-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 28 de março de 1998

Terrorismo não

Muito chocante e preocupante a carta de uma professora e proprietária rural expropriada, divulgada pelo jornalista Alberto Dines neste Jornal do Commercio e em outros jornais. Marô de Freitas, professora de arte, e seu marido, engenheiro agrônomo, possuíam uma fazenda no Estado de Tocantins. Não era simplesmente para criar gado ou plantar. A casa da fazenda era seu lar. Moraram ali doze anos. Perderam tudo graças a uma invasão de supostos sem-terra, liderada por um empregado da fazenda; que não era improdutiva, ao contrário, era pioneira do desenvolvimento rural na região. O bando se instalou em casas da fazenda (para que barracas de lona?, observa dona Marô) e passou a praticar todo tipo de barbaridade. Uma pesada ação aterrorizante, uma vez por mês; e curtiam os demais 30 dias faturando o terror mensal. Uma tática que revela a mão de um movimento organizado.

Metodicamente, ela anotou tudo: foi apedrejada; seu marido foi baleado no rosto; quatro empregados também foram aquinhoados com tiros; duas pontes, serraria e curral queimados; duas casas de alvenaria destruídas a marretadas; ameaças constantes; tiros nos veículos; matança de gado; derrubada de cercas; fogo na reserva florestal. Nada disso motivou as autoridades policiais nem as judiciárias. Não suportando mais as pressões `reivindicatórias', que ela atribui ao MST, tiveram que abandonar a fazenda. "Tenho todas as provas, documentos em cartório. Posso mostrar as cicatrizes dessa desgraça que se abateu sobre uma família que apenas queria ser feliz", afirma. Acrescenta que não tem mais casa e mora num apartamento apertado em Goiânia. Seu casamento acabou-se, o marido sucumbindo a uma psicose maníaco-depressiva. Pretende mudar-se para os Estados Unidos, onde goza de reputação como professora: "Nossa única saída é sair deste Eldorado", conclui.

É reforma ou destruição pura e simples? Tem direito, o MST, de abrigar bandidos e desqualificados, que atacam propriedades produtivas, desorganizando ainda mais a produção agropecuária?; de tomar de assalto prédios públicos? É verdade que latifundiários e donos de terras improdutivas, guardadas para especulação, também mantêm seus pistoleiros e cometem arbitrariedades. É certo também que a grande responsabilidade pela situação insustentável que atravessamos é o governo (sucessivos governos), que só trata de reforma agrária de maneira demagógica e eleitoreira. Isso não dá direito a ninguém de apelar para o terrorismo. Pressão, sim. O pouco que o governo realiza nesse campo o faz por causa das pressões. Mas o MST e movimentos similares se desmoralizam e perdem sua razão de ser quando partem para o banditismo puro e simples, como o descrito por dona Marô. O que eles podem representar de positivo para a reforma agrária fica prejudicado pela arbitrariedade, a prepotência, a certeza de uma impunidade assentada em articulações políticas.

Infelizmente, temos que concluir que nada caminharia no Brasil sem pressão. Nossos dirigentes têm um cacoete de afirmar que não decidem sob pressão. Um non-sense, um quase-bordão pouco inteligente, pois só se decide sob pressão; seja externa, seja da nossa própria cabeça: princípios, argumentos, emoções, filosofia de vida etc. A pressão de segmentos organizados da sociedade tem sido responsável pelo pouco que o governo faz pela reforma agrária. Com pelo menos meio século de atraso, em comparação com o Japão e a Coréia do Sul, para falarmos apenas de dois países que levam a sério os interesses de seus cidadãos. Essa pressão é legítima. Terrorismo é outra coisa.

Além da má vontade oficial em fazer uma reforma agrária indispensável ao progresso do país, há que considerar também, como temos feito, que o pouco que se realiza é capenga. Não se pode falar em reforma agrária como apenas desapropriação e redistribuição de terras. Fazer somente isso é inviabilizar e desmoralizar conscientemente a reforma. É o que tem sido feito desde a desapropriação do Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, ainda nos anos 50, da Usina Caxangá etc. Sem crédito, assistência técnica, consultoria, fica impossível produzir, comercializar. Os neoproprietários vendem suas glebas e voltam a engrossar a miséria nas periferias das cidades. A pregação e a luta de Joaquim Nabuco, de André Rebouças, não eram apenas pela libertação dos escravos, mas por uma reestruturação agrária em profundidade.

 
 

 

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