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ARTIGO

Os 500 anos

por ARTHUR CARVALHO*

Tendo Portugal se convencido de que não alcançaria a Índia por terra (o caminho mais curto), dados os obstáculos geográficos intransponíveis, resolveu enfrentar os mares bravos da costa oriental da África, contornando o Cabo da Boa Esperança, para lograr êxito. Afinal, a Índia tinha cravo, canela e pimenta, especiarias cobiçadas, na época, além de seda, algodões finos, esmeraldas, rubis e outras pedras preciosas.

Zarpando Pedro Álvares Cabral do Tejo, no comando de majestosa frota de dez naus e três caravelas, terminando por "descobrir" o Brasil em parte por evitar as calmarias do Golfo de Guiné, em parte por curiosidade, pois Vicente Pinzon e Diogo de Lepe já haviam desembarcado em Suape (talvez pra tomar uma com Mano Teodósio), garantindo haver terra por estas paragens -, Cabral estava de olho mesmo era na boutique dela, da Índia. Tanto que escalou em Porto Seguro, despachou um emissário pra Lisboa, dando as alvíssaras, e se picou pra Calicute com o resto do bando. Como não encontrou riqueza palpável na Bahia (além das pataxós tomando banho nos riachos) e papagaio, Pero Vaz de Caminha enviou carta pra D. Manoel I, queixando-se, fazendo o monarca perder a tesão pela efeméride (com licença da palavra).

Até 1530 o Brasil continuou entregue aos chamados aborígenes, às onças, cobras, macacos e araras. Ninguém queria saber destas plagas, a não ser pra trocar bugigangas por pau-brasil, de grande aceitação no mercado europeu, com os indígenas. Um dia, índios, náufragos, degredados e traficantes (à frente um tal de Aleixo Garcia, figura misteriosa e tremebunda), que moravam entre Santa Catarina, Cabo Frio e São Vicente, alertaram os aventureiros que ali passavam, que penetrando o território uns 1.500 quilômetros, de Leste a Oeste, eles iriam encontrar um povo riquíssimo, com muito ouro e muita prata - os incas. Segundo as informações, a Civilização Inca era adiantada e poderia ser atingida pelo rio Paraná, no Sul do continente, ou a pé, ultrapassando a Serra do Mar.

A notícia se espalhou e as expedições das coroas ibéricas rumo ao Peru se sucederam, sendo dizimadas por doenças, fome e ataques dos selvagens que habitavam a região, até que Francisco Pizarro conseguiu galgar o cerro de Potosi, de 600 metros de altura, governado por Atahulpa, o lendário "rei branco", quase todo de prata pura e do qual os conquistadores extraíram seis toneladas do metal - fortuna que causou impacto na economia européia.

"Começaram então os saques e massacres dos incas, astecas e maias pelos espanhóis, em nome da catequese. Não encontrando minerais no Brasil, Portugal, Espanha e França trataram de afanar nossas florestas de "pau-de-tinta". Depois vieram o rendoso tráfico de escravos e os ciclos do açúcar, ouro, borracha, cacau, café etc. Em nenhuma dessas etapas os dominadores fizeram outra coisa a não ser explorar a mão-de-obra nativa e perseguir o lucro fácil e imediato.

Tal como a classe política, a aristocracia social organizou-se, no Império, em torno de um ideal de permanência e imutabilidade. No início da República, ela agiu da maneira que lhe era habitual, preservando seus privilégios. Vieram então a República Velha, o Estado Novo, o controle do câmbio, o suicídio de Getúlio, a tentativa de impedir a posse de JK, a renúncia de Jânio, a deposição de Jango, pelo golpe de 64, tudo tramado e executado pela elite que se reveza no poder até hoje. Como anunciariam os alto-falantes do Maracanã, saem os colonizadores, entra o FMI. Resultado: enquanto o desemprego em massa e a miséria batem todos os recordes históricos, os bancos particulares registram os mais astronômicos lucros de todos os tempos. Vale conferir.

* Arthur Carvalho é jornalista


Jornal do Commercio
Recife - 03.02.99

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