PROCESSO
Novas
pesquisas revelam como as
emoções comandam nosso cérebropor HELIETE VAITSMAN
Agência Globo
A
investigação do cérebro humano
está ajudando a redefinir a
origem das emoções e a
contestar duas idéias
estabelecidas. Uma dessas idéias
diz que a personalidade é
inteiramente formada no
transcurso das experiências de
vida. A outra garante que a
origem de todas as nossas
emoções está no inconsciente,
ou seja, num conjunto de
processos psíquicos que atuam
sobre o comportamento, sem o
controle da consciência.
Agora,
pesquisas feitas nos Estados
Unidos por neurocientistas como
Antonio Damásio e Joseph LeDoux
indicam que boa parte das nossas
emoções - como a raiva e o medo
- têm origem bioquímica. Os
alicerces da vida emocional
começam no cérebro e se
estendem ao sistema imunológico,
segundo essas pesquisas, que
rejeitam a divisão tradicional
entre corpo e mente.
Segundo Joseph
LeDoux, professor do Center for
NeuralScience da Universidade de
Nova York autor do livro O
cérebro emocional,
recém-lançado no Brasil pela
Editora Objetiva, a prova de que
as emoções resultam de
processos bioquímicos está no
fato de que há reações
padronizadas detonadas pelo
cérebro, algumas delas comuns
entre seres humanos e os animais
irracionais.
"Nós
fugimos do perigo porque temos
medo ou sentimos medo porque
fugimos? Experiências mostram
que, ao contrário do que se
costuma dizer, nós sentimos medo
porque fugimos. Depois da fuga,
temos a emoção e as reações
físicas que a acompanham, como a
aceleração do ritmo cardíaco,
a dilatação das pupilas e o
suor das mãos", diz LeDoux.
REAÇÕES
- As pesquisas de LeDoux
sobre o funcionamento cerebral
explicam, por exemplo, que
alguém seja capaz de detectar o
perigo antes mesmo que uma
situação concreta de ameaça
aconteça a pessoa. Noutras
palavras: a reação bioquímica
precede a emoção.
LeDoux acha que
os processos bioquímicos
neurológicos explicam até os
pressentimentos. A antecipação
do perigo se desencadeia a partir
de um estímulo visual,
processado num ponto específico
do cérebro: o tálamo. Dali,
partem impulsos eletroquímicos
na direção de outro ponto do
cérebro, chamado de amígdala. O
reconhecimento do perigo pela
amígdala cerebral é tão
rápido que faz a diferença
entre vida e morte. Segundo
LeDoux, os animais irracionais
também têm um inconsciente
emocional, com as oito emoções
básicas que controlam as
reações primitivas: o medo, a
tristeza, a alegria, a
expectativa (ou atitude de
alerta), a raiva, a surpresa, a
aceitação (ou conformismo).
"As
emoções básicas estão
presentes nos animais inferiores,
mas as emoções derivadas de
combinações entre emoções
primárias são exclusivas dos
seres humanos", diz LeDoux.
Para o pesquisador, portanto, o
que distingue os homens dos
animais irracionais é a
consciência da emoção. Só o
ser humano é capaz de
classificar o mundo
lingüisticamente e de expressar
experiências em palavras.
"A
diferença entre medo, ansiedade,
terror, apreensão e outras
emoções não seria possível
sem a linguagem. Nos seres
humanos, as emoções evoluíram
como estados cerebrais e
reações corporais", diz
LeDoux.
As conexões
corticais com a amígdala são
maiores em primatas do que em
outros mamíferos. Segundo
LeDoux, isso sugere a
possibilidade de que, à medida
que essas conexões continuem a
expandir-se, num processo
evolutivo natural, o córtex
adquira controle crescente sobre
a amígdala. Esse controle talvez
permita que, no futuro, seres
humanos controlem suas emoções
primárias. Por enquanto, o
máximo que podemos fazer é
aprender a controlar as
combinações nocivas de
emoções primárias. Segundo
LeDoux, as emoções trazem
problemas quando fogem ao
controle. É quando o medo se
transforma em ansiedade, o desejo
em ganância, a amizade em inveja
e o amor em obsessão.
MÉTODOS
- As idéias de LeDoux e
Damásio levaram dezenas de
pesquisadores americanos a
elaborarem métodos práticos de
controle das emoções. Entre
eles, estão Daniel Goleman, o
já famoso autor de A
inteligência emocional, e Jeanne
Segal, que propõe, em Aumentando
sua inteligência emocional
(Rocco), um teste para medir a
habilidade de lidar com as
próprias emoções (quadro ao
lado). "A pesquisa de Joseph
LeDoux é um guia soberbo para o
entendimento da vida
emocional", elogia Daniel
Goleman.
O controle das
emoções é vital sobretudo para
garantir a saúde orgânica.
"Não é possível ter uma
experiência emocional contínua
sem resposta do corpo. Somos
tomados por uma emoção quando
sentimos que algo põe em risco
nossa vida e os recursos do
cérebro são convocados para
resolver o problema", diz
LeDoux.
Esta
mobilização do cérebro resulta
numa redução dos níveis de
neurotransmissores fundamentais
ao bem-estar mental e orgânico,
como por exemplo a serotonina.
Daí a crescente importância dos
suplementos vitamínicos e
estimulantes de serotonina para a
manutenção da saúde orgânica
e a prevenção de doenças.
Em seu livro,
LeDoux afirma que é fundamental
distinguir entre emoções e
sentimentos. Embora parecidas com
os sentimentos, as emoções
diferem deles por serem
temporárias, causadas por
circunstâncias externas. Os
sentimentos são duradouros e
internos. A distinção é
essencial para o equilíbrio,
como diz a psicóloga Nadya
Regina Alcaraz Ferreira, do
Núcleo de Desenvolvimento do
Potencial Cognitivo. "O medo
é positivo porque serve de
alerta para garantir a
sobrevivência. Mas é negativo
quando se descontrola,
transformando-se em ansiedade
permanentes. O mesmo acontece com
o amor quando vira obsessão. Há
uma estrutura cerebral que leva a
esse descontrole, mas pode-se
modificá-la com exercícios
mentais cotidianos e terapias
cognitivas", comenta Nadya.