-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 26 de junho de 1998


JOELMIR BETTING

Faltam 555 dias

Na correção do bug do milênio, antes do réveillon do ano 2000, daqui a 555 dias, exatamente, o custo de cada linha retificada de programa está subindo no compasso da contagem regressiva para o caos cibernético anunciado. Em 1995, quando o mundo acordou para o desafio da máquina que não pensa, a correção de cada linha de programa variava de US$ 0,70 a US$ 1,10. Em julho do ano passado, já oscilava entre US$ 1,30 e US$ 2,25. Nesta altura do calendário, o tranco já passa de US$ 3,20. Ano que vem, perto de US$ 5,00.

O cálculo é do consultor Marcos Felix Monte Rabstein, autor da cartilha Bug do Milênio - O Que Fazer para Combatê-lo. Cartilha encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) que começa a ser distribuída, em todo o País, pelas entidades estaduais da indústria. Vale repetir: o bug (falha ou erro em inglês) é a leitura equivocada que os computadores e equipamentos "chipados" farão do ano 2000 a partir de 1º de janeiro, um sábado. Como o campo de data reserva apenas dois dígitos para o ano, os computadores traduzirão o 00 do ano 2000 pelo 00 do ano 1900.

E eis o caos. O bug, também chamado de Y2K pelos americanos, está instalado hoje no ventre de 265 milhões de computadores pessoais, 86 mil computadores de grande porte e 21 bilhões de aparelhos eletroeletrônicos com campo de data - de relógios a submarinos, de mísseis a marcapassos, de sinais de trânsito a tráfego aéreo, de cartões de crédito a extratos bancários, de aplicações financeiras a carnês de previdência, de equipamentos hospitalares a usinas nucleares, de robôs industriais a telefones celulares... Tudo o que se move a toque de digital economy.

Autoridade no assunto, os peritos do Gartner Group estimam que a extirpação do bug deve custar, em todo o mundo, algo parecido com US$ 350 bilhões, por baixo. Ou o dobro disso, se a correção ficar para a última hora. Outros especialistas falam numa conta apocalíptica de até US$ 1,5 trilhão. Ainda assim, como adverte Daniel Burrus, corrigir o bug sairá bem menos caro do que remediar os estragos que o dito-cujo promoverá em todo o mundo. Pelo sim, pelo não, os Estados Unidos deram de dramatizar o problema nas empresas e nos governos. Nada menos de 730 mil pessoas estão trabalhando na assepsia dos programas contaminados pelo Y2K.

Pesquisa com 2.400 empresas em 17 países, realizada pelo Gartner Group, dá calafrios. As chances de que pelo menos uma em cada três empresas informatizadas, em todo o mundo, não consiga livrar-se a tempo do bug são de 70%. Como as distraídas e as retardatárias estão plugadas on-line com fornecedores, distribuidores e parceiros diversos, a fuzarca digital sacudirá intranets de todo o tipo e lugar. A operação de extração do Y2K envolve bilhões ou trilhões de linhas de programa em todo o mundo. E o tempo restante dissolve-se feito sorvete no asfalto. O ano 2000 não pode ser adiado.

No Brasil

Banco Central, CVM, Serpro, Dataprev, repartições federais e empresas estatais prometem escapar do bug até meados do ano que vem. Nos governos estaduais, as ações vão da ofensiva plena a uma indiferença total.

Acordados

Bancos e bolsas já resolveram quase dois terços do bug. O setor financeiro é o prato predileto do caos com data marcada. Os custos da correção ainda não foram divulgados. O sistema espera livrar-se do Y2K ainda este ano.

Na indústria

Sondagem da Fiesp junto a 420 indústrias revela que 57% delas estão no ralo de alcance do bug. Das ameaçadas, 71% já iniciaram os trabalhos de correção por conta própria ou por contratação de consultorias do ramo.

Da cartilha

A cartilha da CNI não esgota o assunto, mas faz bom rastreamento das soluções técnicas existentes. E dimensiona os riscos da acomodação ou da indiferença. Com o detalhe: empresas relapsas poderão ser processadas por prejuízos a terceiros.

 
 

 

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