CASAMENTO
VI
Até
onde a paixão é saudável e
como não passar do limitepor MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo
Todo apaixonado
é louco? O ator Bruce Willis,
por exemplo, pediu Demi Moore em
casamento de modo tão abrupto
quanto seus filmes de ação.
Estavam na platéia de uma luta
de boxe, às 20h, quando ele
disse que, com um telefonema,
arrumaria os papéis para se
casarem naquela mesma noite. Demi
foi ao banheiro e, na volta,
perguntou: "Você não ia
telefonar"? Casaram-se antes
da meia-noite.
Esta é uma das
loucuras de amor reveladas pelo
livro Quer casar comigo?, das
americanas Wendy Goldberg e Betty
Goodwin (Editora Record), sobre
os atos insanos de apaixonados
famosos. Já atriz Mary Tyler
Moore "enlouqueceu"
pelo médico de sua mãe, Robert
Levine. Ele lhe deu o número do
telefone para emergências, ela
telefonou às 3h da madrugada e
convidou-o para um jantar
urgente.
Mas, há
também uma outra loucura, a dos
casos trágicos como o de
Rosângela Rocha Valle, de 36
anos, que, depois de apaixonar-se
loucamente por um alcoólatra, a
quem dedicou-se ao extremo de
tirá-lo do vício, foi parar na
Casa do Engenho, o hospital-dia
do Centro Psiquiátrico Pedro II.
O casamento acabou e Rosângela,
em crise de depressão, queria
morrer. O tratamento com o
psiquiatra Marco Aurélio Jorge
deu-lhe ânimo para juntar os
pedaços do que restou de sua
identidade. "Era tão
apaixonada que queria ser ele.
Quando tudo acabou, enlouqueci.
Para ele, foi ótimo; livrou-se
de anos de alcoolismo. Para mim,
um horror".
O olhar
deslumbrante de Ana Paula
Arósio, que impulsiona o sucesso
da minissérie Hilda Furacão,
também encobre o mistério de
quem, sem se dar conta, chegou
bem perto da fronteira entre
paixão e loucura. Ana Paula viu
seu noivado acabar em tragédia,
quando seu noivo, o empresário
Luiz Carlos Tjurs, suicidou-se,
na sua frente, com um tiro na
boca, desesperado por um ciúme
doentio.
"Foi
difícil admitir que eu lidava
com uma pessoa doente",
lembra Ana Paula. O limite entre
a paixão a loucura é tema do
livro The alchemy of love and
lust, da psiquiatra americana
Theresa Creenshaw que, este mês,
se transformou num dos maiores
best-sellers dos Estados Unidos.
A autora, com mestrado em estudos
sobre comportamento sexual no
famoso Instituto Masters &
Johnson, tem uma explicação
bioquímica para as explosões
afetivas.
Theresa
Creenshaw diz que o estado de
paixão leva à loucura porque
altera o equilíbrio orgânico,
sob o poder irresistível dos
hormônios sexuais. A química da
paixão é tão poderosa que
afeta até mesmo a aparência
física, transformando-se tanto
num tratamento de beleza quanto
num destruidor de baby facies.
"A paixão sensibiliza todo
o corpo e altera seu
funcionamento neuroquímico.
Desequilíbrios químicos muito
acentuados levam o apaixonado a
um estado de loucura perigoso,
muitas vezes sem que os
apaixonados percebam que estão
à beira do abismo".
Médicos
brasileiros concordam com
Theresa. Para a dermatologista
Paulina Kede, a pele é a
primeira a reagir à paixão.
"A melhor cosmética que
existe é a felicidade. Quando a
pessoa está apaixonada, a pele
fica mais bonita, os olhos
brilham, os cabelos ficam mais
sedosos. Sabemos que a origem da
pele é a mesma do sistema
nervoso, a crista neural. Tanto
que, nos casos de estresse e de
infelicidade, aparecem micoses,
eczemas e queda de cabelos".
O psiquiatra
Marco Aurélio Jorge concorda que
a paixão, ainda que de origem
psíquica, afeta o metabolismo.
Os estados mais graves, segundo
ele, são danosos não apenas à
beleza, mas exigem medicação
contra possíveis atos suicidas
ou homicidas. Ele destaca os
tipos de conduta que indicam uma
provável paixão doentia: fazer
tudo para agradar ao outro; não
se concentrar em nada quando
deseja falar com ele; viver
obcecado pelo medo de perdê-lo.
Segundo ele, a diferença entre
paixão e amor é estrutural.
"O sujeito apaixonado
investe tudo na outra pessoa e se
anula. Não ama ninguém, mas um
ideal que não existe. A paixão
é aniquiladora e, no amor, ao
contrário, há uma troca de
afetos".
