- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 21 de junho de 1998

PROCESSO
Novas pesquisas revelam como as emoções comandam nosso cérebro

por HELIETE VAITSMAN
Agência Globo

A investigação do cérebro humano está ajudando a redefinir a origem das emoções e a contestar duas idéias estabelecidas. Uma dessas idéias diz que a personalidade é inteiramente formada no transcurso das experiências de vida. A outra garante que a origem de todas as nossas emoções está no inconsciente, ou seja, num conjunto de processos psíquicos que atuam sobre o comportamento, sem o controle da consciência.

Agora, pesquisas feitas nos Estados Unidos por neurocientistas como Antonio Damásio e Joseph LeDoux indicam que boa parte das nossas emoções - como a raiva e o medo - têm origem bioquímica. Os alicerces da vida emocional começam no cérebro e se estendem ao sistema imunológico, segundo essas pesquisas, que rejeitam a divisão tradicional entre corpo e mente.

Segundo Joseph LeDoux, professor do Center for NeuralScience da Universidade de Nova York autor do livro O cérebro emocional, recém-lançado no Brasil pela Editora Objetiva, a prova de que as emoções resultam de processos bioquímicos está no fato de que há reações padronizadas detonadas pelo cérebro, algumas delas comuns entre seres humanos e os animais irracionais.

"Nós fugimos do perigo porque temos medo ou sentimos medo porque fugimos? Experiências mostram que, ao contrário do que se costuma dizer, nós sentimos medo porque fugimos. Depois da fuga, temos a emoção e as reações físicas que a acompanham, como a aceleração do ritmo cardíaco, a dilatação das pupilas e o suor das mãos", diz LeDoux.

REAÇÕES - As pesquisas de LeDoux sobre o funcionamento cerebral explicam, por exemplo, que alguém seja capaz de detectar o perigo antes mesmo que uma situação concreta de ameaça aconteça a pessoa. Noutras palavras: a reação bioquímica precede a emoção.

LeDoux acha que os processos bioquímicos neurológicos explicam até os pressentimentos. A antecipação do perigo se desencadeia a partir de um estímulo visual, processado num ponto específico do cérebro: o tálamo. Dali, partem impulsos eletroquímicos na direção de outro ponto do cérebro, chamado de amígdala. O reconhecimento do perigo pela amígdala cerebral é tão rápido que faz a diferença entre vida e morte. Segundo LeDoux, os animais irracionais também têm um inconsciente emocional, com as oito emoções básicas que controlam as reações primitivas: o medo, a tristeza, a alegria, a expectativa (ou atitude de alerta), a raiva, a surpresa, a aceitação (ou conformismo).

"As emoções básicas estão presentes nos animais inferiores, mas as emoções derivadas de combinações entre emoções primárias são exclusivas dos seres humanos", diz LeDoux. Para o pesquisador, portanto, o que distingue os homens dos animais irracionais é a consciência da emoção. Só o ser humano é capaz de classificar o mundo lingüisticamente e de expressar experiências em palavras.

"A diferença entre medo, ansiedade, terror, apreensão e outras emoções não seria possível sem a linguagem. Nos seres humanos, as emoções evoluíram como estados cerebrais e reações corporais", diz LeDoux.

As conexões corticais com a amígdala são maiores em primatas do que em outros mamíferos. Segundo LeDoux, isso sugere a possibilidade de que, à medida que essas conexões continuem a expandir-se, num processo evolutivo natural, o córtex adquira controle crescente sobre a amígdala. Esse controle talvez permita que, no futuro, seres humanos controlem suas emoções primárias. Por enquanto, o máximo que podemos fazer é aprender a controlar as combinações nocivas de emoções primárias. Segundo LeDoux, as emoções trazem problemas quando fogem ao controle. É quando o medo se transforma em ansiedade, o desejo em ganância, a amizade em inveja e o amor em obsessão.

MÉTODOS - As idéias de LeDoux e Damásio levaram dezenas de pesquisadores americanos a elaborarem métodos práticos de controle das emoções. Entre eles, estão Daniel Goleman, o já famoso autor de A inteligência emocional, e Jeanne Segal, que propõe, em Aumentando sua inteligência emocional (Rocco), um teste para medir a habilidade de lidar com as próprias emoções (quadro ao lado). "A pesquisa de Joseph LeDoux é um guia soberbo para o entendimento da vida emocional", elogia Daniel Goleman.

O controle das emoções é vital sobretudo para garantir a saúde orgânica. "Não é possível ter uma experiência emocional contínua sem resposta do corpo. Somos tomados por uma emoção quando sentimos que algo põe em risco nossa vida e os recursos do cérebro são convocados para resolver o problema", diz LeDoux.

Esta mobilização do cérebro resulta numa redução dos níveis de neurotransmissores fundamentais ao bem-estar mental e orgânico, como por exemplo a serotonina. Daí a crescente importância dos suplementos vitamínicos e estimulantes de serotonina para a manutenção da saúde orgânica e a prevenção de doenças.

Em seu livro, LeDoux afirma que é fundamental distinguir entre emoções e sentimentos. Embora parecidas com os sentimentos, as emoções diferem deles por serem temporárias, causadas por circunstâncias externas. Os sentimentos são duradouros e internos. A distinção é essencial para o equilíbrio, como diz a psicóloga Nadya Regina Alcaraz Ferreira, do Núcleo de Desenvolvimento do Potencial Cognitivo. "O medo é positivo porque serve de alerta para garantir a sobrevivência. Mas é negativo quando se descontrola, transformando-se em ansiedade permanentes. O mesmo acontece com o amor quando vira obsessão. Há uma estrutura cerebral que leva a esse descontrole, mas pode-se modificá-la com exercícios mentais cotidianos e terapias cognitivas", comenta Nadya.


     

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