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FOLIA
J. Michiles é a alegria em forma de frevo

por JANAÍNA LIMA

Uma das principais características das músicas de J. Michiles é a alegria. Se o frevo já é um ritmo por si só elétrico, solto, cheio de vida, ao se encontrar com as suas canções, o ritmo mais famoso de Pernambuco ferve de verdade. Apesar de nunca ter estudado música, ele vem se firmando como um dos mais importantes compositores de frevo da atualidade, contabilizando mais de 50 sucessos gravados. Nada surpreendente. Criatividade é o que não falta a esse ex-professor de desenho artístico, que agora vive de fazer jingles.

"Adoro Carnaval. Gosto de acompanhar o Ceroulas, as Virgens de Olinda, o Galo da Madrugada...", afirma Michiles, que completa amanhã 56 anos. "Aprendi a gostar do frevo desde menino, ouvindo Capiba, José Menezes, Luís Bandeira e outros compositores famosos. Até hoje ainda caio no passo", completa o compositor, que será homenageado na noite desta terça-feira, no acerto de marcha do Bloco Banhistas do Pina.

A música está no sangue. Sobrinho de Orlando Dias, cantor bastante conhecido nos idos dos anos 50, Michiles conta que quando tocava uma música do tio no rádio, "a vizinha logo chamava a minha mãe para ouvir. Não tínhamos rádio em casa, por isso adorava ficar ouvindo o som que vinha do rádio dela". Mas uma passagem bem marcada na memória é de aos sete anos ter ouvido Carlos Gardel cantando uma música de Capiba. "Naquela época ouvia-se muito Levino, Zumba, Capiba, Caimelo. Os frevos novos começavam a ser tocados em outubro. Também se ouvia marchinha, por causa do Rio de Janeiro. Era Emilinha Borba, Marlene, Jamelão e Francisco Alves", explica o compositor, que afora os ritmos carnavalescos, também gostava de forró. "Luiz Gonzaga já era um dos melhores sanfoneiros. Era a época de Cintura Fina, Mandacaru, Algodão...", conta Michiles, relembrando alguns sucessos do Velho Lua.

Apesar da tendência musical, o interesse nos estudos foi para a área do desenho. Aos 15 anos, Michiles ingressou na Escola Industrial, onde conheceu Naná Vasconcelos, amigo até os dias atuais. "Ele já fazia todas essas mungangas que faz nos shows", acrescenta.

A primeira música gravada foi um bolero. Você Me Maltratou foi interpretada por Victor Bacelar, em l962. Dois anos depois, o menino José botou na cabeça que queria ir "romper o ano" no Rio. Afinal, lá encontraria o tio famoso. Pura ilusão. No meio do caminho, lá para as bandas da Bahia, o ônibus semi-leito, que iria fazer o trajeto até a Cidade Maravilhosa, quebrou. "Saí do Recife numa quinta-feira, às 14h, um dia depois do Natal, e acabei passando o Ano Novo numa tapera à beira da estrada na Bahia. Naquela época era chique ir passar o Ano Novo no Rio. Só cheguei lá no dia 2 de janeiro", relembra.

A odisséia do artista não parou por aí. Sem saber que caminho tomar ao chegar no Rio de Janeiro, Michiles lembrou de ir até a Rádio Nacional, onde o tio Orlando Dias costumava se apresentar. A rádio tinha um dos programas de auditório mais famosos dos anos 60. "Deixei a maleta na portaria e subi. Fui direto para o auditório. Encontrei Manoel Barcelos apresentando as músicas do Carnaval daquele ano. Foi um sonho", declara. O tio, Orlando Dias, havia se apresentado um pouco antes de Michiles chegar.

Durante três meses, Michiles viveu o sonho carioca. Trabalhou como desenhista numa casa publicitária e elaborou um calipso (que hoje seria chamado de fita-demo) com uma versão para I Wanna Hold Your Hand, dos Beaties. A música, batizada Não Quero Que Você Chore, foi gravada pelos Golden Boys, com grande sucesso.

