- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 30 de setembro de 1998

CINEMA
Veneza marcou toda uma geração de cinéfilos

por KLEBER MENDONÇA FILHO

O Veneza foi inaugurado com o filme Aeroporto, em dezembro de 1970, pelo Grupo Severiano Ribeiro. Dias antes da inauguração, militares foram politicamente homenageados com uma sessão privada de Tora! Tora! Tora!, superprodução sobre a ação dos americanos no Pacífico, durante a 2ª Guerra. Era uma época de um outro Brasil, um outro Recife.

O cinema Veneza foi, até 1988, o melhor cinema desta cidade (seu slogan era "O Melhor da Veneza"), embora sua época áurea tenha sido os anos 70. Com 800 cadeiras distribuídas numa espécie de útero acarpetado do piso ao teto, o cinema passava a sensação de aconchego e proteção. O projeto de interiores foi realizado pela arquiteta Janete Costa e o cinema foi construído com toda a tecnologia de exibição existente na época. Estava de igual para igual com qualquer cinema do Rio, São Paulo ou qualquer cidade do mundo.

O Veneza era tão chique que a sala de espera do primeiro andar tinha sofás e um bar onde, durante os seus anos dourados, eram servidos uísque e champagne! Junto do bar, uma cabine acarpetada do chão ao teto (como uma caverna) estranhamente oferecia uma intimidade um tanto generosa para um casal que preferisse ficar só, bebendo. Um estilo bem kitsch, anunciando o que viria depois, nos anos 70.

O auditório em si apresentava excelentes condições de projeção. A tela extra-curva foi desenhada para projetar 70mm e D-150 mas, absurdo dos absurdos, um acidente envolvendo cabos de aço, ainda na fase pré-inauguração, "travou" a moldura mecânica da tela num formato de aproximadamente 1:95 (estreito, bem longe do ideal em termos de largura), cortando ainda a imagem nas partes superior e inferior. Durante os seus quase 30 anos, o Veneza mostrou filmes scope ou 70mm com porções significativas da imagem fora da tela, muitas vezes entrando por cima das cortinas estilo setentão (brancas com estampas laranja). O título inicial de Alien - o 8o Passageiro (filmado em Panavision) ficou "- L I E -", o "A" e o "N" fora da tela. Uma pena.

No quesito som, no entanto, o Veneza sempre impressionou. Seus alto-falantes surround (localizados ao redor da platéia) foram embutidos e escondidos, desde a construção, nas paredes, apenas com discretas janelas camufladas visíveis. Reproduziu, até 83, cópias em 70mm (se não me engano, O Retorno do Jedi foi o último filme em 70mm a passar lá), com seis canais de som stereo (cinco na tela, um ao redor do cinema). Com a chegada do Dolby Stereo, o 70mm tornou-se caro e de difícil manuseio. Saiu de linha.

Quem viveu a época, ainda guarda lembranças das 22 semanas em que Hair foi exibido em 70mm, com imagem cristalina (embora podada) e som impressionante, alto e claro, especialmente na abertura, com os hippies dançando no Central Park ao som de Aquarius. É provável que o sucesso estrondoso de Hair no Recife durante o primeiro e segundo semestres de 1980 se deu à apresentação do filme em 70mm, no Veneza. Outros musicais, como Xanadu e Fama também foram exibidos nesse formnato, assim como clássicos tipo A Filha de Ryan e Os 12 Condenados.

Com o 70mm desativado, 1985 trouxe a instalação de um equipamento stereo ótico, anunciado pela empresa Severiano Ribeiro como sendo Dolby Stereo, mas provavelmente um similar nacional chamado TCE. De qualquer forma, com o marketing de Amadeus (o novo som ótico teria sido instalado para o filme ser bem exibido) e o som novo, possante e nas alturas, o Veneza recuperou o prestígio de exibir filmes com bom som. Não sei o que a empresa fazia, mas o som do Veneza realmente soava melhor do que qualquer outro cinema, no Recife. Talvez pela acústica, talvez por ser o Veneza.

Com a abertura das três salas no shopping de Boa Viagem, em dezembro de 88, o Veneza viu o início do seu fim, decadência que duraria 10 anos. Com a dilapidação do centro do Recife e a migração do público classe "A" para Boa Viagem (que até então, não tinha cinema), o Veneza virou automaticamente cidadão de segunda categoria, um "cinema do centro". O bar do primeiro andar e a inusitada cabine íntima, há anos desativados, foram tapados com gesso durante as 35 semanas de Ghost, entre 1990 e 1991, e isolados com corrente, sem falar que, durante boa parte do ano, o balcão permanecia fechado. Em 1995, com o surgimento da Sessão de Arte, o Veneza passou a ser bem freqüentado às segundas-feiras à noite, embora a projeção tenha ficado escura e o som, bem, o som não é nem bom lembrar do que o som foi e de como o som terminou ficando. Imagine cada ator falando com um megafone.

O tiro de misericórdia veio com a abertura dos multiplexes, especialmente o do Shopping Tacaruna, a menos de três quilômetros da Rua do Hospício. Historicamente, onde quer que um multiplex chegue, cinemas modelo antigo nas imediações quebram e fecham. Não há como competir. Ainda por cima, o Veneza sofreu o sério problema de ter sido construído sob um prédio inacabado, drama que a empresa Severiano Ribeiro viveu durante 30 anos e que deu graças a Deus por poder se livrar.

Se todo mundo tem um cinema da infância, o Veneza, para mim, foi o cinema da minha infância. Foi lá que vi, aos 13 anos recém completos, Os Caçadores da Arca Perdida, de Spielberg, no natal de 1981, com minha mãe, Joselice, provavelmente a maior e mais emocionante sessão de cinema de toda a minha vida. Primeiro, o filme tinha censura 14 anos ("cenas de violência e suspense"), e consegui passar muito bem acompanhado pela minha mãe. Segundo, o impacto do filme foi estupendo, algo que na época creditei ao filme, claro, mas também ao fato de vê-lo no tão especial Veneza. De agora em diante, vai ser difícil passar pela frente deste templo e não lembrar daquela sessão de sábado, às 16h20. That's Entertainment.


     

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