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NA GRANDE
ÁREA
Armando
Nogueira
Denílson
no sereno
PARIS -
Denílson, caput. Está fora da
Seleção, depois de uma pálida
exibição em que cometeu a
ingenuidade de trocar o drible
pelo passe. Dizem até que se deu
coisa pior: o garoto teria
sentido o peso da camisa titular.
Vai ver não avisaram a ele que o
jogo valia tanto quanto um furo
n'água.
Inibido,
desconcentrado, seja lá o que
for, o certo é que o mais
brasileiro dos jogadores
brasileiros desperdiçou uma
chance de ouro pra se impor à
obsessão esquemática do
técnico Zagalo. Bastava que ele
fizesse, meia dúzia de vezes, o
que fez na jogada do gol de
Bebeto. Não seria nada fácil
afastá-lo da equipe, depois de
um grande recital.
Ao optar pelo
passe bem comportado, Denílson
contrariou sua vocação, que é
o drible, a invenção, a
irreverência. Virou um ponta
como outro qualquer. Perdeu a
originalidade. Eu quase diria que
Denílson renunciou à própria
sina. Tendo nascido pra driblar,
não driblou. Sinto muito dizer,
mas Denílson negou, quando não
podia negar, o sopro que lhe
concedeu a graça de driblar.
Não me perguntem de onde vem o
dom de driblar que tinha
Garrincha, que tinha Canhoteiro,
que tem Denílson. Alguém, por
ventura, já pensou em perguntar
por que canta o rouxinol?
Denílson está
para o drible assim como
Ronaldinho está para o gol. A
diferença de sortes, é que, pra
driblar, o jogador não precisa
senão de uma singela bola nos
pés, velocidade zero. O
artilheiro precisa de muito mais.
Precisa de cumplicidades. Se
alguém não lhe passar a bola,
no instante certo, no lugar
certo, dificilmente ocorrerá o
gol. Ele depende, em suma, da
centelha do chute certeiro.
Denílson e
Ronaldinho vivem dramas
semelhantes, nesse momento. Ambos
estão devendo alguma coisa ao
futebol. Ronaldinho continua na
dança da boa esperança.
Denílson, que pena, vai ficar
vendo a Copa, sentadinho, no
sereno, a purgar o pecado de
driblar seu próprio destino.
O ESPÍRITO
DA PALAVRA - O técnico Bora
Milutinovic, da Nigéria, é uma
figura espirituosa. Abriu, assim,
uma entrevista coletiva: "Os
senhores podem fazer suas
perguntas. Eu prometo que farei o
possível e o impossível pra
não responder..." Uma
bondade de desfecho saboroso. Me
fez lembrar um lance
extra-futebol que guarda uma
certa semelhança com a presença
de espírito de Bora.
O político
gaúcho Jair Soares, então,
ministro da Previdência, andava
levando pau da imprensa, nem me
lembro bem porque. Sei que era
chumbo grosso. Acuado, o ministro
pediu uma chance pra se defender,
no Jornal Nacional. Toninho
Drummond, então, diretor de
jornalismo da Globo, em
Brasília, acompanha o ministro
até o estúdio.
- Toninho -
pergunta o ministro Jair Soares
-, quanto tempo eu tenho pra
falar?
E Toninho, com
a maior reverência:
- Ora,
ministro, o mínimo que o senhor
desejar!
O ETERNO
ARTILHEIRO...- O francês
Just Fontaine, artilheiro da Copa
em 58, dá uma bispada na ficha
dos artilheiros e sorri,
tranqüilinho. Quem mais gols
fez, até aqui, foi o argentino
Batistuta: fez quatro, em duas
partidas. Faltam cinco jogos pra
ele, caso a Argentina chegue ao
fim da Copa. Se fizer a média de
dois por partida, o que não é
nada fácil. Ainda assim,
Batistuta não ultrapassa
Fontaine. Quando muito, iguala-se
nos 13 gols.
Just Fontaine
fez 13 gols, quando a Copa era
disputada em seis jogos (agora,
são sete). E mais: como na
época, ser artilheiro ou não,
dava no mesmo, Fontaine nem fez
questão de cobrar o pênalti da
Alemanha contra a França, no
jogo pelo terceiro lugar. Teria
tido chance de chegar a 14 gols.
O pênalti foi chutado por
Raymond Kopa.
Quem chegou
mais perto de Fontaine, até
hoje, é Ademir, com 10 gols, na
Copa de 50.
QUEM CUIDA
DELA? - Finda cada partida,
os jogadores deixam o campo,
exaustos. Correram, em média, 10
quilômetros. Caminham,
ofegantes, sonhando com o repouso
em águas mornas de uma banheira
coletiva. Depois, a massagem que
relaxa a musculatura fatigada.
Penso na bola
do jogo. A bola é uma criatura.
Um ser vivo como nos. Precisa de
ar pra viver. Corre o dobro do
jogador, senão muito mais. Quem
cuidará dela, no vestiário?
Quem irá aplacar a dor das
câimbras que lhe enrugam os
gomos, seus músculos hexagonais?
RÁPIDAS E
RASTEIRAS - A imprensa
européia não fala em outra
coisa: arbitragem da Copa. Ontem,
aqui mesmo, disse que Júnior
Baiano não tinha cometido
pênalti contra Tore Flo.
Entramos bem. A tevê sueca
mostra Júnior Baiano puxando
ostensivamente a camisa do
holandês e ainda dando um
chega-pra-lá pelas costas, o que
caracteriza falta. A conversa da
vídeo-arbitragem fica pra
depois. *** A rainha Sofia, da
Espanha, não entendeu nada: a
Fúria dá de 6x1 na Bulgária,
simplesmente, a maior goleada da
Copa, e os jogadores deixam o
campo, cabisbaixos. Sua majestade
ficou sem saber se comemorava ou
não. Quando lhe disseram que a
Espanha acabava de ser eliminada
da Copa, a rainha há de ter
pensado: "Ao vencedor, as
batatas!" - como diria
Machado. *** O jogador brasileiro
prefere o desafio. Esnoba a
facilidade. Pelo menos é o que
diz Zico, lembrando o jogo com a
Noruega. Tomara que ele esteja
certo.
Colaboraram
Paulo Cesar Vasconcelos e Andréa
Escobar
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