MEMÓRIA
A
perfeita tradução da Américapor JOSÉ TELES
A mãe de Jacob
Gershovitz, como toda mãe judia
que preze, deve ter bradado aos
céus, pedindo clemência, quando
o filho, de 15 anos, revelou que
ia abandonar o curso médio de
comércio, para trabalhar numa
editora musical. Quatros anos
mais tarde, já com o pseudônimo
de George Gershwin, o rapaz
conseguia com Swannee (composta
quando tinha 17 anos), o primeiro
de uma série de sucessos. Na voz
de Al Johnson, a música vendeu
dois milhões de cópias, em
1919.
Nascido há
exatos cem anos, George Gerswhin,
embora tenha vivido relativamente
pouco (morreu em 11 de julho de
1937, de câncer no cérebro, com
39 anos incompletos), deixou uma
das mais perfeitas, influentes e
prolíficas obras musicais deste
século.
Desde os seis
anos, quando escutou Melodie in F
de Arthur Rubinstein, Gershwin
foi contagiado pela música. Aos
9 começou a aprender piano (que
os pais haviam adquiridos para o
irmão Ira, depois seu letrista
mais constante). Aos 15 foi
trabalhar em Tin Pan Alley, uma
pequena rua em Manhattan que
ainda hoje congrega várias
editoras musicais em Nova Iorque.
O trabalho de
George Gerswhin era tocar as
partituras ao piano e convencer
as pessoas a comprarem. Segundo
seus biógrafos, ele era muito
bom nisto, alterando ritmos,
compasso, conforme a impressão
que causava no freguês. Este
emprego certamente o influenciou.
Ele ocupava o horário de folga
para trabalhar suas próprias
composições (sua primeira
canção publicada foi When You
Want'Em You Can't Get'Em; When
You've Got'Em You Don't Want'Em,
em 1916).Com Swanne ele
deslanchou, e os EUA descobriam
um músico que, mesmo vivendo
numa era de talentos como Cole
Porter, Jerome Kern, Irving
Berlin, seria considerado o mais
importante de todos eles, não
por acaso um de seus apelidos era
Mr.Music.
Para se ter uma
idéia de como os americanos
idolatravam George Gershwin.
Quando ele entrou em coma e
foi-lhe diagnosticado um tumor no
cérebro, a Casa Branca deu
ordens imediatas para que dois
destroiers procurassem localizar
o iate do melhor neurologista do
país, que se encontrava em
férias na baía de Chesapeake.
Era o mínimo que se poderia
fazer por um artista que por
quase três décadas embalou a
América ao som de uma trilha
sonora impecável, que incluía
canções como Nice Work If You
Get It, Shall We Dance, I Got
Rhythm, Embraceable You, Someone
to Watch Over Me, Summertime (da
ópera Porgy And Bess) ou
inovadoras peças instrumentais
que tinha Stravinski entre seus
admiradores, das quais a mais bem
sucedida comercialmente foi
Rhapsody In Blue.
Cole Porter ou
Irving Berlin, contemporâneos de
George Gershwin, foram magistrais
autores de canções, tanto ou
mais mais belas e refinadas do
que as de George Gerswhin. O que
o diferencia substancialmente dos
autores da época é a
utilização inovadora de
seqüências complexas de acordes
e um convite implícito à
ousadia interpretativa (o que o
tornou um dos preferidos de
músicos de jazz) e ainda mais:
seu grande achado foi colocar no
mesmo caldeirão sonoro música
européia, jazz, blues e judia,
sem perder o dom da melodia
contagiosa e cativante.
As
composições de Gershwin estão
imunes a rótulos. Tantos são
executadas por orquestras
sinfônicas, cantores líricos,
quanto por jazzmen (Miles Davis,
por exemplo, que gravou Porgy and
Bess), ou por astros de rock. Se
Duke Elligton popularizou I Got
Rhythm (do musical Girl Crazy),
Frank Sinatra imortalizou Nice
Work If You Can Get It, Ray
Charles deu o tom bluesy a Bess
You Is My Woman Now.
Seu trabalho
mais ambicioso, Porgy And Bess,
foi um dos menos reconhecidos em
sua época, certamente por estar
bem a frente do seu tempo.
Enquanto Kern e Berlin escreviam
exuberantes canções de amor,
Gershwin enfurnava-se no deep
south americano, e contava, em
compasso de blues, a história de
negros pobres. Porgy and Bess
recebeu críticas adversas, e
teve uma carreira curtíssima na
Broadway. Em poucas semanas
sairia de cartaz, dando prejuízo
aos produtores. O tempo
reabilitou Porgy and Bess, mesmo
assim, estranhamente, agora que
nos Estados Unidos comemora-se
efusivamente o centenário do
compositor, não há nenhuma
encenação prevista da sua
ópera e há anos que não a
apresentam na íntegra.
George Gershwin
encontrou o complemento perfeito
para suas canções, no irmão
Ira, dois anos mais velho que
escreveu as letras de suas
canções principais.Ira viveu
até os 83 anos (morreu em 1996).
Juntos compuseram musicais (Girl
Crazy, Lady, Be Good), operetas
(Let 'Em Eat Cake, Of Thee I
Sing), óperas Porgy and Bess,
trilhas hollywoodianas (Shall We
Dance, A Damsel In Distress,
Delicious).
A partir do
megasucesso de Swanee o dinheiro
começou a jorrar na conta
bancária de George Gershwin, e
ele foi pródigo em gastá-lo.
Como se houvesse recebido uma
premonição de que teria vida
curta, foi um bon vivant, atleta,
pintor de considerável talento,
festeiro incorrigível (adorava
animar salões, cantando e
acompanhando-se ao piano suas
próprias composições. Parecia
não sofrer problemas com
egotrips). Nada mal para um filho
de imigrantes russos que, quando
garoto, louco por cinema, mas sem
dinheiro, fingia-se de menor de
rua, até arrecadar o suficiente
para adquirir uma entrada, e que
furtava guloseimas nas
confeitarias de Connecticut (um
dos vários subúrbios em que os
Gershovitz moraram. Até a
adolescência, Gershwin conheceu
vinte e oito casas diferentes).
Em um artigo
sobre Gershwin, escrito para o
New York Times, e transcrito no
Estadão, Paul Simon elogia-lhe o
talento, e lamenta por ele não
ter influenciado sua geração
(incluía aí Bob Dylan, Lennon
& McCartney e ele mesmo),
pois foram adolescentes já na
era do rock and roll e rhythm and
blues. Impossível Simon não ter
escutado Gershwin mais do que
admite. Suas canções e peças
nunca pararam de tocar no rádio.
Ritmicamente,
os grandes compositores pop dos
60 tinham muito a ver com o rock
and roll, mas sem Gershwin,
Porter e Berlin jamais criariam
melodias com a complexidade
harmônica e melódica de Bridge
of Troubled Waters, Here There
and Everywhere, ou In My Life. E
cabe a um dos ícones dos 60s
mostrar que Paul Simon está, no
mínimo equivocado. Foi com
Summertime (a mais conhecida
canção de Porgy and Bess), de
George e Ira Gershwin, que Janis
Joplin despontou para o
estrelato, na sua melhor e mais
pungente interpretação, no
festival de Monterey, em 1967.