanto amigos e
parentes choram de emoção.
Tanto a família de Josélia
quanto a família de Jorge, por
exemplo, compareceram ao tribunal
para homenagear o casal, e ainda
prepararam uma festa na casa da
noiva para depois da cerimônia.
Também vestida
de noiva, Janaína Cavalcante, 19
anos, posa junto ao noivo, Jesiel
Severino, para diversas fotos,
logo após aceitarem-se como
marido e mulher perante a juíza.
Perguntado sobre a sua idade,
Jesiel franze a testa e procura
se lembrar da data. "Você
tem 25 anos", lembra a
noiva, que diz nunca ter sonhado
em casar numa igreja lotada de
pessoas e flores. "Espero
apenas ser feliz", diz
Janaína, que este ano vai
prestar vestibular para
veterinária. Para Jesiel, o
casamento vai trazer maior
liberdade. "Eu a amo muito,
faz um ano que estamos juntos e
nunca brigamos. Nem vamos
brigar", aposta.
ALÉM DOS
PAPÉIS - Para a juíza
substituta Paula Malta, que casa
em média 20 casais por semana,
todo magistrado deve alertar os
casais sobre a importância do
casamento durante a celebração
civil. "É importante
lembrar às pessoas que tudo
aquilo é muito sério, não são
apenas papéis que estão sendo
assinados. É a vida delas que
está sendo comprometida",
diz a juíza, lembrando que já
chegou a casar um par que, após
a cerimônia, nem saiu junto do
cartório. "Ela foi pra um
lado e ele para o outro. Fiquei
muito decepcionada", revela.
Diferente de
muitos juízes, que limitam-se a
proferir apenas as palavras
jurídicas durante a união
legal, Paula conversa com todos
os noivos e noivas, fala sobre a
instituição casamento e suas
implicações, num sermão
bastante parecido com o dos
padres. "Não gosto de falar
pouco, acho que é papel do juiz
alertar as pessoas. Muitas delas
casam apenas aqui no tribunal,
vêm vestidas de noivas, trazem
seus buquês. Temos que valorizar
isso", completa. (F.M.)