- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 21 de junho de 1998

CASAMENTO VI
Até onde a paixão é saudável e como não passar do limite

por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

Todo apaixonado é louco? O ator Bruce Willis, por exemplo, pediu Demi Moore em casamento de modo tão abrupto quanto seus filmes de ação. Estavam na platéia de uma luta de boxe, às 20h, quando ele disse que, com um telefonema, arrumaria os papéis para se casarem naquela mesma noite. Demi foi ao banheiro e, na volta, perguntou: "Você não ia telefonar"? Casaram-se antes da meia-noite.

Esta é uma das loucuras de amor reveladas pelo livro Quer casar comigo?, das americanas Wendy Goldberg e Betty Goodwin (Editora Record), sobre os atos insanos de apaixonados famosos. Já atriz Mary Tyler Moore "enlouqueceu" pelo médico de sua mãe, Robert Levine. Ele lhe deu o número do telefone para emergências, ela telefonou às 3h da madrugada e convidou-o para um jantar urgente.

Mas, há também uma outra loucura, a dos casos trágicos como o de Rosângela Rocha Valle, de 36 anos, que, depois de apaixonar-se loucamente por um alcoólatra, a quem dedicou-se ao extremo de tirá-lo do vício, foi parar na Casa do Engenho, o hospital-dia do Centro Psiquiátrico Pedro II. O casamento acabou e Rosângela, em crise de depressão, queria morrer. O tratamento com o psiquiatra Marco Aurélio Jorge deu-lhe ânimo para juntar os pedaços do que restou de sua identidade. "Era tão apaixonada que queria ser ele. Quando tudo acabou, enlouqueci. Para ele, foi ótimo; livrou-se de anos de alcoolismo. Para mim, um horror".

O olhar deslumbrante de Ana Paula Arósio, que impulsiona o sucesso da minissérie Hilda Furacão, também encobre o mistério de quem, sem se dar conta, chegou bem perto da fronteira entre paixão e loucura. Ana Paula viu seu noivado acabar em tragédia, quando seu noivo, o empresário Luiz Carlos Tjurs, suicidou-se, na sua frente, com um tiro na boca, desesperado por um ciúme doentio.

"Foi difícil admitir que eu lidava com uma pessoa doente", lembra Ana Paula. O limite entre a paixão a loucura é tema do livro The alchemy of love and lust, da psiquiatra americana Theresa Creenshaw que, este mês, se transformou num dos maiores best-sellers dos Estados Unidos. A autora, com mestrado em estudos sobre comportamento sexual no famoso Instituto Masters & Johnson, tem uma explicação bioquímica para as explosões afetivas.

Theresa Creenshaw diz que o estado de paixão leva à loucura porque altera o equilíbrio orgânico, sob o poder irresistível dos hormônios sexuais. A química da paixão é tão poderosa que afeta até mesmo a aparência física, transformando-se tanto num tratamento de beleza quanto num destruidor de baby facies. "A paixão sensibiliza todo o corpo e altera seu funcionamento neuroquímico. Desequilíbrios químicos muito acentuados levam o apaixonado a um estado de loucura perigoso, muitas vezes sem que os apaixonados percebam que estão à beira do abismo".

Médicos brasileiros concordam com Theresa. Para a dermatologista Paulina Kede, a pele é a primeira a reagir à paixão. "A melhor cosmética que existe é a felicidade. Quando a pessoa está apaixonada, a pele fica mais bonita, os olhos brilham, os cabelos ficam mais sedosos. Sabemos que a origem da pele é a mesma do sistema nervoso, a crista neural. Tanto que, nos casos de estresse e de infelicidade, aparecem micoses, eczemas e queda de cabelos".

O psiquiatra Marco Aurélio Jorge concorda que a paixão, ainda que de origem psíquica, afeta o metabolismo. Os estados mais graves, segundo ele, são danosos não apenas à beleza, mas exigem medicação contra possíveis atos suicidas ou homicidas. Ele destaca os tipos de conduta que indicam uma provável paixão doentia: fazer tudo para agradar ao outro; não se concentrar em nada quando deseja falar com ele; viver obcecado pelo medo de perdê-lo. Segundo ele, a diferença entre paixão e amor é estrutural. "O sujeito apaixonado investe tudo na outra pessoa e se anula. Não ama ninguém, mas um ideal que não existe. A paixão é aniquiladora e, no amor, ao contrário, há uma troca de afetos".

