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Crianças nos passos de Platão

Quando o professor pergunta a Hugo Almeida, 10 anos, para onde vai a luz, o garoto responde: "Antes de saber para onde vai a luz, é preciso saber de onde ela vem". A resposta articulada e inteligente nasceu provavelmente das novas aulas que o menino, aluno da quarta série do ensino fundamental, vem assistindo desde o início do ano passado: Hugo está estudando filosofia, disciplina que vem novamente se incorporando ao dia-a-dia das escolas da cidade.

Vista com péssimos olhos pelo regime militar, que a aboliu dos currículos escolares (junto à sociologia), um pouco antes do Decreto Institucional nº 5, a ciência criada por Platão, Sócrates e Aristóteles começa a se popularizar após um longo período no ostracismo. O mais interessante é essa retomada tem justamente no público infantil o seu principal alvo. "O que os filósofos e as crianças têm em comum é a capacidade de maravilhar-se com o mundo", disse certa vez o professor americano Mattew Limpman, criador do projeto.

É a curiosidade infantil o principal combustível para as jornadas filosóficas propostas pela "nova" matéria. Muito embora discussões sobre o real sentido das palavras e sobre os significados da verdade possam parecer herméticos para serem levados a esse público, os educadores não têm duvidas que o filosofar é inerente ao mundo dos pequenos. "Todas as crianças são hábeis para essa prática socrática", diz um dos coordenadores do Centro Regional de Filosofia para Crianças, Paulo Cavalcanti, responsável pela implantação do projeto em Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

As aulas são verdadeiras mini-Ágoras (espécie de praça da Grécia Antiga onde pessoas se reuniam para discutir vários assuntos, inclusive filosofia). Sem pudores, meninos e meninas da primeira até a oitava série debatem, opinam e levantam questionamentos sobre ações e conceitos do cotidiano, como valores morais, relacionamentos e caráter. "Nosso objetivo é que eles desenvolvam a capacidade de raciocinar e desenvolver habilidades dentro da sala de aula", diz o professor de filosofia Aderson Filho, lembrando que uma de suas turmas mais expressivas é formada por garotos de primeira série. "Noto que após a adoção da disciplina, as crianças estão lendo livros de maior qualidade, além de estarem questionando a realidade", continua.

De acordo com Paulo Cavalcanti, vários pais de alunos têm procurado o centro para saber o motivo da mudança comportamental de seus filhos em casa. "Eles estranham as perguntas dos meninos, tem até gente que não gosta, acha que o filho tem que aprender apenas coisas exatas", conta. Capacitando professores da área para que se tornem especialistas em aulas filosóficas para crianças, Cavalcanti diz que o centro é procurado por escolas que estão se decepcionando com a estrutura atual do ensino". "O corte curricular da disciplina durante a ditadura afetou drasticamente no modo de pensar de toda uma geração. Foi jogada uma verdadeira bomba de ignorância sobre nós", critica.

O especialista é autor de um estudo que deve mudar a opinião daqueles que ainda vêem a Filosofia como um hobbie de luxo. Para provar o quanto a ciência é desencadeadora de uma melhoria geral nas matérias escolares, Paulo Cavalcanti dividiu uma turma de sexta série em duas partes, com 15 alunos cada. Num grupo, chamado experimental, o professor passou a aplicar aulas de conteúdo filosófico. O outro grupo continuou a estudar apenas as matérias anteriormente oferecidas, como Matemática e Ciências.

Um ano após o início do experimento, foi aplicado um teste de raciocínio lógico sobre literatura e ciências na classe toda. Na prova de ciências, a turma que estudou filosofia teve uma média de acerto de 50%, enquanto o grupo de controle saiu-se com 25% de acertos. Na prova de literatura, a turma experimental obteve um desempenho de 45%, enquanto a turma de controle ficou om 15%. Os resultados são uma ótima arma para que os educadores desta área provem a importância da disciplina na grande escolar.

"Vale salientar que os resultados seriam bem melhores caso o grupo experimental já estudasse filosofia há mais tempo", fala Cavalcanti. O diretor administrativo do colégio Souza Leão, Mauro Nogueira, lembra a facilidade com que alunos da disciplina se saem em testes de matemática e outras ciências exatas. "A filosofia ajuda bastante numa prova de vestibular", acredita.

Atualmente, cerca de 500 escolas no Brasil aplicam o método criado por Matthew Lipman, ou seja, cerca de 300 mil alunos vêm estudando a matéria em escolas públicas (a maioria em São Paulo) e particulares. Os trinta anos da criação do projeto serão comemorados no Congresso Internacional de Filosofia com Crianças e Jovens, que acontece em julho, em Brasília.

RAZÃO COM EMOÇÃO - Para a coordenadora nacional do Centro de Filosofia para Crianças, Isabel Cristina Santana, o interesse em relação à ciência vem aumentando cada vez mais por uma razão fundamentalmente existencial, e, portanto, filosófica. "Estamos numa época em que as pessoas estão à procura de significados. Saber o porquê das coisas tornou-se vital", diz Isabel.

Outra questão curiosa apontada pela coordenadora é a contraditoriedade entre o aumento da procura pela filosofia e o avanço cada vez mais assombroso da tecnologia. "Pensa-se que essa corrida pela tecnologia poderia estar acontecendo em detrimento da Filosofia, mas o que temos é cada vez mais escolas procurando pela educação com reflexão". Para Paulo Cavalcanti, o que faz da ciência ser eternamente necessária é sua capacidade de elevar os conceitos das pessoas em frente a realidade. "A humanidade está muito avançada, fabrica equipamentos impressionantes, mas também vemos uma pessoa entrar num ônibus e matar a outra por um motivo fútil".

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Jornal do Commercio
Recife - 28.03.99
Domingo