QUANDO VALE
A PENA -as, as ligações
amorosas nem sempre são tão
perigosas. O psicanalista Eduardo
Losicer, por exemplo, adverte que
ninguém deve evitar os desejos
apaixonados, porque são eles que
impulsionam a vida. Ainda que
muitos desses casos de paixão,
como ele reconhece em sua
própria experiência clínica,
resulte em desfechos escabrosos.
"Quem não tem desejos
intensos ou não se deixa levar
por eles não vive. São pessoas
que trabalham, comem e dormem e
deixam a vida passar em branco.
Por mais perigosa que aparente
ser, a paixão é revigorante. E,
em muitos casos, embeleza,
rejuvenesce, alegra e prolonga a
vida".
Para Losicer, a
psicanálise pode ajudar os
apaixonados a lidarem com
fragilidades e surtos de loucura,
mas o hábito de discutir seus
sentimentos com um bom grupo de
amigos também acalma a ansiedade
dos corações sensíveis e
apaixonados. "É o caso
daquela dúvida terrível, pela
qual todos passam na vida: Devo
telefonar ou não? O psicanalista
não vai responder. É o amigo
quem dirá: Telefona! Dizer o que
sente para os amigos pode ser um
grande alívio para as aflições
afetivas.
Quem não tem
tantos amigos disponíveis pode
alcançar apoio em grupos de
auto-ajuda como os Neuróticos
Anônimos ou, para casos de
paixão mais descontroladas, no
grupo Mulheres Que Amam Demais,
que reúne aquelas que já
fizeram ou pensam em fazer
loucuras por paixão.
Para quem está
à beira de um colapso nervoso
por causa de fracasso amoroso,
algumas instituições
psiquiátricas públicas
brasileiras mantêm um serviço
de atendimento individual ou em
grupos. O psiquiatra e
psicanalista Marco Antonio Jorge
atende, no Rio de Janeiro, muitos
casos de surtos de loucura
provocados por paixões, nos
quais, na maioria dos casos, o
paciente se recupera da crise e
se estrutura para uma nova
possibilidade afetiva.
A dona-de-casa
D.O., de 35 anos, por exemplo,
mãe solteira de um menino de 9
anos, apaixonou-se pelo marido de
sua irmã. Os dois iniciaram um
tórrido romance. O cunhado a
ajudava financeiramente, mas,
como a relação ficava cada vez
mais séria e perigosa, ele
resolveu dar um fim a tudo. D.O.
enlouqueceu. Trancou-se em casa
com o filho e, num ataque de
loucura, quebrou o apartamento
inteiro: móveis,
eletrodomésticos, louças. A
família inteira acabou
descobrindo o romance secreto,
houve um escândalo e D.O.
precisou de atendimento
psiquiátrico. Agora tudo está
mais calmo. Ela tem um novo
namorado e já consegue se
relacionar com a irmã e o
ex-amante, que continuam casados.
ROMPIMENTO -
Marco Antonio Jorge observa
que os traços patológicos da
paixão aparecem de modo mais
nítido quando um dos dois
desiste da relação.
"Quando a paixão é de
alguma forma correspondida, tudo
vai aparentemente bem. Quando a
relação se rompe, a loucura
aparece. Estas pessoas que
enlouquecem porpaixão são
geralmente frágeis, com uma
identidade fragmentada e
comprometida, que não se
sustenta sem depender do outro.
Para as pessoas fragilizadas,
qualquer um que se apresente como
uma possibilidade mínima de
amparo, físico ou psíquico, é
candidato a objeto de paixão
doentia. Elas tentarão se fundir
no parceiro para que ele preencha
tudo o que lhes falta",
explica.
A loucura pode
aparecer de várias maneiras. Há
apaixonados que entram em crise
depressiva, outros entram em
surto maníaco, que se
caracteriza por uma euforia mais
parecida com a do efeito de
drogas do que com a alegria.
A comerciária
P. L., por exemplo, conseguiu
vencer a violenta depressão que
se abateu sobre ela após a morte
de seu amor. Este amante lhe
dava, além de carinho, ajuda
financeira e a incentivou até a
fazer um curso de informática.
Mas o sujeito andava fora da lei
e foi assassinado. P.L. entrou em
crise depressiva e chegou a
pensar em suicídio. "Ela
perdeu o amparo que mantinha sua
integridade", explica Marco
Aurélio.
A dor da
comerciária foi muito mais
violenta do que a de quem perde
um amante. Freud deixou claro no
texto Luto e melancolia que a
tristeza pela perda de alguém
amado é natural, mas a
melancolia é a tristeza sob
forma exagerada, com traços
patológicos de uma personalidade
que se perde junto com o objeto
amado. Portanto, a sensação de
que nada sobrou depois da partida
de um amor é sintoma de que
aquela relação tinha algo de
doentio. A julgar pela tese de
Theresa Creenshaw, por mais
cauteloso que seja o enamorado,
as perturbações de origem
bioquímica pela paixão são
inevitáveis.