Terrorismo nãoMuito chocante e
preocupante a carta de uma
professora e proprietária rural
expropriada, divulgada pelo
jornalista Alberto Dines neste
Jornal do Commercio e em outros
jornais. Marô de Freitas,
professora de arte, e seu marido,
engenheiro agrônomo, possuíam
uma fazenda no Estado de
Tocantins. Não era simplesmente
para criar gado ou plantar. A
casa da fazenda era seu lar.
Moraram ali doze anos. Perderam
tudo graças a uma invasão de
supostos sem-terra, liderada por
um empregado da fazenda; que não
era improdutiva, ao contrário,
era pioneira do desenvolvimento
rural na região. O bando se
instalou em casas da fazenda
(para que barracas de lona?,
observa dona Marô) e passou a
praticar todo tipo de
barbaridade. Uma pesada ação
aterrorizante, uma vez por mês;
e curtiam os demais 30 dias
faturando o terror mensal. Uma
tática que revela a mão de um
movimento organizado.
Metodicamente,
ela anotou tudo: foi apedrejada;
seu marido foi baleado no rosto;
quatro empregados também foram
aquinhoados com tiros; duas
pontes, serraria e curral
queimados; duas casas de
alvenaria destruídas a
marretadas; ameaças constantes;
tiros nos veículos; matança de
gado; derrubada de cercas; fogo
na reserva florestal. Nada disso
motivou as autoridades policiais
nem as judiciárias. Não
suportando mais as pressões
`reivindicatórias', que ela
atribui ao MST, tiveram que
abandonar a fazenda. "Tenho
todas as provas, documentos em
cartório. Posso mostrar as
cicatrizes dessa desgraça que se
abateu sobre uma família que
apenas queria ser feliz",
afirma. Acrescenta que não tem
mais casa e mora num apartamento
apertado em Goiânia. Seu
casamento acabou-se, o marido
sucumbindo a uma psicose
maníaco-depressiva. Pretende
mudar-se para os Estados Unidos,
onde goza de reputação como
professora: "Nossa única
saída é sair deste
Eldorado", conclui.
É reforma ou
destruição pura e simples? Tem
direito, o MST, de abrigar
bandidos e desqualificados, que
atacam propriedades produtivas,
desorganizando ainda mais a
produção agropecuária?; de
tomar de assalto prédios
públicos? É verdade que
latifundiários e donos de terras
improdutivas, guardadas para
especulação, também mantêm
seus pistoleiros e cometem
arbitrariedades. É certo também
que a grande responsabilidade
pela situação insustentável
que atravessamos é o governo
(sucessivos governos), que só
trata de reforma agrária de
maneira demagógica e
eleitoreira. Isso não dá
direito a ninguém de apelar para
o terrorismo. Pressão, sim. O
pouco que o governo realiza nesse
campo o faz por causa das
pressões. Mas o MST e movimentos
similares se desmoralizam e
perdem sua razão de ser quando
partem para o banditismo puro e
simples, como o descrito por dona
Marô. O que eles podem
representar de positivo para a
reforma agrária fica prejudicado
pela arbitrariedade, a
prepotência, a certeza de uma
impunidade assentada em
articulações políticas.
Infelizmente,
temos que concluir que nada
caminharia no Brasil sem
pressão. Nossos dirigentes têm
um cacoete de afirmar que não
decidem sob pressão. Um
non-sense, um quase-bordão pouco
inteligente, pois só se decide
sob pressão; seja externa, seja
da nossa própria cabeça:
princípios, argumentos,
emoções, filosofia de vida etc.
A pressão de segmentos
organizados da sociedade tem sido
responsável pelo pouco que o
governo faz pela reforma
agrária. Com pelo menos meio
século de atraso, em
comparação com o Japão e a
Coréia do Sul, para falarmos
apenas de dois países que levam
a sério os interesses de seus
cidadãos. Essa pressão é
legítima. Terrorismo é outra
coisa.
Além da má
vontade oficial em fazer uma
reforma agrária indispensável
ao progresso do país, há que
considerar também, como temos
feito, que o pouco que se realiza
é capenga. Não se pode falar em
reforma agrária como apenas
desapropriação e
redistribuição de terras. Fazer
somente isso é inviabilizar e
desmoralizar conscientemente a
reforma. É o que tem sido feito
desde a desapropriação do
Engenho Galiléia, em Vitória de
Santo Antão, ainda nos anos 50,
da Usina Caxangá etc. Sem
crédito, assistência técnica,
consultoria, fica impossível
produzir, comercializar. Os
neoproprietários vendem suas
glebas e voltam a engrossar a
miséria nas periferias das
cidades. A pregação e a luta de
Joaquim Nabuco, de André
Rebouças, não eram apenas pela
libertação dos escravos, mas
por uma reestruturação agrária
em profundidade.