De volta ao Recife, o artista começou a participar dos concursos de música promovidos pela Rádio Clube, TV Tupi e Canal 2 (hoje TV Jornal). Mas a primeira vitória só aconteceu em 1966, aos 23 anos, num concurso promovido pela Emetur (hoje, Empetur). "O tema uma canção para o Recife. Fiz uma marcha-de-bloco, chamada Recife, Manhã de Sol, que foi interpretada por Marcos Aguiar. Ganhei o equivalente a um carro zero. Foi importantíssimo na minha vida. Competi com nomes como Ariano Suassuna e Capiba", conta. O disco foi lançado pela Rozemblitz, sendo um dos mais vendidos daquele ano.

Com o prêmio, o compositor, que sobrevivia das aulas de desenho nos colégios da rede estadual ("Vivia bem. Professor não ganhava tão pouco como agora") comprou um táxi. "Passei a rodar e as novas composiçôes ficaram mais freqüentes", diz.

SUCESSOS - Em meados dos anos 80, Michiles iniciou uma espécie de "parceria" com Alceu Valença. Apesar de nunca terem composto juntos, Alceu já deu voz a quase uma dezena de músicas de autoria de Michiles. O início dessa "dobradinha musical" foi com o frevo Bom Demais, lançado em 1986. Depois vieram Me Segura Se Não Eu Caio, Roda e Avisa (parceria com Edson Rodrigues, em homenagem póstuma ao apresentador Chacrinha), Fazendo Fumaça e Diabo Louro.

Mas não foi só a Alceu que Michiles emprestou as suas canções. Na lista dos artistas que já cantaram as letras alegres do compositor figuram: Fafá de Belém (Fazendo Fumaça, Forró Fogoso e Negue), André Rio (Queimando a Massa e Babado da Morena), Claudionor Geimano (Queimando a Massa), Banda Pingüim (Queimando a Massa), Verão Brasileira (Perna Pra Que Te Quero), Nádia Maia (EspeIho Doido), Novinho da Paraíba (Forró Fogoso) e Coral do Bloco da Saudade (Sonhos de Pierrô, Obrigado Criança e Bloco da Saudade), entre outros.

O trabalho como compositor vem se fortalecendo ainda mais desde que o artista passou a compor jingles. Mais uma vez as letras de Michiles esbanjam alegria. Como em: "Acorda Povo que São João Chegou./ No Reciforró, a festa começou./ Vamos botar fogo na boca desse balão/, que o Reciforró é de São Pedro e São João". A música, interpretada por Dominguinhos, é o tema do São João da cidade do Recife.

"Comecei a trabalhar com publicidade desenhando ainda menino. Depois que deixei de ser professor e passei a compor mais, vieram as primeiras musiquinhas", declara Michiles, que foi o idealizador dos temas da campanha de Jarbas Vasconcelos ao cargo de governador do estado.

Agora, Michiles investe em novo projeto. Ele pretende lançar ainda este ano o livro Cercas e Quintais, uma espécie de "diário de bordo" dos anos 47 a 64. "Quero destacar a época em que morei no Rio. Era uma cidade ainda sem violência, tranqüila e boêmia. Mas também vou falar muito do Recife. Não será uma retrospectiva da carreira, já que não vou falar sobre os anos 80, época em que vieram os meus principais sucessos", explica.

"Depois de Diabo Louro as pessoas passaram a enfeitar-se mais. Hoje a gente já encontra muitos pierrôs, colombinas e palhaços nas ruas. Esse resgate das fantasias de Carnaval é maravilhoso. Acho que é dos pontos positivos na briga com a Bahia", ressalta Michiles, sobre a disputa da cultura local com os trios elétricos baianos.

Outro ponto importante para ele é o aumento no número de lançamento de discos de frevo, apesar da falta de rigidez no pagamento dos direitos autorais. "Já foi pior. Com a nova lei da Ecad, que está para entrar em vigor, tudo deve melhorar", espera.

E o que falta para que o frevo seja tocado nas rádios?. "Falta interesse dos órgãos públicos e articulação com os programadores de rádio. Isso incentivaria os novos compositores. Iniciativas como o Cana Caiana (bloco que desfila na semana pré-carnavalesca tocando apenas música pernambucana) devem ser trabalhadas. Precisamos também de escolas de música, para que os jovens sejam levados a estudar mais o frevo", destaca.



Jornal do Commercio
Recife - 03.02.99