QUANDO VALE A PENA -as, as ligações amorosas nem sempre são tão perigosas. O psicanalista Eduardo Losicer, por exemplo, adverte que ninguém deve evitar os desejos apaixonados, porque são eles que impulsionam a vida. Ainda que muitos desses casos de paixão, como ele reconhece em sua própria experiência clínica, resulte em desfechos escabrosos. "Quem não tem desejos intensos ou não se deixa levar por eles não vive. São pessoas que trabalham, comem e dormem e deixam a vida passar em branco. Por mais perigosa que aparente ser, a paixão é revigorante. E, em muitos casos, embeleza, rejuvenesce, alegra e prolonga a vida".

Para Losicer, a psicanálise pode ajudar os apaixonados a lidarem com fragilidades e surtos de loucura, mas o hábito de discutir seus sentimentos com um bom grupo de amigos também acalma a ansiedade dos corações sensíveis e apaixonados. "É o caso daquela dúvida terrível, pela qual todos passam na vida: Devo telefonar ou não? O psicanalista não vai responder. É o amigo quem dirá: Telefona! Dizer o que sente para os amigos pode ser um grande alívio para as aflições afetivas.

Quem não tem tantos amigos disponíveis pode alcançar apoio em grupos de auto-ajuda como os Neuróticos Anônimos ou, para casos de paixão mais descontroladas, no grupo Mulheres Que Amam Demais, que reúne aquelas que já fizeram ou pensam em fazer loucuras por paixão.

Para quem está à beira de um colapso nervoso por causa de fracasso amoroso, algumas instituições psiquiátricas públicas brasileiras mantêm um serviço de atendimento individual ou em grupos. O psiquiatra e psicanalista Marco Antonio Jorge atende, no Rio de Janeiro, muitos casos de surtos de loucura provocados por paixões, nos quais, na maioria dos casos, o paciente se recupera da crise e se estrutura para uma nova possibilidade afetiva.

A dona-de-casa D.O., de 35 anos, por exemplo, mãe solteira de um menino de 9 anos, apaixonou-se pelo marido de sua irmã. Os dois iniciaram um tórrido romance. O cunhado a ajudava financeiramente, mas, como a relação ficava cada vez mais séria e perigosa, ele resolveu dar um fim a tudo. D.O. enlouqueceu. Trancou-se em casa com o filho e, num ataque de loucura, quebrou o apartamento inteiro: móveis, eletrodomésticos, louças. A família inteira acabou descobrindo o romance secreto, houve um escândalo e D.O. precisou de atendimento psiquiátrico. Agora tudo está mais calmo. Ela tem um novo namorado e já consegue se relacionar com a irmã e o ex-amante, que continuam casados.

ROMPIMENTO - Marco Antonio Jorge observa que os traços patológicos da paixão aparecem de modo mais nítido quando um dos dois desiste da relação. "Quando a paixão é de alguma forma correspondida, tudo vai aparentemente bem. Quando a relação se rompe, a loucura aparece. Estas pessoas que enlouquecem porpaixão são geralmente frágeis, com uma identidade fragmentada e comprometida, que não se sustenta sem depender do outro. Para as pessoas fragilizadas, qualquer um que se apresente como uma possibilidade mínima de amparo, físico ou psíquico, é candidato a objeto de paixão doentia. Elas tentarão se fundir no parceiro para que ele preencha tudo o que lhes falta", explica.

A loucura pode aparecer de várias maneiras. Há apaixonados que entram em crise depressiva, outros entram em surto maníaco, que se caracteriza por uma euforia mais parecida com a do efeito de drogas do que com a alegria.

A comerciária P. L., por exemplo, conseguiu vencer a violenta depressão que se abateu sobre ela após a morte de seu amor. Este amante lhe dava, além de carinho, ajuda financeira e a incentivou até a fazer um curso de informática. Mas o sujeito andava fora da lei e foi assassinado. P.L. entrou em crise depressiva e chegou a pensar em suicídio. "Ela perdeu o amparo que mantinha sua integridade", explica Marco Aurélio.

A dor da comerciária foi muito mais violenta do que a de quem perde um amante. Freud deixou claro no texto Luto e melancolia que a tristeza pela perda de alguém amado é natural, mas a melancolia é a tristeza sob forma exagerada, com traços patológicos de uma personalidade que se perde junto com o objeto amado. Portanto, a sensação de que nada sobrou depois da partida de um amor é sintoma de que aquela relação tinha algo de doentio. A julgar pela tese de Theresa Creenshaw, por mais cauteloso que seja o enamorado, as perturbações de origem bioquímica pela paixão são inevitáveis.


     

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