- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 26 de setembro de 1998

MEMÓRIA
A perfeita tradução da América

por JOSÉ TELES

A mãe de Jacob Gershovitz, como toda mãe judia que preze, deve ter bradado aos céus, pedindo clemência, quando o filho, de 15 anos, revelou que ia abandonar o curso médio de comércio, para trabalhar numa editora musical. Quatros anos mais tarde, já com o pseudônimo de George Gershwin, o rapaz conseguia com Swannee (composta quando tinha 17 anos), o primeiro de uma série de sucessos. Na voz de Al Johnson, a música vendeu dois milhões de cópias, em 1919.

Nascido há exatos cem anos, George Gerswhin, embora tenha vivido relativamente pouco (morreu em 11 de julho de 1937, de câncer no cérebro, com 39 anos incompletos), deixou uma das mais perfeitas, influentes e prolíficas obras musicais deste século.

Desde os seis anos, quando escutou Melodie in F de Arthur Rubinstein, Gershwin foi contagiado pela música. Aos 9 começou a aprender piano (que os pais haviam adquiridos para o irmão Ira, depois seu letrista mais constante). Aos 15 foi trabalhar em Tin Pan Alley, uma pequena rua em Manhattan que ainda hoje congrega várias editoras musicais em Nova Iorque.

O trabalho de George Gerswhin era tocar as partituras ao piano e convencer as pessoas a comprarem. Segundo seus biógrafos, ele era muito bom nisto, alterando ritmos, compasso, conforme a impressão que causava no freguês. Este emprego certamente o influenciou. Ele ocupava o horário de folga para trabalhar suas próprias composições (sua primeira canção publicada foi When You Want'Em You Can't Get'Em; When You've Got'Em You Don't Want'Em, em 1916).Com Swanne ele deslanchou, e os EUA descobriam um músico que, mesmo vivendo numa era de talentos como Cole Porter, Jerome Kern, Irving Berlin, seria considerado o mais importante de todos eles, não por acaso um de seus apelidos era Mr.Music.

Para se ter uma idéia de como os americanos idolatravam George Gershwin. Quando ele entrou em coma e foi-lhe diagnosticado um tumor no cérebro, a Casa Branca deu ordens imediatas para que dois destroiers procurassem localizar o iate do melhor neurologista do país, que se encontrava em férias na baía de Chesapeake. Era o mínimo que se poderia fazer por um artista que por quase três décadas embalou a América ao som de uma trilha sonora impecável, que incluía canções como Nice Work If You Get It, Shall We Dance, I Got Rhythm, Embraceable You, Someone to Watch Over Me, Summertime (da ópera Porgy And Bess) ou inovadoras peças instrumentais que tinha Stravinski entre seus admiradores, das quais a mais bem sucedida comercialmente foi Rhapsody In Blue.

Cole Porter ou Irving Berlin, contemporâneos de George Gershwin, foram magistrais autores de canções, tanto ou mais mais belas e refinadas do que as de George Gerswhin. O que o diferencia substancialmente dos autores da época é a utilização inovadora de seqüências complexas de acordes e um convite implícito à ousadia interpretativa (o que o tornou um dos preferidos de músicos de jazz) e ainda mais: seu grande achado foi colocar no mesmo caldeirão sonoro música européia, jazz, blues e judia, sem perder o dom da melodia contagiosa e cativante.

As composições de Gershwin estão imunes a rótulos. Tantos são executadas por orquestras sinfônicas, cantores líricos, quanto por jazzmen (Miles Davis, por exemplo, que gravou Porgy and Bess), ou por astros de rock. Se Duke Elligton popularizou I Got Rhythm (do musical Girl Crazy), Frank Sinatra imortalizou Nice Work If You Can Get It, Ray Charles deu o tom bluesy a Bess You Is My Woman Now.

Seu trabalho mais ambicioso, Porgy And Bess, foi um dos menos reconhecidos em sua época, certamente por estar bem a frente do seu tempo. Enquanto Kern e Berlin escreviam exuberantes canções de amor, Gershwin enfurnava-se no deep south americano, e contava, em compasso de blues, a história de negros pobres. Porgy and Bess recebeu críticas adversas, e teve uma carreira curtíssima na Broadway. Em poucas semanas sairia de cartaz, dando prejuízo aos produtores. O tempo reabilitou Porgy and Bess, mesmo assim, estranhamente, agora que nos Estados Unidos comemora-se efusivamente o centenário do compositor, não há nenhuma encenação prevista da sua ópera e há anos que não a apresentam na íntegra.

George Gershwin encontrou o complemento perfeito para suas canções, no irmão Ira, dois anos mais velho que escreveu as letras de suas canções principais.Ira viveu até os 83 anos (morreu em 1996). Juntos compuseram musicais (Girl Crazy, Lady, Be Good), operetas (Let 'Em Eat Cake, Of Thee I Sing), óperas Porgy and Bess, trilhas hollywoodianas (Shall We Dance, A Damsel In Distress, Delicious).

A partir do megasucesso de Swanee o dinheiro começou a jorrar na conta bancária de George Gershwin, e ele foi pródigo em gastá-lo. Como se houvesse recebido uma premonição de que teria vida curta, foi um bon vivant, atleta, pintor de considerável talento, festeiro incorrigível (adorava animar salões, cantando e acompanhando-se ao piano suas próprias composições. Parecia não sofrer problemas com egotrips). Nada mal para um filho de imigrantes russos que, quando garoto, louco por cinema, mas sem dinheiro, fingia-se de menor de rua, até arrecadar o suficiente para adquirir uma entrada, e que furtava guloseimas nas confeitarias de Connecticut (um dos vários subúrbios em que os Gershovitz moraram. Até a adolescência, Gershwin conheceu vinte e oito casas diferentes).

Em um artigo sobre Gershwin, escrito para o New York Times, e transcrito no Estadão, Paul Simon elogia-lhe o talento, e lamenta por ele não ter influenciado sua geração (incluía aí Bob Dylan, Lennon & McCartney e ele mesmo), pois foram adolescentes já na era do rock and roll e rhythm and blues. Impossível Simon não ter escutado Gershwin mais do que admite. Suas canções e peças nunca pararam de tocar no rádio.

Ritmicamente, os grandes compositores pop dos 60 tinham muito a ver com o rock and roll, mas sem Gershwin, Porter e Berlin jamais criariam melodias com a complexidade harmônica e melódica de Bridge of Troubled Waters, Here There and Everywhere, ou In My Life. E cabe a um dos ícones dos 60s mostrar que Paul Simon está, no mínimo equivocado. Foi com Summertime (a mais conhecida canção de Porgy and Bess), de George e Ira Gershwin, que Janis Joplin despontou para o estrelato, na sua melhor e mais pungente interpretação, no festival de Monterey, em 1967.


     

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